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A Arte da Oscilação


Oscilação,

 s. f. acto ou efeito de oscilar; movimento de vaivém; flutuação; hesitação.

Talvez se possa começar pelo fim. Por encontrar um denominador comum à Confluência, Compulsão, Confrontação e Condensação, a banda larga de temas deixados pelo ciclo de exposições INFLUX. Emerge assim, transversalmente, a oscilação, movimento que encontramos neste conjunto de projectos, com programas e escalas distintas, e com diferentes graus de representatividade disciplinar e capacidade operativa na paisagem contemporânea. De facto nenhum termo poderia ilustrar melhor o tipo de movimento que caracteriza o nosso tempo, como o que Gianni Vattimo elegeu: "viver neste mundo múltiplo significa fazer a experiência da liberdade como oscilação contínua entre pertença e desenraizamento" 1.

Oscilação é também aqui entendida como movimento entre a pluralidade e o desgaste do "princípio de realidade". Por pluralidade pode entender-se, no domínio da arquitectura, um esboroar das cauções de escola, e consequentemente um conjunto de aproximações distintas à espacialidade, desde aquela rigorosamente definida, revelando e exacerbando o programa, à ilimitada, a do invólucro flexível ou contentor fleumático 2. É esta dualidade que identificamos nos projectos apresentados, feita de aproximações distintas no modo como os arquitectos abordam criticamente os programas, trabalhando explicitamente ou implicitamente sobre os seus conteúdos. Localiza-se assim uma primeira fissura, feita de uma emergência conceptual e agudização da experiência estética, na tradição de pragmatismo da arquitectura portuguesa, habitualmente assente em modelos empíricos "onde nunca se instaura uma verdadeira situação de crise paradigmática" como notou Alexandre Alves Costa 3.

Por desgaste do "princípio de realidade" 4, também detectável como traço comum, entendemos a multiplicação de pontos de vista, tornada possível e exponenciada pelos media, que introduziu uma fractura no sentido de objectividade intrínseco à arquitectura, e que permaneceu como referência inabalável na cultura arquitectónica portuguesa até ao final do Século XX. As múltiplas imagens que assolam o quotidiano, e a reconstrução que a arquitectura delas faz, relativizam a experiência da perenidade, e colocam no centro, ou melhor nos vários centros, o transitório e o efémero.

Podemos afirmar que são obras que inauguram o fim da modernidade em Portugal. Se por fim da modernidade entendermos o esboroar prolongado no tempo de "um centro em torno do qual se recolhem e se ordenam os acontecimentos" 5 . São projectos cuja "característica comum é a ausência de teorias pré concebidas, uma liberação de um certo número de dogmas auto-infligidos e uma nova sensibilidade relativamente às qualidades do ambiente que nos rodeia" como apontou Rem Koolhaas 6 a propósito da intervenção na cidade contemporânea. Conscientemente ou inconscientemente todos estes escritórios trabalham sobre um sentido de charneira, sem romperem com a cultura arquitectónica que esteve na base das respectivas formações académicas ou profissionais, mas sem também sem fazerem da actualidade da imagem matéria apriorística.

Aceitando a legitimação desta hipótese resta procurar a sua fundamentação em dois pontos fixos do arco instável e fértil da cultura arquitectónica do último século: a superação da oposição cidade/ campo e a superação do confronto vernáculo/ moderno. Pontos seminais, particularmente no contexto português, porque relativizam todas as outras nomenclaturas genéricas para onde foi remetida a produção arquitectónica das duas últimas décadas, concêntrica à carga simbólica pós-modernismo, à ausência de mensagem do supermodernismo.

