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Geografias da Permanência


A exposição "Geografias Vivas" fez parte da Representação Portuguesa na VI Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo em 2005 e está agora em exposição no Centro Cultural de Belém. O que se mostra são maquetas de grande dimensão de seis projectos da autoria de Gonçalo Byrne e vídeos de outras tantas conversas do arquitecto com o ex-Presidente da República Jorge Sampaio, com os arquitectos Vittorio Gregotti, Nuno Portas e Álvaro Siza e com o arquitecto paisagista João Nunes. No interstício dos dois discursos - a representação disciplinar e o diálogo - afirma-se uma forma aberta de expor arquitectura.

As obras e projectos mostrados possuem um carácter eminentemente público e de representação simbólica da cultura institucional. Gonçalo Byrne é um dos arquitectos portugueses cujo trabalho, desde o início da década de setenta, se afirma como uma reflexão sobre a cidade entendida como produção e reflexo cultural do tempo longo da civilização. Ou seja, uma obra focada na procura de uma arquitectura que se inscreve e está inscrita num complexo mapa cartográfico de permanências do agir humano - naquilo que muda ou se transforma lentamente e de modo coeso. Este posicionamento, hoje já não dominante no contexto europeu (que favorece os "acontecimentos" arquitectónicos como estratégia de espectacularidade), pode, apesar disso, explicar o seu sucesso junto da encomenda pública desde a década de noventa, momento em que o seu atelier ficou responsável por vários projectos de grande dimensão em várias cidades portuguesas, onde se destacam os equipamentos universitários (ausentes deste conjunto de projectos que agora se mostram).

O que ressalta na exposição, para além do impacto plástico das maquetas de grande dimensão (que não foram utilizadas como ferramenta de trabalho, e são elas mesmas objectos de exposição especialmente produzidas para o efeito) é o recurso ao diálogo com os vários interlocutores, a propósito daquilo que permite que a arquitectura aconteça hoje: o papel do encomendador público, a opinião pública (e a possibilidade da participação), o posicionamento cultural do arquitecto e a relação com outras disciplinas concêntricas como a arquitectura paisagística.

Sobre a questão que envolve a relação da arquitectura com o encomendador e com os cidadãos, Gonçalo Byrne afirma, na entrevista a Jorge Sampaio, que existe uma diferença entre populismo e participação, lançando uma das questões de fundo sobre a acção do arquitecto na comunidade, muitas vezes sujeita a manipulações políticas que nada tem a ver com o real valor das opções disciplinares. O vídeo que registou esta conversa ocorre, estrategicamente, próximo do projecto de requalificação da zona envolvente ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, obra que gerou alguma contestação por parte da população, eventualmente pelo seu carácter de devolução de uma austera singeleza cisterciense ao conjunto, já esquecida em séculos de sobreposição de intervenções avulsas e pitorescas, que, habitualmente caracterizam o espaço público em Portugal.

Na mesma conversa é abordado o tema da periferia questão vertiginosa no território português, quando confrontada com um poder político alheado e com a impossibilidade de um qualquer tipo de participação entre cidadãos e arquitectos na transformação positiva do território, face à inexistência de uma acção de conjunto sobre o mesmo. Com grande lucidez Jorge Sampaio afirma que "é preciso transformar os dormitórios em centros", mas, para que isso aconteça, é também necessário elevar o nível da encomenda pública elegendo, através de concursos, projectos com real fundamentação cultural e cívica, antes de dar continuidade a uma nebulosa quantidade de obras que, em vez de resolverem problemas, criam ainda mais. Nos trabalhos agora expostos apenas o projecto do Parque Forlanini em Milão (realizado em co-autoria com o arquitecto paisagista João Nunes) permite um exemplo do posicionamento de Gonçalo Byrne face ao tema do híbrido urbano/ rural, centro/ periferia. Através da possibilidade de intervenção numa área de grande dimensão e complexidade, onde o tema é precisamente construir a partir da ideia de vazio (um vazio que implica muita informação neste caso), o arquitecto apresenta na exposição com este projecto a única maqueta que se pode ver de cima e aquela que recorre a códigos de representação mais abstractos.

As questões relacionadas com o posicionamento cultural do arquitecto, são abordadas por todos os interlocutores de Gonçalo Byrne. O arquitecto Vittorio Gregotti (co-autor do Centro Cultural de Belém) faz a apologia da "longa duração" da arquitectura, afirmando que a "cidade não se faz em cinco minutos", enquanto Álvaro Siza afirma que o "horror ao vazio afecta o território". Estão aí presentes duas ideias caras ao pensamento arquitectónico de Gonçalo Byrne que se prendem com uma ideia de continuidade com o passado (embora não através de reproduções formais) e o trabalho com o espaço vazio (público ou privado), fruto de uma estratégia de projecto tão rigorosa quanto o desenho e construção de edifícios. Nuno Portas afirma mesmo, numa das conversas, que o espaço público (o vazio) "é mais perene do que os edifícios".

O escritor T.S. Eliot referia-se à possibilidade de criação de uma cultura contemporânea de "raízes antigas" e é exactamente isso que esta "escola portuguesa", como lhe chama Gregotti, procura inscrever em método ou sistema de pensamento que tem que lidar com um conjunto de contradições que caracterizam a acção do arquitecto face à tecnocracia dominante. A torre do Centro de Coordenação e Controlo de Tráfego Marítimo do Porto de Lisboa que se afirma como um marco simbólico (na medida em que a cultura contemporânea ainda pode erguer símbolos) à entrada da cidade e a Casa do Bramante Flamengo em Lovaina na Bélgica, um complexo que também incorpora uma torre de escritórios, são projectos que recorrem a essas "raízes antigas" da cultura europeia, que não operam rupturas ou tensões, que recorrem as valores universais do mundo ocidental como praças ou pátios, assentes num fleuma expressivo e tecnológico. Esta é uma arquitectura que lentamente se instala na memória e se converte ela própria em elemento de permanência.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 22 Dezembro 2006.