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Inúmeras televisões povoavam o átrio da escola. Forneciam indicações precisas, talvez até demasiado precisas para um estrangeiro, sobre as cadeiras, respectivos professores e sala de aula. Nada poderia estar mais longe daquilo que imaginavamos ser Itália, mas esta foi a melhor introdução ao clima de contrastes culturais que caracteriza Milão. Uma cidade vagamente mediterrânica que aspira a identificar-se com uma Europa mais a norte, eficaz e sotifisticada. Os nove meses seguintes não se iriam afastar um milímetro desta primeira impressão.

A primeira aula de Projecto no Instituto Politécnico de Milão, na ressaca da demanda por um apartamento barato e central, foi também bastante elucidativa do que é ser um estudante português de arquitectura numa universidade italiana. O professor, rodeado pelos seus seis assistentes, foi claríssimo: "portugueses e espanhóis para a primeira fila, alemães, franceses e ingleses para a segunda e restantes". Os italianos procuravam um enclave neste sistema, numa tentativa tímida de protagonismo, incapaz de competir com os conterrâneos do "mestre". De facto, durante as três horas de apresentação, as referências ao "mestre" multiplicaram-se, e todos pareciam saber de quem se tratava, mas os portugueses só perceberam tratar-se de Álvaro Siza quando se falou numa escola de tipologia claustral numa pequena cidade operária a sul de Lisboa, Setúbal. Tornaram-se claros os objectivos pedagógicos dos três exercícios a desenvolver : um depósito de água e uma casa de chá em Pavia, junto ao rio, e um concurso internacional, para estudantes, para um arranha céus em Nova Iorque (a twin brother to Chrysler Building).

Por esta altura já estavam colocados na parede da sala do pequeno apartamento dois grandes mapas, vizinhos do "peixe dourado" de Paul Klee. Itália e a Europa com diversos pontos coloridos como destino. Isto para não falar da cadeira de Luciano Patetta, "Storia dell Quatrocento a Milano", com investidas obrigatórias às obras de Filarete, Leonardo ou Bramante, a poucos minutos de casa. Este novo conceito de acessibilidade, permitido pela cidade, em relação à toponímia arquitectónica, competia com a assiduidade às aulas, de resto complexa já que as turmas eram compostas por centenas de estudantes, e não existia o hábito de trabalhar em estiradores. Investidas à Casa del Fascio (em Como) de Terragni ou a Ivrea, cidade da Olivetti, tornavam-se programas mais apetecíveis do que presenciar a angústia provocada pela necessidade de desenhar dos colegas italianos. A excelente preparação teórica destes alunos parecia ser incompatível com a capacidade de registar e desenvolver ideias, tudo isto agravado pelo facto dos professores também desenharem, gerando trabalhos plenos de compromissos numa perspectiva totalmente estranha aos portugueses e espanhóis. Justificava-se assim o tratamento da primeira fila.

Era especialmente à saída das aulas, depois do curso diário de italiano, que as coisas se complicavam. Escuridão e nevoeiro poderiam possuir algum encanto, mas a ausência de cafés abertos e de vida em geral não. O Inverno fechava a cidade sobre si mesma, e os magníficos portões dos edifícios-quarteirão só muito mais tarde, em plena primavera, mostrariam os pátios da arquitectura oitocentista. Até lá todos deveriam entrar e sair pelas pequenas portas inscritas nos portões. A vida de Roma, hedonista e descontraida, era aqui olhada com algum desprezo, Milão era a cidade orgulhosamente europeia, virada para os desportos de neve de fim de semana. Talvez por isso um dos edifícios que os estudantes estrangeiros melhor conhecessem fosse a Estação Central, mais imponente do que a "Central Station" de Nova Iorque, para onde trabalhavámos. Dela rumava-se a sul, especialmente a Nápoles e a Capri onde Libera e Curzio Malaparte tinham construido a mais carismática de todas as casas vermelhas.

O tempo parecia ser compartimentado pelas saídas de Milão, e os espaços entre viagens eram ocupados por tiradas duras para o trabalho de Projecto, espalhado pela pequena sala que também era cozinha. Era difícil executar maquetas na escola, devido a uma burocracia definitivamente latina, por isso a sala-cozinha rapidamente se convertia em atelier. Tudo para que os prazos fossem cumpridos, questão vertiginosa para os alunos portugueses; mas também para as notas finais variarem entre 27 e 30, qualquer coisa entre 18 e 20 valores. É claro que por esta altura restavam menos de um terço dos alunos italianos, dentro dos quais alguns se limitavam a "assistir" às aulas (uma metodologia diversa, supunhamos).

Após a entrega do trabalho final questionávamos, a propósito do remate do ano lectivo, as críticas elaboradas pelos professores e colegas. E era difícil ouvir coisas distintas de "arquitectura minimalista" ou "espaços metafísicos" ou "muito português", ainda que laudáticas, colocando a possibilidade desconfortável de cada nacionalidade possuir previamente um "maneira" de abordar a disciplina. Nada melhor para responder as estas inquietações do que o último exercício pedido : "representar a nossa ideia de arquitectura". Quando a folha foi colocada no painel, o professor, após um olhar inquieto, disse "não podemos ser pessimistas, tudo o que está à volta reverte positivamente em arquitectura". Talvez. Era um desenho, a preto sobre papel branco. Um labirinto.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o JA-Jornal Arquitectos nº 202 Setembro/ Outubro 2001, sobre a experiência como bolseiro Erasmus no Departamento de Arquitectura do Politecnico de Milão entre 1993 e 1994.