O primeiro ponto, a superação da oposição cidade/ campo, emerge da cultura tardo oitocentista, onde foi anunciado pelas reflexões palpitantes de dois pensadores aparentemente antagónicos. Nietzsche e Engels, por caminhos diversos, vão informar a vanguarda, acerca do fim do condicionalismo histórico. Engels antecipa ainda a emergência de um sentido revolucionário intrínseco à figura do novo século: o trabalhador. Como em nenhum outro período coloca-se à arquitectura (leia-se ao projecto moderno) a tarefa de trabalhar reflectindo a partir da tensão dessacralizada entre o individual e o colectivo no espaço já não finito da cidade. É na metrópole, lugar da tradição do novo, e por isso o lugar da vanguarda histórica, que se abre caminho, com estridência visceral e niilismo, ao eclipse definitivo das formas clássicas por cujos escombros se introduzem as formas arcaicas, já antes invocada por Nietzsche, que recuperara o mito dionisíaco por oposição ao domínio crescente de uma razão utilitarista 7. Estava assim fundamentada uma arquitectura reflexo e espelho do Zeitgeist, com a noção abstracta e idealizada de espaço a ganhar centralidade, na proporção inversa da ideia de lugar, como objecto da invenção artística 8. Veja-se o famoso desenho de Le Corbusier, a "Maison Dominó", de 1914, provavelmente a mais influente e desconcertante proposta do século, apelando a um novo começo sustentado pela "reprodutibilidade técnica" exaurida de memória. A um certo ideal de homem só poderia corresponder uma arquitectura também ideal, pouco interessada no vínculo particular. Seria preciso esperar pela reacção do pensamento existencialista, que "alerta para o perigo de condução do homem a uma presença mensurável, manipulável, substituível" 9, para a arquitectura colocar de novo o lugar no centro da disciplina. Mas mesmo com a advertência do pensamento existencialista, foi desencadeado um processo global, que sabemos irreversível, independente das resistências locais, que sobrepõe ao território um mapa mental, mais toponímico do que topográfico, assente na ideia de similitude cultural e arquitectónica. Hoje, o "lugar" anuncia-se progressivamente como território, paisagem de substituição genérica da prévia oposição cidade/ campo. Esta transição, cujo processo físico necessitou na maioria dos países europeus de um século para se desenrolar, revela-se comprimida no espaço das últimas três décadas em Portugal. A arquitectura contemporânea produzida neste contexto não vai poder deixar de reflectir esta compressão, que podemos apontar como uma nova especificidade disciplinar.

O segundo ponto corresponde à superação do confronto vernáculo/ moderno. O confronto entre o moderno e a tradição vernácula revelou-se central na mais periférica e experimental arquitectura desde a década de cinquenta, onde podemos destacar a obra de Fernando Távora. Mas é a sua superação, obrigada mais pela alteração das condições em que a arquitectura é produzida, do que por uma necessidade manifestamente disciplinar ou ideológica, que conduz os arquitectos contemporâneos a um novo acerto de premissas.

É contudo necessário recuar até ao momento de revisão crítica do moderno. Uma vez absorvido pelos compêndios e catálogos de museus, mas principalmente pelo mercado imobiliário, o moderno converteu-se em International Style, em larga medida um mero prolongamento do positivismo tecnológico de causa-efeito. Alvar Aalto, o mais ecléctico dos mestres modernos, foi um dos seus primeiros críticos, ao desvelar a possibilidade de uma fusão de opostos. Da periférica Finlândia chega uma arquitectura para onde convergem o efémero e o perene, o natural e o artificial, o empírico e o conceptual, finalmente, a margem e o centro. A "Villa Mairea" de 1938, em Noormarkku, concebida a partir da fragmentação e descontinuidade entre planta e secção, instaura um novo sentido de ordem. A multiplicidade e justaposição de temas espaciais e materiais está já muito distante da transcendência ordenada e polarizada da "Casa com Três Pátios" desenhada para um lugar mental em 1934 por Mies van der Rohe. O universalismo do moderno conhece então o contraponto local como força crítica propulsora, e não por acaso é o legado da obra de Aalto que se vai manifestar operativo nas obras que apontam novíssimas metodologias, carregadas de especificidade, como a de Álvaro Siza no também periférico Portugal do início da década de sessenta.

Quando este arco instável da arquitectura do último século revela o percurso, ainda mais instável, da arquitectura moderna em Portugal, deparamo-nos com a aproximação cronológica e convergência conceptual dos dois pontos. A superação da oposição cidade/ campo e a superação do conflito vernáculo/ moderno, tradicionalmente separados no mundo industrializado por mais de meio século incorporando o próprio Movimento Moderno e o seu eclipse, coincidem a um tempo no panorama disciplinar português. Neste panorama de crise e diacronia cultural, acentuada pela já endémica ausência de suporte teórico, é a arquitectura de Álvaro Siza que permanece como presença tutelar. O projecto para a Faculdade de Arquitectura do Porto (1986/ 1995), cujo processo coincide com o culminar de um período de alterações profundas no território físico e social, anuncia o afrontamento e a passagem para a debilidade 10 contemporânea, depois de um conjunto de obras claramente informadas pelo confronto vernáculo/ moderno, iniciadas com o projecto de 1958 para a Casa de Chá de Leça da Palmeira. O percurso de Álvaro Siza, face a uma paisagem híbrida progressivamente carregada de complexidade, orienta-se para uma espacialidade já não ordenada de forma lógico-cronológica, mas antes subordinada a vários fragmentos, ou "focos de interesse", catapultados para o projecto como um íman 11, com "a necessidade de propor a cada passo, simultaneamente o objecto e o seu fundamento" 12.

