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Habitar. Percurso em Via Rápida


Entramos no século XX com o sistema palpitante das propostas oitocentistas. Friedrich Nietzshe anunciava em 1872, na "Origem da Tragédia", uma batalha intelectual contra o condicionalismo histórico, que, lida pelas vanguardas, iria permitir o trabalho revolucionário de repensar o mais amado dos programas arquitectónicos: a casa. Individual ou Colectiva. Desta última, a casa colectiva, falou também Friedrich Engels na obra "A Questão do Alojamento" de 1872. Do ponto de vista da figura do século - o trabalhador - o habitar estava para Engels indissociavelmente ligado ao fim da oposição cidade/ campo. Se juntarmos o mito moderno da higiene ao fim do condicionalismo histórico e à figura colectiva do trabalhador, e pensarmos na metrópole como destino do espaço doméstico por excelência, encontramos alguns dos princípios reguladores que vão nortear a arquitectura doméstica no século XX.

Dois dos mais importantes arquitectos do modernismo pensaram a casa de acordo com as premissas já referidas, ou seja a partir da tensão entre o individual e colectivo. Enquanto Le Corbusier empilhava o individualismo doméstico da villa, no "Inmeuble-Villa" de 1922, criando um novo sentido vertical do colectivo, oferecendo apartamentos com jardim; Mies van der Rohe insistia no espaço doméstico exaurido das contingências funcionais e hierárquicas. A individual mas reprodutível "Casa com Três Pátios", de 1934, liberta-se da compartimentação burguesa e espraia-se até encontrar o muro que define o seu perímetro para novamente se olhar a si própria - através do pátio. Estas visões dos ambientes domésticos, libertos da rigidez, morfológica e tipológica, da parede mestra e do seu carácter mediador entre interior e exterior, não vão contudo penetrar de imediato na banalidade do quotidiano. Vai ser preciso esperar pela mediação, isenta de radicalidade, dos promotores imobiliários, para que as premissas modernistas se assumam como valor corrente da paisagem doméstica. Para alguns o Movimento Moderno entra realmente no quotidiano através das duas "verdadeiras máquinas de habitar" modernas: a casa de banho, que passa do exterior ao interior e a cozinha, mais pequena e eficiente.

Em Portugal, surge em 1918 o livro "A Nossa Casa". Raul Lino, o seu autor, apontava direcções à casa portuguesa desde a orientação solar e da higiene. À modernidade das afirmações como "não temos ainda uma disposição de casas generalizada e lógica que corresponda às exigências do nosso clima e da nossa maneira de viver", contrapõem-se as "paredes" como conceito, com sua espessura a afastar as liberdades conceptuais e tipológicas da planta livre. A "alegria" e a "verdade" dos materiais manufacturados conduzem pela mão esta arquitectura aos caminhos nem sempre claros da identidade nacional. "Deus, Pátria e Família" configuram as balizas ideológicas do Estado Novo, e a dimensão ruralizante da casa, estando na cidade ou não. A tensão entre o individual e o colectivo, centrais nas experiências modernistas, vão ser adiados em Portugal até à década de 50.

Após a II Guerra Mundial, emerge entre arquitectos uma nova visão crítica da casa. A sua "reprodutibilidade técnica", leia-se sistematização funcional e construtiva, está definitivamente instalada. Mas a carga positivista e tecnológica do mais equívoco termo da vanguarda - o "funcionalismo" - considera-se superada. Superada, mas apenas no contexto disciplinar, porque as cidades dos pós-guerra já só se faziam a partir da leitura redutora do modernismo, da American Suburbia às periferias europeias, é o pragmatismo do Existenzminimum, que vai servir as necessidades das novas classes médias. Beatriz Colomina num artigo intitulado "Double Exposure" (revista Prototypo nº 6 Dezembro 2001) referia-se às "enormes janelas nas casas de Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe ou Richard Neutra (que) enquadravam as mais espectaculares vistas de paisagem, enquanto as janelas panorâmicas nas casas dos promotores imobiliários haveriam de "olhar para fora para o que quer que estivesse lá fora" (...) A janela panorâmica tornou-se um outro écran de identificação, uma forma de espelho". Mas a introdução da televisão no espaço doméstico vai concorrer com a janela panorâmica.

No epicentro da cultura popular, Robert Venturi recupera para a "casa" uma dimensão simbólica, com a ambiguidade de escala da chaminé (o lugar do fogo) e da janela (ver e ser visto). Sem qualquer nostalgia pelo projecto moderno trabalha o espaço doméstico desde eclectismo e da banalidade. O contraponto ao individual venturiano é o colectivo das novas comunas urbanas. Estamos nos anos sessenta. Na "Factory" de Andy Warhol, em Nova Iorque, um espaço flexível transforma-se numa "Comuna de Superstars", ou seja, transforma-se numa casa transportada já só como conceito a um espaço dessacralizado. Chegamos assim à casa como um espaço de transitoriedade absoluta, primeiro sinal do transporte da cultura mediática para o seu interior. Pouco anos antes em Paris, Guy Debord, artista da Internacional Situacionista, estabelecia a casa como uma "deriva psicogeográfica", ou seja, a casa como um acto de nomadismo pela cidade.

Em plena crise de fim de século, a arquitectura procura responder genericamente às oscilações culturais do espaço doméstico contemporâneo, progressivamente marcado pelo efémero e transitório. É projectado em 1984 um edifício de habitação colectiva que equaciona precisamente a insustentável rigidez das casas onde vivemos. Yves Lion chamou-lhe Domus Demain. Estruturado desde o conceito da transitoriedade funcional das "zonas húmidas", converte em invólucro do edifício as cozinhas e casas de banho, as "máquinas substituíveis" da casa. São filtros feitos de transparências e opacidades, que protegem o núcleo central de salas e quartos. Talvez a casa individual que melhor ilustre este conceito de invólucro seja a Casa Rudin, em Leymen, de Herzog & de Meuron, construída em meados dos anos noventa. No interior da membrana de betão, imagem infantil da casa que todos reconhecem, disponibilizam-se os espaços domésticos. Nenhum deles é fixo, já não existe uma hierarquia funcional, contudo todos reconhecem o invólucro como o arquétipo casa. É uma apropriação livre dos espaços deixados à capacidade criativa e às necessidade de quem o habita. O lustre colocado casa de banho, a sua cubicagem complexa, mas principalmente a janela panorâmica, anunciam uma nova distância crítica face ao banal do quotidiano global. Já não com a violência do discurso da vanguarda histórica mas com a ironia de quem trabalha sobre formas reconhecíveis. Estamos nos antípodas da "casa ideal" concebida pelo dono da Microsoft. A casa da ubiquidade absoluta tem um computador por divisão. Bill Gates adverte para o perigo da janela e dos seus reflexos no computador. É fácil adivinhar o que está agora colocado ao centro do espaço doméstico.

Texto de suporte da palestra proferida por Ricardo Carvalho a 04 Fevereiro de 2003 na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, sob o título "Sobre o Habitar em Arquitectura".

O texto foi posteriormente publicado com o título "Habitar, Percurso em Via Rápida" no livro "Ano Nacional da Arquitectura 03", Centro Editor Livreiro da Ordem dos Arquitectos, Lisboa 2004. ISBN 972-97668-8-6.