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"Torna-se um risco qualquer identificação entre pessoas apenas por pertencerem à mesma geração", afirmou o arquitecto espanhol Rafael Moneo, perto do final do terceiro encontro Luso-Espanhol de Arquitectura, na cidade de Salamanca no passado fim de semana. Mas é de facto de uma identificação geracional (que incorpora a diversidade e a contradição) que se socorre o conceito destes encontros, iniciados em Lisboa, em 1997, por Álvaro Siza e pelo próprio Rafael Moneo, continuados em Salamanca um ano depois. Mostra-se o trabalho produzido por jovens arquitectos da Península Ibérica, a uma assistência de convidados. Nas primeiras edições os arquitectos foram chamados a convite dos dois arquitectos anfitriões. Este ano por nomeação dos anteriores participantes. A estes juntaram-se, em Salamanca, os ARX Portugal e Francisco Mangado para conferências complementares.

Sem qualquer propósito de mútua identificação -Moneo assim o esclareceu para quem tivesse qualquer dúvida- as obras, portuguesas e espanholas, foram desfilando ao longo de dois dias. No primeiro dia, os portuenses Nuno Brandão Costa, e as duplas Teresa Novais/ Jorge Carvalho e Luís Tavares Pereira/ Guiomar Rosa, confirmaram que não fará já sentido as equipas de Lisboa terem sido associadas no segundo dia. O esboroamento da assimetria entre Lisboa e Porto, evidente em décadas passadas, deu lugar a um novo mapa disciplinar, que não pode ser indiferente à enorme mobilidade dos jovens arquitectos.

O trabalho de Sanjuán/ Fresneda/ Peña, sediados em Madrid e em Murcia, socorreu-se de conceitos estafados, onde hoje cabe qualquer materialização. A "Transparência", a "Naturalização" e os "Processos Ambíguos" como corpo temático não foram suficientes para ocultar obras de grande imediatismo formal, onde se aniquilam mediações, por vezes fundamentais, entre conceito e materialização. São propostas muito menos interessantes do que as suas fontes holandesas no que diz respeito à metodologia. Mostraram-se mais como servidoras do "consumo lúdico", apontado pelos autores, do que respostas disciplinares como pretendiam. O arquitecto Carlos Prata chegou mesmo a afirmar não ver "ninguém discutir o valor espacial e o seu composto, apenas lógica e imagem".

Sem referir explicitamente estes conceitos, Nuno Brandão Costa incorpora esta matéria reflexiva no seu trabalho, mas com uma concretização serena e rigorosa, longe de aforismos panfletários. No prolongamento da Faculdade de Letras do Porto, ainda em projecto, está presente o "pragmatismo" tão defendido por Sanjuán/ Fresneda/ Peña, mas de forma implícita. Trata-se de um edifício distribuído por dois volumes, clarificados a partir de um espaço distributivo enterrado. As caixas de vidro potenciam novos usos públicos (uma praça) trabalhados desde o carácter imbrincado das estruturas físicas hoje existentes. E aqui se discutiu a presença tutelar da obra de Álvaro Siza nos jovens portugueses. Moneo insistia na evidência rígida do projecto de Brandão Costa por forma a "escapar a Siza, aproveitando a sua lição na relação da caixa de vidro com o muro".

Um dos projectos mais discutidos pela assistência veio de uma equipa de Madrid. Victoria Acebo e Angel Alonso mostraram o Centro para as Artes da Coruña. Trata-se de um conjunto de volumes em betão, agregados a um núcleo de circulações verticais, que albergam uma escola de dança. Estes volumes estão inscritos no interior de uma caixa translúcida, tema recorrente da produção recente, que disponibiliza um museu nos interstícios espaciais. É um edifício contentor capaz de albergar dois programas distintos e tirar partido dessa tensão, numa procura obsessiva pela forma unitária e indivisível. Metaforicamente trata-se de uma árvore, neste caso os volumes de betão, coberta com uma campânula cúbica, neste caso o espaço de museu.

Está também implantada uma árvore artificial na "casa do coleccionador", de Luís Tavares Pereira e Guiomar Rosa. Construída no âmbito da Experimenta Design, na FIL, assume-se como uma maqueta à escala 1:1. Lugar de máxima artificialidade onde se equacionam temas como o posicionamento dos artefactos artísticos no universo doméstico mas também o sentido do "gosto", e das suas oscilações sazonais. Uma casa ideal, in vitro, exposta ao voyerismo máximo da contemporaneidade, sem lugar, tal como os fluxos informáticos, ou as pulsões do mercado.

Da identidade global à local, mas com dimensão de radicalidade, apresentaram-se a remodelação da casa Alberto Carvalho, em Calheiros, Ponte de Lima, de Jorge Carvalho; e os anfiteatros da Universidade dos Açores em Ponta Delgada, de Inês Lobo e Pedro Domingos. Tornaram-se evidentes nestes trabalhos, como força propulsora, os temas do "contexto" e do "lugar". Curioso foi confronta-los com a residência de estudantes, também em Ponta Delgada, do Atelier de Santos, cuja carga conceptual se orienta na direcção oposta, mais próximos dos catalães Manuel Bailo e Rosa Rull, que mostraram um infantário. Estas últimas são "arquitecturas do acontecimento", inscritas na sociedade da ubiquidade, como a identificou o crítico Ignasi Solà-Morales.

Se o encontro organizado por Álvaro Siza e Rafael Moneo pretendeu confrontar a prática reflexiva arquitectónica, a partir de obras e projectos recentes, com conceitos, estratégias e métodos, talvez o resultado não tenha sido completamente satisfatório. A discussão em torno da especificidade de cada projecto, e da suas cauções de "escola" (Porto e Madrid ou a Escola Holandesa, ironicamente a funcionar como charneira) desviou reflexões mais abrangentes. Se, por outro lado, se aceitar que a produção arquitectónica em torno da especificidade de cada obra estimula novas inquietações, novas interrogações, face à crise incontestada da crítica, dos maneirismos do espírito do tempo, das hipérboles estilísticas e diagramas funcionais, provavelmente esta seria a única forma de estruturar estes encontros Luso-Espanhóis. Saiu reforçada a constatação de uma arquitectura ibérica sincrónica com o panorama internacional, ou seja, distanciada já do confronto vernáculo/ moderno, como notou o arquitecto Nuno Grande. Relativizou-se assim aquilo que a crítica assinalou e nomeou nas últimas décadas em países periféricos como Portugal: uma "arquitectura de resistência".

"O saber contem uma aproximação - leva até à proximidade do milagre, sem nunca o atingir, e para além do que se pode nomear. Se, como acontece no nosso tempo, o saber se alarga e toma proporções de uma esfera gigante, os enigmas não diminuem, mas multiplicam-se.". São palavras de Ernst Jünger que podem resumir o panorama actual da produção de conhecimento, arquitectura incluída. O texto chama-se, apropriadamente, "Produtos de Substituição".

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 02 Novembro 2002, após ter participado em Salamanca no II Encontro Luso-Espanhol de Arquitectura.