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9 Silos Experimentais para Lisboa


O automóvel, responsável por alterações profundas na história da cidade ao longo do século XX, pareceu não constituir uma limitação (pelo contrário, era uma força propulsora) para o sentido de modernidade que impregnava o "espírito do tempo" europeu entre as duas grandes guerras. O desejo e as aspirações das vanguardas históricas em torno do imaginário mecânico permitiram pensar a cidade articulada pelo novo sentido de espaço e de tempo permitido pelo automóvel. Mesmo sabendo que a utopia moderna falhou, e as cidades do pós-guerra parcialmente daí derivadas são associadas a ambientes urbanos de grande dureza e rigidez, é difícil esquecer uma imagem carregada de significado e pertinência: a espiral no interior do cone invertido do Museu Guggenheim (1943-59) em Nova Iorque de Frank Lloyd Wright, derivada da inversão de um silo automóvel - uma montanha cónica - que o arquitecto não tinha conseguido construir alguns anos antes. É o movimento mecânico a ideia geradora da forma que de imediato se converte numa "ode" pedonal ao espaço e à luz. Esta referência incontornável do século XX, razoavelmente distante do tempo que vivemos, permite-nos um afastamento seguro e uma memória em relação ao tema.

Os projectos apresentados pela Experimenta Design, concebidos a convite desta associação, são percorridos por temas intrínsecos à cultura urbana contemporânea. Emergem assim denominadores comuns como Flexibilidade, Pré-fabricação e Ecologia, feitos matéria de trabalho. Com esta base conceptual os projectos conduzem a soluções que superam em muito o programa funcional "silo automóvel", para se deterem num olhar crítico sobre a cidade genérica, e principalmente sobre uma Lisboa onde a relevância arquitectónica do que se constrói continua a ser episódica. De facto, quase todas as propostas adicionam outras hipóteses programáticas ao silo, comércio à cabeça, mas também paisagem e espaço público, produção de energia ou suporte mediático, no sentido do cumprimento da flexibilidade já referida. As questões construtiva e ecológica aparentam ser quase sempre remetidas a uma questão de pele ou invólucro - uma questão expressiva - mais do que uma convicção disciplinar. Neste sentido poderão ficar aquém das expectativas os trabalhos destes arquitectos, e as respectivas abordagens a estes temas, face à pobreza conceptual, tipológica e expressiva da maioria dos projectos apelidados ecológicos ou verdes habitualmente construídos.

As nove propostas dividem-se em dois grupos temáticos: silos que trabalham sobre a topografia tirando dela partido ou reinventando-a; e silos que se assumem como objectos globais, adaptáveis a qualquer cidade. No primeiro grupo encontramos as propostas dos escritórios Cristina Veríssimo + Diogo Burnay (CVDB arquitectos) e do arquitecto paisagista João Gomes da Silva. Enquanto para os primeiros é a possibilidade de "transformabilidade" que envolve a estrutura, uma sequência de peles mutáveis que envolvem um núcleo de rampas, no segundo e estrutura funciona "como o esqueleto da paisagem", como afirma o autor, oferecendo à cidade - neste caso o bairro da Graça - um espaço público na cobertura. São as duas propostas que mais directamente se referem a um dado fundamental da nossa cultura urbana - a riqueza topográfica - e a possibilidade de tirar partido da sua complexidade.

No segundo grupo de projectos, concebidos "in vitro", encontramos subdivisões temáticas. Três propostas concentradas no trabalho sobre o invólucro (e aqui podemos incluir também o silo do escritório CVDB), duas propostas concentradas na relação imediata entre estrutura, espaço e expressão, sem mediações, e , por último, dois projectos mais claramente concebidos desde a procura de uma plasticidade adequada ao programa. O E-studio (Gonçalo Prudêncio, João Ribeiro, João Ferrão, Tiago Saraiva) , S'A (Carlos Sant' Ana) e Nuno Guerreiro trabalharam com estruturas relativamente banais revestidas com invólucros de características diversas. Uma natureza morta no interior de uma pele vidro no caso do E-studio e uma membrana fotovoltaica no caso de Nuno Guerreiro. Destas propostas ressalta o projecto Parq® de Carlos Sant'Ana, que concebeu um jardim vertical. Trata-se de um híbrido de referências, que pode ser lido como uma metáfora de um ecossistema. Contem pássaros, trepadeiras, e obviamente carros, contidos no interior desta arquitectura submetida às variações da sazonalidade, que são a sua expressão para a cidade.

Pedro Costa e Célia Gomes (escritório AS*) e Luís Pereira Miguel trabalharam desde a pré-fabricação das partes procurando uma correspondência imediata entre e estrutura, espaço e expressão. O AS* apelidou o seu silo de "Do It Yourself" reforçando a ideia da variação máxima do todo a partir da variação mínima das partes. Trata-se um projecto/ manual de instruções que nos introduz num jogo de composição a partir de uma peça de betão pré-moldado. É um projecto que vive da tensão produzida entre o pragmatismo da abordagem inicial e posterior desconstrução do mesmo através da ideia de jogo e deriva ou arbitrariedade. Um princípio rígido que permite resultados permutáveis consoante o lugar a implantar. Esta estratégia "polimorfófica" está também presente no trabalho de Luís Pereira Miguel, simplesmente a partir de outro material: o aço.

O ultimo grupo de trabalhos caracteriza-se pela procura da expressão adequada ao tema, e eventualmente por um menor compromisso temático, o que não significa menor riqueza conceptual. Apesar do apuramento formal parecem ter menor capacidade estratégica no que diz respeito à relação com a cidade. É o caso de Patrícia Chorão Ramalho e do colectivo Emit Flesti (Nuno Jacinto, Paulo Rodrigues), cujos trabalhos reflectem uma demanda pela plasticidade intrínseca ao programa em causa, com destaque para o trabalho dos segundos, com as rampas a moldarem os topos escultóricos do objecto.

O percurso pelas nove propostas de jovens arquitectos para a construção de silos na cidade de Lisboa, provoca pelo menos uma reflexão: como não aceitar a inevitabilidade do silo automóvel, enquanto produto de um tempo e dos temas que o dominam?

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 05 Julho 2003.

Posteriormente o texto foi publicado no livro "SAL Silos Automóveis de Lisboa", Câmara Municipal de Lisboa, Lisboa, 2003 ISBN 972 -98330-5-2.