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Carrilho da Graça conversa com Ricardo Carvalho Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição Le Città di Sabari Casa com Capela Construir o Incorpóreo Local, Ibérico, Global Nove para o Ground Zero, Zero para Nova Iorque Hong Kong Juke Box 2001
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Montanha Mágica com Graffiti
Poucos projectos podem ilustrar melhor a transição dos anos 90 para a nossa década do que a Biblioteca da Universidade Técnica de Cottbus na Alemanha. No projecto de concurso de 1993 a proposta vencedora apresentava-se como um paralelepípedo envolto numa pele de vidro serigrafado, coroado por três elementos - três "caixas". Tratava-se de uma tentativa de aproximar formalmente o novo edifício aos edifícios circundantes do campus universitário. Doze anos depois a Biblioteca foi inaugurada e não podia estar mais distante do projecto de concurso. Apresenta-se como um prisma ondulante, envolto por uma pele de vidro com signos que se assemelham a graffitis monocromáticos e é um momento importante na "viragem figurativa" do colectivo suíço de arquitectos Herzog & de Meuron. O facto de Cottbus ser uma pequena cidade economicamente e socialmente deprimida, incapaz de recuperar das transformações ocorridas com a reunificação das alemanhas, levou o governo de Berlim a investir na universidade aí implantada. O investimento traduziu-se na renovação e ampliação do corpo docente e discente e na reabilitação dos antigos edifícios universitários que foram construídos segundos preceitos modernistas (serialismo e standartização) a partir da década de 50. Face à impossibilidade (económica) de os demolir completamente, estes têm sido envolvidos por "peles" de expressão variada (com aço inox, madeira ou vidro) de modo a banir a imagem negativa que os pré-fabricados modernistas da antiga R.D.A. deixaram na Alemanha contemporânea (que obsessiva e sistematicamente apaga os traços da cultura de leste). O resultado desta operação é uma paisagem híbrida, social e fisicamente, sem grande capacidade de gerar memória ou "descontinuidades" na percepção do conjunto. Se no início dos anos noventa Herzog & de Meuron, com a proposta de concurso, procuraram dar continuidade ao conjunto de Cottbus (cidade oitocentista e campus do pós II Guerra Mundial), a meio do processo optaram por uma estratégia completamente diferente. E essa começa logo na manipulação da topografia. Na (vasta) planície onde a cidade assenta construíram uma pequena colina onde nasce o edifício da biblioteca. Não se trata de uma opção pela monumentalização do programa mas antes da vontade de diferenciar o edifício no contexto, gerando um "acidente" na realidade física local, privilegiando a estratificação vertical do programa em pisos com alturas diferenciadas (o projecto de concurso era tendencialmente horizontal). Não só a topografia é manipulada para receber o prisma ondulante como a escala deste é propositadamente ambígua. Ao longe a biblioteca domina e é dominada visualmente como uma forticação ou montanha artificial, sem nunca revelar a sua real relação entre as partes e respectivas relações de proporção. Para isso contribui a pele de vidro serigrafado com signos que se assemelham a grafitis que, segundo os autores, constituem uma alusão a todas as línguas como se de um sincretismo se tratasse. Podemos dizer que esta alusão aos graffitis é o segundo "acidente" cultural que o edifício de Herzog & de Meuron introduz em Cottbus. A assimilação da cultura de rua - informal, errática, não institucional - convertida em tema de manipulação visual não é uma característica detectável na cultura arquitectónica alemã e por isso irrompe no contexto de Cottbus com grande singularidade. Herzog & de Meuron não especularam demasiado sobre o programa biblioteca. A cada piso corresponde uma área de conhecimento e no piso térreo convivem a recepção e a cafeteria. Por cada espaço de leitura é sempre possível olhar o piso superior através de um duplo pé-direito. Mas o que permite ao leitor o seu posicionamento no edifício é a escada helicoidal (cor de rosa por fora, verde alface por dentro) que atravessa todos pisos e é generosa o suficiente para permitir ser vivida como um espaço de encontro. No interior da biblioteca a estratégia de informalidade materializa-se com a profusão de cores (rosa, verde alface, amarelo, encarnado e branco) que se apropriam dos vários elementos arquitectónicos como os pavimentos, escadas e pilares. Estes estão completamente soltos (dispersos) no espaço como que querendo reforçar o acto informal da consulta directa às estantes que contêm os livros. A opção por materiais correntes (no contexto alemão entenda-se), extensível às estantes para os livros, associada à intensidade cromática e a algum mobiliário iconográfico do século XX (cadeiras de Charles Eames e Arne Jacobsen) conferem um ambiente pop à biblioteca em perfeita sincronia com a pele com grafitis que é claramente perceptível no interior. O processo que conduziu à construção deste edifício no território da antiga R.D.A. coincide com uma significativa alteração dos pressupostos estratégicos dos escritórios de arquitectura mais influentes no contexto europeu. A afirmação da forma arquitectónica como suporte de significado, capaz de transcender os contextos onde essa arquitectura se insere, foi ganhando intensidade ao longo da década de noventa até dar lugar à procura da singularidade absoluta - como se a arquitectura pudesse protagonizar uma força centrípeta com a obra de autor ao centro. Tem sido nesse sentido que o escritório de Basileia tem orientado a sua estratégia conceptual que culminou em obras como o edifício Forum de Barcelona, inaugurado no ano passado, ou a loja Prada em Tóquio. Contudo o trabalho dos arquitectos suíços - ao contrário do que acontece com as opções genéricas do holandês Rem Koolhaas - parece quase nunca conseguir prescindir completamente de uma estratégia crítica e contextualista relativamente ao que está à volta daquilo que se pretende construir. Em Cottbus Herzog & de Meuron deixaram cair, em plena elaboração do projecto, esse lado inclusivo da referência ao contexto e privilegiaram a construção de um edifício formalmente dominante na paisagem. O trabalho sobre a forma e sobre a materialidade aparenta ter resultado do cruzamento de arquitecturas (aparentemente) tão inconciliáveis como as de Oscar Niemeyer e a arquitectura pop da década de 60 e 70; ou seja o predomínio das formas orgânicas e a plasticidade da estrutura, por um lado, e por outro a marcação as referências à cultura pop(ular) e á sua sedutora e informal capacidade comunicante. Abriu-se, emanando "espírito do tempo", um novo capítulo para o expressionismo alemão depois desta montanha mágica com graffitis que o colectivo Herzog & de Meuron construiu em Cottbus. Texto escrito por Ricardo Carvalho (em Cottbus, Alemanha) para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 03 Setembro 2005.
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