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Entre o Centro Comercial e o Museu


Coloca-se hoje, como se colocou em 2004 com o Euro, a questão "Serão relevantes do ponto de vista da arquitectura os novos estádios construídos?". A resposta é parcialmente afirmativa. Apenas uma pequena parte desses edifícios, que os arquitectos projectaram, é verdadeiramente relevante no seu valor genérico em termos urbanos e específico em termos arquitectónicos. Do Euro herdamos o estádio do Braga, obra maior de arquitectura, e também o Estádio do Dragão, indissociável da operação urbana que esteve na base da sua construção, mas nada mais. No Mundial da Alemanha, a história não é muito diferente, e apenas uma obra parece trabalhar dentro dos temas da contemporaneidade - o estádio Allianz em Munique do escritório suíço Herzog & de Meuron.

O estádio como programa emblemático da sociedade de consumo e do espectáculo popular, está entre o centro comercial e o museu. Do centro comercial prolonga os signos da banalidade e estereótipos, do ponto vista da forma e do uso, baseado em formas reconhecíveis de gosto questiónavel e sobretudo em operações urbanas que se limitam à mais medíocre especulação imobiliária. O estádio aproxima-se contudo do museu como programa de grande signigficado social, quase iconográfico, quando é desenhado por arquitectos cuja capacidade de reflexão sobre o tema é singular, o que significa a convocação de outros valores para além daqueles do campo de futebol com bancadas. E isso aconteceu com o projecto de Eduardo Souto de Moura para Braga, quando este se liberta da tipologia da arena e abre o interior do recinto à paisagem envolvente, ou, com o Estádio Hardturm de Zurique da dupla Meili & Peter, com a configuração de um pentagrama, que incorpora um centro comercial e um hotel cujos quartos olham para o relvado.

Na Alemanha, de um ponto de vista panorâmico, ressalta a reconstrução de estádios do período entre guerras como o Frankenstadion de Nuremberga e o Olympiastadion de Berlim. Estão ambos carregados de memórias sombrias e agora, depois das intervenções, são apenas híbridos, onde se realizou um "upgrade" técnico, que no caso de Berlim se revela particularmente ineficaz com a nova cobertura a alterar por completo a expressão urbana do estádio originalmente revestido a pedra. Dos novos estádios pouco parece ficar para além da eficácia dos números no que diz respeito à capacidade de espectadores e aos lugares de estacionamento, com a excepção do Zentralstadion de Leipzig, que está associado a um Fórum desportivo e a um Centro de Congressos; e do já mencionado Allianz que, além de ser partilhado por duas equipas (o que justifica a sua variação cromática) alberga ainda restaurantes, jardim de infância e um museu.

Pergunta-se então porque é que o programa museu tem sido largamente utilizado para reconverter áreas urbanas e ampliar o acesso às expressões culturais, e, no interior da disciplina da arquitectura, ser um modo de indagação sobre novas possibilidades expressivas, espaciais e técnicas? E os estádios continuam reféns de uma ocupação monofuncional, genericamente incapazes de fazer ou transformar positivamente a cidade contemporânea e, demasiadas vezes, persistirem como um bastião do kitsch.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, 18 Junho 2006