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Nove para o Ground Zero, Zero para Nova Iorque


O que torna interessante a discussão em torno dos projectos para o futuro World Trade Center, é a aparente desadequação dos projectos de arquitectura para o lugar onde outrora existiram as Twin Towers. Provavelmente isto prende-se com o facto de não ser preciso ter estado em Nova Iorque para reconhecer a cidade, isto é, possuir uma memória deste lugar obsessivamente fotografado, filmado, descrito, imaginado. Por isso todos têm uma recordação das torres gémeas, fleumáticas e monumentais. Por isso todos reconhecerem a cidade, e as torres que em Setembro de 2001 desapareceram. Assim o trabalho das nove equipas de arquitectos convidados para construir em torno do Ground Zero (entre eles Norman Foster, Daniel Libeskind, THINK/ Shigeru Ban/ Rafael Vinoly, United Architects, Richard Meier/ Peter Eisenman/ Steven Holl, SOM e Peterson Littenberg) vêm acrescido de uma dificuldade base: o sentido de realidade das torres gémeas ainda é tão forte, embora já não existam, que os projectos parecem querer assumir qualidades expressivas próximas da cacofonia, para superar essa realidade que teima em não desaparecer.

Outra das questões interessantes que se coloca ao ver as novas propostas é o sentido de afirmação, de fora para dentro, de cada um dos nove projectos. Perseguiram-se imagens acima de tudo, supostamente apelativas capazes de seduzir a comissão que as vai avaliar. Também as torres gémeas foram seguramente concebidas com este sentido de objecto, de fora apara dentro (e quem conheceu o seu interior sabe que não era memorável). Contudo existe uma diferença notável; as Twin Towers estavam consagradas à banalidade do quotidiano nova iorquino, como aliás sucede em toda a cidade, onde o todo é sempre mais forte do que as partes, os novos projectos assumem com demasiada consciência de si mesmos um carácter de exclusividade. E aqui é já necessário conhecer Nova Iorque, para se perceber que todos eles podiam estar em qualquer emergente cidade asiática, desde de Kuala Lumpur até Shangai. As fotomontagens apontam num sentido balizado pelo delírio publicitário e por uma dissimulada afirmação corporativa, mais do que na criação de uma nova cidade vertical capaz de integrar esse vórtice de referências globais que é Nova Iorque. Especialmente da Nova Iorque pós 11 de Setembro.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, 22 Dezembro 2002.