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Actuar na Periferia: de dentro para fora


Para quem sai de Lisboa, em qualquer direcção, a imagem densa da periferia, agressiva na sua relação com o território, parece ser uma metáfora da incapacidade da arquitectura em actuar positivamente nos espaços onde vivemos. Aí se confirma que os arquitectos cuja prática assenta numa visão humanista e culturalmente exigente foram genericamente excluídos do processo de expansão física das cidades portuguesas. E quando não são excluídos actuam apenas parcial ou pontualmente sobre esses territórios. Em Carnaxide, num bairro "circunstância" composto por edifícios medíocres e sem espaço publico, o arquitecto José Adrião concebeu no interior de um armazém um "edifício dentro de um edifício" que incluí um ponto de venda, escritórios e acervo de uma empresa de sinaléctica rodoviária. É a mais paradoxal forma de chegada da arquitectura à periferia: de dentro para fora.

O projecto resume-se a uma apropriação do espaço interior do armazém, assumindo o seu casco original e a sua expressão exterior. O novo conjunto de lajes de pavimentos e escadas soltam-se das paredes existentes (cuja rugosidade e textura foi deixada como foi encontrada), deixando um espaço entre estruturas como que a reforçar a demarcação entre os dois tempos e qualidades. O projecto consiste sobretudo na introdução de uma geometria rigorosa e abstracta - dados em total contradição com o edifício que acolhe a obra - que tira o máximo partido da luz que provem da cobertura e percorre o espaço verticalmente ao longo dos seus três pisos.

A instalação das novas funções dentro do armazém é simples e eficaz. No piso da entrada funciona a recepção e o acervo de material (que ocupa uma área considerável do conjunto), bem como uma copa para os funcionários. No primeiro piso escritórios e uma sala de reuniões e no último mais escritórios e o gabinete do director da empresa. O que resulta desta disposição lógica é um conjunto de espaços que se tornam progressivamente mais complexos quando se intui o facto de estabelecem relações visuais entre si, tirando partido de diferenças de pé-direito. Dois exemplos: o primeiro piso de escritórios (que funciona como um espaço fluído) é rematado com uma varanda com uma guarda de vidro sobre a entrada; a sala de reuniões enquadra panoramicamente, através de uma janela, o movimento de carga e descarga do material para venda no piso inferior.

De todos os elementos que compõem a obra existem dois que são especialmente marcantes ou singulares: a escadaria (linear) que atravessa todos os pisos (remetendo-nos para um imaginário povoado por edifícios muito diferentes, de museus a casas singulares) e o pátio relvado que ilumina o gabinete do director da empresa. Todos os outros espaços são marcados por um rigoroso trabalho em torno da relação entre luz natural e luz artificial e que resultam num ambiente de trabalho apaziguador.

José Adrião socorreu-se do imaginário dos materiais comercializados pela empresa para informar conceptualmente a intervenção. As superfícies brilhantes, reflectoras e coloridas associadas ao universo da sinaléctica são transportadas para portas, armários e volumes que contem as instalações sanitárias, tornando-se elementos de referência no tratamento uniforme do branco das paredes. A alcatifa - um plano monocromático - parece ser uma escolha surpreendente para os pavimentos, quer porque não obedece à lógica dos reflexos já mencionada, quer porque introduz uma dimensão doméstica no espaço o que provavelmente contribui para assegurar níveis de conforto acústico e térmico. É o mobiliário que acaba por contrariar qualquer possibilidade "purista" no ambiente, na sua banalidade composta por peças correntes que encontramos diariamente em vários contextos. Toda a obra assenta de facto neste sistema (também ele feito de reflexos) entre o banal e o sublime.

Esta obra pode ser interpretada (pelo menos) de dois pontos de observação distintos - o da cidade e o do programa. O primeiro prende-se com o facto de parecer não existir uma lógica em todo o processo que lhe deu origem: um edifício a que ninguém ousaria chamar "arquitectura" acaba por albergar um projecto que instaura um conjunto de qualidades (tipológicas, técnicas, expressivas) e funda um lugar: neste caso um lugar de trabalho. Quer isto dizer que a arquitectura está em último lugar na linha de montagem da cidade: ausente das infraestruturas, ausente do espaço público, dos edifícios, finalmente é instaurada através de uma obra efémera. Mesmo assim a marca da diferença é tão avassaladora, face a fragilidade e precaridade de todos os outros elementos da cidade envolvente que, repito, mesmo um projecto para um interior pode ser uma primeira vontade em transformar a construção grosseira num lugar mais humano.

O segundo ponto de observação está relacionado com o facto de ser um projecto de arquitectura para criar um ambiente de trabalho. É aí que a maior parte das pessoas passa os dias, mas a qualidade desses lugares (da função pública às empresas privadas) raramente passa do sofrível. Temas como a luz, o som, a proporção dos espaços e a qualidade expressiva dos materiais andam, há muito, arredados da maior parte dos escritórios. Inesperadamente um armazém de Carnaxide consegue reuni-los num único gesto.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 23 Abril 2005.