Num território escassamente construído, onde nem mesmo a agricultura acusa já a sua presença, a arquitectura pode adquirir contornos singulares de significação paisagística. Com a presença destas duas casas, que se alojam em cabeços onde outrora terão existido duas ruínas, a paisagem volta a ser fundada. Não se trata da fundação ao modo romano ou palladiano, cuja existência estava em estreita relação com o trabalho da terra, mas uma fundação estritamente cultural - a única possível na condição contemporânea.
Mas a obra não assenta apenas no facto de as casas dominarem visualmente o território - e fazem-mo até a vista atingir o oceano; trata-se sobretudo de serem dominadas visualmente pelo território e sobre ele marcarem uma presença tensa e imprescindível. Tensa porque se formalizam como marcos geodésicos "da afirmação humana" (como afirma o autor) e das suas inesgotáveis possibilidades e imprescindível porque contrariam os estereotipos culturais que têm alimentado a arquitectura de veraneio e a construção corrente no Algarve.
O artista plástico Robert Smithson referia-se à construção como "ruínas invertidas" e é precisamente esse o processo desafiador de relação com o tempo que estas casas inauguram. O projecto de Ricardo Bak Gordon não procura a ruptura pela ruptura, mas antes a libertação de tudo o que é supérfluo e a construção de uma morada onde todos os espaços possuem um valor semelhante - ou seja, relativiza-se a especificidade funcional de cada compartimento a favor de uma flexibilidade de ocupação.
As duas casas são matéria construída tornada morada humana. Matéria construída perfurada por vãos (e contudo podemos imaginar as caixilharias ausentes como se de uma ruína se tratasse) ou subtracção de matéria construída que origina os terraços que cada quarto possui. O interior e o exterior possuem variações mínimas de expressão tal como as casas entre si. Desta similitude entre uma e outra, dentro e fora, resulta a possibilidade do homem e do tempo as habitarem de modo sempre diverso.
Texto escrito por Ricardo Carvalho para o JA-Jornal Arquitectos nº 224 Julho-Setembro 2006.