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Uma Visita ao Panorama


Um edifício panorama

Imaginemos um edifício panorama. As múltiplas imagens que vemos no interior são a reconstrução que a arquitectura faz das realidades que assolam o quotidiano. Hoje, ao contrário do passado recente, relativiza-se a experiência da perenidade, e coloca-se no centro, ou melhor nos vários centros, o transitório e o efémero [1]. Toda a arquitectura reage a este facto, agudizando e intensificando essa condição instável da contemporaneidade ou reiterando uma posição de resistência contra a mesma. E as imagens do panorama mostram como esses modos de entendimento e transformação da realidade, através da arquitectura, convivem entre si numa paisagem totalmente construída à revelia da sua acção civilizadora e humanista.

O edifício panorama imaginário é visitado por portugueses e estrangeiros. Os portugueses olham para estas obras de arquitectura e procuram filiações de escola, nacionais ou internacionais. O fascínio pelo exterior é grande, em particular pela arquitectura produzida na Europa central, no eixo Basileia-Roterdão. Os estrangeiros olham e vêm algo diverso. Detectam algo de lacónico e ontológico nesta arquitectura, mas não identificam a heterodoxia que os portugueses referem relativamente ao seu trabalho, antes dizem existir algo constante entre as obras, como as formas elementares pintadas de branco.

Percebemos então que os visitantes do panorama vêem e reconhecem coisas diferentes. Os portugueses não criaram ainda distância temporal suficiente para identificar as invariantes presentes na sua arquitectura e a ditadura do Estado Novo (1933-1974) fragilizou a consciência e a curiosidade pela cultura nacional. Os estrangeiros desejam encontrar na arquitectura portuguesa algo remoto e já inalcancável nos países das economias dominantes da União Europeia. Constrói-se assim um panorama duplo a partir destes dois modos de olhar: de dentro para fora e de fora para dentro.

De dentro para fora

Se quisermos lançar um tema presente na arquitectura feita em Portugal, podemos isolar a ideia do "princípio de realidade", numa cultura que sempre esteve afastada do desejo de utopia. O "princípio de realidade" relaciona-se sobretudo com uma forma de pragmatismo que tira partido das contingências, procurando um caminho desde aí. A Escola de Arquitectura do Porto produziu (genericamente entre o final da década de 60 e o final dos anos 80) uma hipótese metodológica que esteve na base da formação, directa ou indirecta, das gerações mais jovens. Esse método estava fortemente marcado pelo trabalho sobre uma ideia de lugar (genius loci) como base de sustentação conceptual, que atribuiu à melhor arquitectura um carácter fortemente ontológico.

É exactamente com o colapso desta metodologia, ou processo de trabalho, que se gera uma crise disciplinar. O desgaste do "princípio de realidade", exponenciado pelos media e pela cultura de massas, introduziu uma fractura no sentido de objectividade intrínseco à arquitectura. Dos escombros de um mundo que se tornou mais complexo, híbrido, passaram a existir apenas respostas concretas que, arquitectos como Álvaro Siza, dão a determinados problemas. E é o trabalho incontornável deste arquitecto que vai permitir novamente um discurso sobre uma arquitectura de génese local e universal e motivar outras leituras do território, da história e da técnica.

As gerações mais jovens cruzaram este legado, com qual nunca operam uma verdadeira ruptura, com a experiência de desenraizamento e fragmentação que caracteriza a condição do arquitecto contemporâneo. Daí emergiu um panorama timidamente plural, ao qual não é alheio, o facto da mobilidade dos arquitectos mais jovens ser agora incomparavelmente mais intensa . A melhor arquitectura produzida na contemporaneidade já não opera uma espacialidade ordenada de forma lógico-cronológica, mas antes subordinada a vários fragmentos, ou "focos de interesse", catapultados para o projecto como um íman [2], com "a necessidade de propor a cada passo, simultaneamente o objecto e o seu fundamento" [3].

De fora para dentro

A obra de Álvaro Siza motivou uma curiosidade sobre o país onde as suas primeiras obras se construíram. E a descoberta do território onde o arquitecto opera revelou um conjunto de temas que alimentaram o discurso crítico, produzido no exterior, sobre a arquitectura portuguesa e que influenciaram o olhar desta sobre si própria. Os temas são a dialéctica entre a modernidade a arquitectura vernácula, que produziu arquitecturas com uma relação expressiva com as culturas arcaicas via Movimento Moderno; a utilização simultânea de trabalho artesanal e industrial, que produziu do ponto de vista da expressão e da técnica um sentido de materialidade e detalhe singular e, por último, a consciência da condição artística que a produção arquitectónica portuguesa revela a partir da pós-modernidade.

Para os que chegam de fora e olham o território estes temas parecem não acusar já a sua presença face à sua desregulação. Torna-se inevitável perguntar como foi possível, e continua a ser possível, a destruição sistemática de milhares de anos de cultura. E como é possível que, face a esse nivelamento por baixo de uma cultura, ainda sejam produzidas obras singulares?

Estes temas constituíram uma base interpretativa tão forte que, face ao exterior, toda a arquitectura produzida em Portugal que escape a esta condição hermenêutica será lida a com muito menos interesse. Grande parte do trabalho dos arquitectos mais jovens está sincronizado com inquietações de carácter global e as suas obras convocam uma fortíssima intensificação da experiência estética a partir das novas mestiçagens. Mas o periférico país, que lançou ao mundo obras também elas periféricas mas de grande intensidade cultural, aparenta estar condenado a ser olhado como lugar de uma melancolia que, olhada do interior, parece já não habitar a sua casa.

notas ao texto

  1. Gianni Vattimo, "A Sociedade Transparente" (1989), Relógio d' Água, Lisboa 1992.

  2. Analogia retirada da introdução do poeta Haroldo de Campos a uma edição dos "Cantos" de Ezra Pound.

  3. Ignasi Solà-Morales, "Arquitectura Débil" (1987) in "Diferencias. Topografía de la Arquitectura Contemporánea", Gustavo Gili, Barcelona 1995.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para a revista chinesa WA-World Architecture nº 187 Janeiro 2006.