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Habitar Portugal, mas Esporadicamente


Inaugurou no CCB, no passado dia 02 de Outubro, o Dia Mundial da Arquitectura, a segunda edição da exposição "Habitar Portugal 2003/2005", onde comparecerem centenas de pessoas. Poder-se-ia supor que o evento seria o espelho de uma prática (a arquitectura) que faz parte do quotidiano dos cidadãos, numa total relação de reciprocidade entre o território e o acontecimento que estas obras constituem. Mas não é assim. A exposição "Habitar Portugal", através das setenta e sete obras seleccionadas, mostra sobretudo o quão circunstancial é, ainda, fazer bem arquitectura em Portugal, face ao panorama de profunda transformação quotidiana das cidades e periferias.

A exposição, organizada pela Ordem dos Arquitectos, é o resultado das escolhas de vários comissários todos com formação em arquitectura, ou seja, é uma exposição disciplinar que pretende dar a ver ao país aquilo que de mais relevante se produziu nos últimos três anos. José António Bandeirinha coordenou uma equipa de comissários (Gonçalo Canto Moniz , Armando Rabaça, Telmo Cruz, João Matos e Nelson Mota, sendo que o coordenador escolheu sete obras de arquitectos portugueses fora de Portugal) responsáveis pela escolhas regionais agora apresentada.

As obras estão representadas através de fotografias e desenhos, com recurso esporádico a maquetas, numa sucessão de painéis colocados numa calha contínua, ao longo de um espaço de corredor. Mas apesar desta estratégia "pedagógica" de comunicação, não existe de facto linearidade alguma naquilo que é representado no que diz respeito ao programa, opções conceptuais ou situações de encomenda. O denominador comum é a elevada qualidade média dos projectos, o que para a disciplina prova que, quando estão reunidas condições, a arquitectura pode acontecer. Qual é então o olhar possível para estas obras que, genericamente, constituem fragmentos de qualidade e humanismo num panorama tão adverso de encomenda como é ainda o do Portugal contemporâneo?

O princípio de realidade:

 Os arquitectos portugueses aqui representados continuam a trabalhar com um inequívoco princípio de realidade, que os afasta de caminhos mais especulativos ou utópicos, na senda do "acontecimento" cultural. As obras constituem de facto acontecimentos mas porque, uma vez em confronto directo com o que existe à volta, fundam uma alternativa, através de um método de acção (o como e o porquê), pragmático contrário à regra dominante.

O princípio de realidade não é apenas uma herança cultural (também o é), mas sobretudo um modo de responder rigorosa e eficazmente aos constrangimentos da encomenda e a uma difícil capacidade de resposta dos empreiteiros. Obras como Teatro Municial da Guarda de Carlos Veloso e a Biblioteca de Ílhavo dos ARX procuram transcender esses limites, com o seu rigor construtivo e conceptual. Ainda que trabalhem dentro de um princípio de realidade inequívoco, em atenção ao programa e ao contexto, os lugares onde se inserem estas obras estarão a partir de agora sujeitos a outros padrões de qualidade e exigência cívica, que os municípios devem estimular.

Questionar as formas reconhecíveis:

A arquitectura contemporânea portuguesa, como acontece em todas a culturas europeias, criou também a sua retórica expressiva (estilística na linguagem comum) a partir do trabalho dos arquitectos mais influentes do presente. Já não é invulgar ver construídas pelo país obras (públicas e privadas) fruto dessa retórica (volumes paralelepipédicos, cor branca, superfícies de vidro) apenas possível porque ao longo de trinta anos um pequeno conjunto de arquitectos trabalhou arduamente para qualificar as poucas oportunidades de trabalho disponíveis (Álvaro Siza, Souto de Moura, Carrilho da Graça e Gonçalo Byrne, para mencionar aqueles que obtiveram maior visibilidade).

A exposição mostra opções diversas da parte dos arquitectos mais jovens no que diz respeito ao relacionamento com essa tradição e sobretudo na tentativa de evitar trabalhar exclusivamente com a tradição, e sobretudo evitando a retórica. Apesar da grande maioria realizar um trabalho de continuidade existem alguns sinais de vontade de ampliar as possibilidades de caminhos a trilhar. Nuno Grande e Pedro Gadanho com a casa em Carreço, Viana do Castelo, enveredam por caminhos na senda de uma plasticidade mais evidente e aberta, embora o interior da casa seja claramente o resultado de arquitectos formados pela Escola do Porto. Francisco Vieira Campos com a Unidade de Transformação Inapal Plásticos, em Palmela (onde tira partido dos sistemas construtivos intrínsecos à execução de uma unidade fabril), alcança um resultado surpreendente do ponto de vista espacial e expressivo, num tipo de programa que habitualmente não gera obras relevantes.

Trabalhar com o mercado:

É comum o equívoco em chamar "arquitectura de mercado" ou "arquitectura comercial" a obras cuja relevância disciplinar é nula. A arquitectura quando existe responde a quaisquer forças, as do mercado incluídas. Hoje, no momento em que iniciativa pública abranda, é vital que os arquitectos possam trabalhar com a promoção privada. E na exposição surgem timidamente obras que demostram que é possível aspirar à qualidade no universo da promoção imobiliária em especial no campo da habitação. Ou seja, arquitectos e promotores começam a encontrar uma plataforma de interesse comum mas num estrato de mercado (o luxo) que excluí ainda a esmagadora maioria da população. Obras como o Conjunto de Habitação no Parque das Nações em Lisboa do atelier Promontório, ou os edifícios residenciais do atelier Topos na Póvoa do Varzim ou do Atelier 15 em Viana do Castelo mostram que possível fazer (partes de) cidade a partir de pressupostos de qualidade dentro das regras lançadas pelo próprio mercado.

Fora da periferia:

Das obras apresentadas são poucas as que mostram a acção dos arquitectos na periferia das maiores cidades. Nesses territórios, onde urge pensar o futuro transformando o presente com uma estratégia clara de requalificação, a arquitectura continua a ser posta de lado como se tratasse de um bem dispensável. Mesmo em lugares onde existe uma acção transformadora (os programas Polis por exemplo) assiste-se na insistência dos mesmos erros grosseiros de gestão do território e dos espaços urbanos, por vezes lado a lado com as acções pontuais de qualificação. O plano Polis Cacém do atelier Risco e o Teatro Municipal de Almada (Teatro Azul) de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira são obras que, para além do seu valor disciplinar, permitem fornecer pistas para uma intervenção faseada mas insistente nesses territórios onde vive a esmagadora maioria da população urbana.

Em suma a exposição "Habitar Portugal 2003/2005" apresenta-se como um conjunto de peças, eruditas e eficazes, parte de um puzzle de que não se conhecesse o todo. Constata-se com a exposição que uma parte dos arquitectos portugueses está preparado para operar essa transformação do território, mas que isso tem que ser desejado pelos responsáveis eleitos das instituições que representam a população portuguesa (isto para a obra pública) e pelos cidadãos que devem procurar quem melhor pode tornar realidade as suas necessidades. A Ordem dos Arquitectos lança este repto, para além da corporação, mas a arquitectura tem que ser desejada, no quadro de uma conjuntura política e social, para poder existir e por isso podemos dizer que, por enquanto, "Habitar Portugal" só esporadicamente.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 27 Outubro 2006.