É a geração mais recente que vai assumir a perda das referências inamovíveis do projecto moderno e da sua crítica local, nunca abandonadas por Álvaro Siza, e afrontar a supra mencionada superação cidade/ campo, vernáculo/ moderno. Perante a impossibilidade de falar de história como um curso unitário, no interior de um encurtamento progressivo das distâncias até à simultaneidade global, a ubiquidade mediática da imagem (arquitectura incluída) obriga à utilização de novas ferramentas conceptuais. Estas ferramentas juntam-se pontualmente aos instrumentos disciplinares do passado recente, com destaque para aqueles defendidos pela "Escola do Porto", onde se formaram uma parte significativa destes arquitectos.

A actualização na forma de olhar para a paisagem, entendida em sentido lato, o reajuste entre processos naturais e artificiais e o seu desempenho na arquitectura, conduzem a uma agudização da experiência estética, oscilante entre a experiência da pertença e do desenraizamento 13. Esta agudização da experiência estética aponta a um renovado sentido de radicalidade, mas agora, ao contrário do passado, despojado de ideologia. Emerge também como temática a colaboração de diversas equipas com artistas plásticos, à qual não é alheia à altíssima carga conceptual, já referida, que emana dos projectos e percorre todas as escalas, do território ao edifício.

Mas, se por um lado a prática artística se revela hoje uma prática de sucesso na sociedade de massas, a sua utilização no procedimento mental de criação arquitectónica caminha noutro sentido. Provavelmente numa tentativa de fixação de valores e qualidades contra o imediato do vai-vem contínuo entre precariedade e superficialidade que circunscreve a cultura arquitectónica. É o caso das parcerias nos projectos para a frente de mar da Póvoa do Varzim de Inês Lobo/ João Gomes da Siva/ Gilberto Reis, da Residência de Estudantes em Coimbra de Gonçalo Afonso Dias/ João Louro e da remodelação do Centro Comercial em Miraflores do escritório Promontório/ Mário Feliciano. Todas estas equipas se colocaram à disposição de derrubar algumas resistências características do universo arquitectónico, aceitando uma maior flexibilidade da posição do arquitecto face à paisagem e à cultura urbana. Estamos um passo à frente da proposta venturiana de aprendizagem, leitura e manutenção da cultura popular na paisagem urbana. Estes projectos não incorporam numa amálgama de referências ou arquétipos, antes elegem, um, e um só tema de trabalho. O material reflector do edifício costeiro da Póvoa do Varzim, o "comboio descarrilado" monocromático como base temática das Residências de Coimbra e a procura da fonte (apropriada) das letras que revestem o Centro Comercial de Miraflores apontam nesse sentido.

Embora a radicalização do discurso, polarizando a "paisagem" e a "prática artística", não se manifeste de forma unitária ao nível da expressão, posiciona-se invariavelmente no inverso do desejo de formas reconhecíveis da cultura popular. Veja-se o Cine-Teatro do Cartaxo, da dupla Diogo Burnay/ Cristina Veríssimo, o Museu de Ílhavo do escritório ARX, ou a Residência das Laranjeiras nos Açores, do escritório A.S.*, todos concebidos segundo uma espacialidade rigorosamente definida, inflexível, que criaram ou irão criar, nos respectivos contextos, um conjunto de relações de grande tensão formal, explicitando de forma comunicante os conteúdos dos programas. As coberturas do Museu de Ílhavo, com o seu perfil escultórico e figurativo, e o volume curvo do auditório do Cine-Teatro do Cartaxo, imprimem a mesma vontade de fundação de um acontecimento face ao banal, enquanto as Residências das Laranjeiras recriam o mapa da sua implantação através da experiência do jogo e da deriva entre objectos arquitectónicos com afinidades expressivas e funcionais.

Também no sentido inverso do desejo popular de formas reconhecíveis, mas em oposição conceptual aos projectos anteriores posicionam-se a Biblioteca da Universidade Nova de Lisboa de Nuno Brandão Costa, os bares da margem fluvial de Vila Nova de Gaia de Cristina Guedes/ Francisco Campos e a Capela do Céu na Ribeira Quente de Bernardo Rodrigues, que recusam uma formalização em torno do "híbrido", para privilegiar uma espacialidade flexível e fleumática, "ilimitada" como apontou Hans Ibelings 14 no seu esforço de fixação de uma temática unitária para a arquitectura contemporânea. O projecto da Biblioteca da Universidade Nova é aquele que leva mais longe esta noção de ausência de limite, com a sobreposição serial de pisos de revestimento negro marcados pelas lajes de pavimento em betão. Esta caixa negra, implicitamente uma biblioteca, oferece na face norte uma abertura ilimitada, orientada à massa arbórea, onde a luz, tal como a pele de vidro, conhece uma variação mínima, materializando o volume como um muro/contentor de protecção relativamente à Avenida de Berna.

