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Acupunctura Urbana e Reabilitação

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A Arquitectura de Peter Zumthor

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Le Corbusier: Arquitectura ou Revolução

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Oscar Niemeyer 100 Obras 100 Fotos

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Los Angeles, as Regras da Atracção

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Niemeyer, um encontro no Rio

Viagem como Conhecimento

Da Cidade que Falece

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Comércio e Lazer: uma digressão errática

Habitar Portugal, mas Esporadicamente

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Geografias da Permanência

Ode Marítima em Aço e Vidro

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Actuar na Periferia: de dentro para fora

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Precisão Suíça: do Pitoresco e do Sublime

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A Casa que se Bifurca

A Arte da Oscilação

Habitar. Percurso em Via Rápida

9 Silos Experimentais para Lisboa

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Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição

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Palácio da Pena: Antes e Depois em Simultâneo

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O Edifício Extrovertido

Otto Wagner Arquitecto

Adolf Loos e a Caixa das Ferramentas



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Niemeyer, um encontro no Rio


São Paulo 2004.

A chuva torrencial não impede as pessoas de ocuparem o seu tempo livre no Parque de Ibirapuera. Alguns estão sentados no chão, outros nas esplanadas, alguns estão a caminho do pavilhão da Bienal de São Paulo, outros apenas atravessam o parque. O ruído dos skates está por todo lado, e convive com outras culturas urbanas cuja música sai dos gravadores pousados no pavimento. Ninguém apanha chuva embora estejamos no exterior. Estamos todos na peça que foi baptizada de "marquise" e que é na verdade uma laje de betão com centenas de metros de comprimento, suportada por pilares, que se estende pelo parque, que abraça e se deixa abraçar por este, incorpora árvores e restaurantes, mas também vazios - buracos - por onde passa a luz e a chuva. É uma peça branca e polimórfica tão forte quanto a natureza transformada em paisagem que a rodeia, e une outras obras bem conhecidas do arquitecto Oscar Niemeyer.

Rio de Janeiro 2006.

Calor tórrido a poucos dias do carnaval de 2006. A estrutura que vai albergar o concerto dos Rolling Stones na praia de Copacabana está praticamente pronta. O encontro estava marcado para as três da tarde no atelier com vista para o oceano do arquitecto Oscar Niemeyer. O arquitecto, recentemente convidado para novas intervenções no parque de Ibirapuera havia proposto a demolição parcial da marquise construída em 1951, não porque já não acreditasse na obra mas porque acreditava torná-la ainda mais consequente com o novo edifício que havia desenhado. A sua convicção na transformação permanente do real está espelhada por todo o atelier. É o último andar de um edifício. Um espaço sem grande detalhe arquitectónico, próximo do banal, inscrito com desenhos nas paredes e, sobretudo aforismos que se foram colando à sua arquitectura ao longo do século XX.

Niemeyer recebe-nos e, como quase sempre acontece a quem o visita, fala-nos ao mesmo tempo que desenha, como que para reforçar essa visão do mundo, que para não ser pessimista, imprime à arquitectura o papel de uma beleza redentora. "A vida é fodida" e por isso o seu trabalho partiu em busca de uma possibilidade poética consciente do artifício absoluto que é pensar e fazer arquitectura. Escutamos, sentados nas cadeiras que nunca abandonam esta sala, porque são muitos os que o visitam e o arquitecto gosta de conversar, enquanto fuma as suas cigarrilhas que um dos netos arquitectos vai acendendo.

Sentado num banco alto, os desenhos feitos a marcador preto, registam apenas o essencial de cada projecto - o seu gesto primordial. A arquitectura de Niemeyer desde muito cedo abdicou, por vontade própria e constrangimento do contexto onde trabalhou, de outra coisa que não fosse o gesto - a forma - adequada a um problema e um lugar. É uma arquitectura que prescinde de mediações, é directa e emocional. Os desenhos são oferecidos como memória da conversa e isso quase faz esquecer que quem os ofereceu é um dos maiores arquitectos do século XX, cujas mãos magras revelam a sua longevidade, mas também a vitalidade de quem continua a acreditar no lugar da arquitectura no mundo.

Lisboa 2007.

Se alguma dúvida existisse sobre a capacidade da arquitectura moderna ter criado a sua própria tradição cultural, e ser capaz de se tornar tão natural ou anónima quanto as arquitecturas do passado que nos habituámos a olhar sem preconceitos, então esta seria a arquitectura de Oscar Niemeyer. Uma das características da sua obra é habitar em simultâneo o território erudito e ser reconhecida pela comunidade como tradução dos traços de uma cultura democrática facilmente identificável. Quem quiser pode reduzir a sua obra à paixão pelo corpo feminino ou pela topografia dramática do Brasil (e do Rio em particular). Mas será sempre mais surpreendente pensar na obra de Niemeyer como aquela que vindo de uma tradição de radicalidade herdada das vanguardas históricas, parte livremente para um lugar  de invenção avassalador que consegue fazer cidade com edificios, consegue afrontar a natureza sem agressividade, consegue diluir o público e o privado sem esforço e sendo inevitavelmente moderna, atravessar o tempo e estabilizar-se na serenidade da arquitectura clássica.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 14 Dezembro 2007.