Entre estas duas aproximações, que habitam os extremos, estão os trabalhos de João Mendes Ribeiro, João Pedro Falcão Campos e da dupla João Pedro Serôdio/ Isabel Furtado, cujos projectos afrontam ainda o tema do enraizamento provindo do confronto vernáculo/ moderno, sobretudo ao nível da investigação em torno da materialidade, certamente sem nostalgia, mas ainda directamente referidos ao carácter "lacónico" 15 e ao "anseio de austeridade" 16 de uma génese identificável na arquitectura portuguesa, ou seja, uma génese constituída pela perenidade da matéria e a autenticidade da experiência. A manutenção desta génese é feita através da procura e descodificação da "objectividade" presente em cada situação e propósito.

Em todos os momentos de esboroamento disciplinar, que atravessam a história ocidental como pontos de amarração da arte construir, e em particular na contemporaneidade onde aos nossos olhos este esboroamento surge naturalmente agudizado, os projectos de arquitectura (já transformados em obra ou em vias de transformação) encontram as suas fundações culturais (técnicas e expressivas) precisamente na hesitação, no vai vem, numa palavra na oscilação. E dentro desta oscilação coexistem naturalmente formas distintas de abordar a espacialidade e os conteúdos dos programas tratados, como foi já apontado a propósito dos três conjuntos de projectos. O INFLUX permitiu uma vista panorâmica sobre um aqui e agora destas abordagens. O desgaste do "princípio de realidade" referido na abertura do texto, e a perda progressiva de objectividade disciplinar obrigam a uma reflexão (ou a uma nova tomada de posição) sobre os seus fundamentos. Os edifícios ou paisagens mais significativos serão aqueles capazes de fazer reverter um "fundamento" às novas condições em que a arquitectura é produzida. É certo que serão fragmentos, fugacidades ou vislumbres numa experiência mais genérica do desenraizamento. Esta experiência na prática da arquitectura, sincrónica aliás com todas as outras movimentações culturais, anuncia-se progressivamente como constitutiva, e já não provisional. Mas "cada novo conhecimento que se faz produz desagregação e nova integração" adverte Hugo von Hoffmannsthal no "Livro dos Amigos".

Lisboa, 24 de Fevereiro 2003.

Notas

  1. Gianni Vattimo, "A Sociedade Transparente" (1989), Relógio d' Água, Lisboa 1992.

  2. Hans Ibelings, "Supermodernism" (1998), NAI, Rotterdam 1998.

  3. Alexandre Alves Costa, "Introdução ao Estudo da História da Arquitectura Portuguesa" (1994), in "Introdução ao Estudo da História da Arquitectura Portuguesa" FAUP, Porto 1995.

  4. Gianni Vattimo, op. cit.

  5. Gianni Vattimo, op. cit.

  6. Rem Koolhaas, "Post Script: introduction for new research the contemporary city" (1988) in "Theorizing a New Agenda for Architecture", Kate Nesbitt ed., Princeton Architectural Press, New York 1996.

  7. Friedrich Nietzsche, "A Origem da Tragédia" (1872), Guimarães Editora, Lisboa 1953.

  8. Ignasi Solà-Morales,"Lugar: permanencia o producción" (1992) in "Diferencias. Topografía de la Arquitectura Contemporánea", Gustavo Gili, Barcelona 1995.

  9. Gianni Vattimo, op. cit.

  10. Termo usado conforme o artigo de Ignasi Solà-Morales "Arquitectura Débil" (1987) in "Diferencias. Topografía de la Arquitectura Contemporánea", Gustavo Gili, Barcelona 1995.

  11. Analogia retirada da introdução do poeta Haroldo de Campos a uma edição dos "Cantos" de Ezra Pound.

  12. Ignasi Solà-Morales, "Arquitectura Débil" (1987) in "Diferencias. Topografía de la Arquitectura Contemporánea", Gustavo Gili, Barcelona 1995.

  13. Gianni Vattimo, op. cit.

  14. Hans Ibelings, op. cit.

  15. Jorge Figueira, " Influx, Exflux, Deflux" in Jornal "Público" 11.05.02.

  16. Alexandre Alves Costa, op. cit.  

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o livro "Influx, Arquitectura Portuguesa Recente", Editora Civilização, Porto 2003. ISBN 972-26-2133-5.