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Manhattanismo


Quando o establishment encontrava, na década de 70, uma voz em uníssono contra a Arquitectura Moderna arremessando-lhe adjectivos como "autorirária" "incaracterística" e "inumana", o arquitecto holandês Rem Koolhaas contrapunha uma outra visão: "Foi muito tímida". É deste patamar que deve ser lido o livro "Delirious New York", uma investigação sobre o Manhatanismo, que é como quem diz a maior e mais frutífera colisão na arquitectura moderna entre cultura erudita e cultura popular. A editora catalã Gustavo Gili traduziu agora esta obra para português do Brasil. "Nova Iorque Delirante" está disponível em Portugal trinta anos depois de ter sido editada.

Logo nas primeiras páginas fica claro o programa de intenções desta obra de investigação sobre a história da cidade de Nova Iorque. A linguagem coloquial, suportada por casos de estudo (de vão desde a lúdica Coney Island, passando pelo Rockefeller Center até ao edifício da ONU) e, mais importante, a presença constante de uma "tese" que nunca se perde de vista, tornaram o autor uma imediata referência no contexto da arquitectura anglo-saxónica. Koolhaas traça em "Nova Iorque Delirante" uma genealogia da mais carismática cidade moderna (apenas comparável com Brasília) isolando alguns conceitos que se tornarão frutiferamente operativos no trabalho do escritório de arquitectura que havia fundado em 1975 com Elia Zenghelis, Zoe Zenghelis e Madelon Vriesendorp, o OMA - Office for Metropolitan Architecture.

"Densidade", "Urbanismo do Fantástico", "Congestão" ("tendo Manhattan como exemplo, este livro é um projecto para uma "cultura da congestão" pag. 27), "Realidade Sintética" e "AutoMonumento" são conceitos que as mais influentes correntes do pensamento europeu da década de setenta, e em especial as do norte de Itália teriam recusado com estrondo. Veneza, Milão, Madrid e também o Porto, através dos seus arquitectos e professores mais influentes advogavam, sob a influência do arquitecto Aldo Rossi, a permanência da forma na cidade, e em simultâneo elaboravam uma crítica ideológia radical da cidade capitalista - a cidade que dominava já o mundo ocidental e se afastava das utopias modernistas. Koolhaas movia-se noutra geografia física e mental. Roterdão, Londres e Nova Iorque eram paragens de um percurso muito mais influenciado pela cultura pop (rápida e intensa), pelas utopias tecnológicas da década de 60 e pela valorização da conceptualização no pensar e fazer arquitectura (até ao final da década de 80 Koolhaas e o OMA construíram poucas obras mas todas possuíam o tom do manifesto).

Um "Manifesto Retroactivo para Manhattan" - foi este o sub-título do livro em 1978. À distância de trinta anos sabemos agora que o verdadeiro manifesto não era tanto retroactivo mas mais prospectivo. Daí em diante os temas do manifesto surgirão na sua obra de arquitecto. A astúcia no isolamento dos conceitos, e a possibilidade de extrapolações para lá do caso de estudo, aproximou o livro de outras áreas de conhecimento - da política à economia - e abriu um campo de investigação que se revelou um dos mais influentes no início do século XXI, e que permitiram ao OMA a concretização de obras importantes nos EUA, Europa e China.

Mas comecemos pela "Densidade". Nova Iorque está baseada, morfologicamente, na presença disciplinadora da sua rectícula, onde todos os quarteirões possuem genericamente o mesmo valor. Nesta regra existem as excepções do grande rectângulo central arborizado chamado "Central Park" e também da Brodway. Mas Koolhaas propõe uma leitura um pouco diferente do pragmatismo do plano holandês original: "é, acima de tudo uma especulação conceptual. Apesar da sua aparente neutralidade, ela implica um programa intelectual para a ilha: com a sua indiferença à topografia, ao que existe, ele afirma a superioridade da construção mental sobre a realidade" pag. 37. A escassez de realidade é, para Koolhaas, a reacção cultural à rectícula (uma reacção à ordem) e formaliza o "Urbanismo do Fantástico" que teve a sua génese nos parques temáticos de Coney Island que culminaram na fantasia desafiadora dos arranha-céus.

A "Realidade Sintética", hoje no vocabulário corrente a propósito da informação e do consumo, estava já explanada em "Nova Iorque delirante": "O Central Park é um "tapete arcádico" sintético" pag. 40. Mas a voragem sintética não está apenas na paisagem do parque. Os "estilos arquitectónicos" de Manhattan e a relação difícil com o modernismo europeu produzem uma arquitectura de arranha-céus de "Lobotomia" onde "dentro" e "fora" já não coincidem e onde o "estilo" eleito é aquele que o programa ditar.

Em Nova Iorque um arranha-céus é uma cidade vertical - uma cidade dentro da cidade. Com a "Realidade Sintética" e o "Urbanismo do Fantástico" nascem híbridos. Daí a fórmula: "Rockefeller Center é um instantâneo do passado e um instantâneo do futuro: fantasma do Jardim Elgin e da Ville Radieuse, golpe de mestre de canibalismo arquitectónico. O Centro é a apoteose do "cisma vertical": Rockefeller Center = Beaux Arts + Dreamland + futuro electrónico + o "passado reconstruído" + o "futuro europeu", o "máximo de congestão" combinado com o "máximo de luz e espaço", o "mais belo possível em consonância com o máximo rendimento a ser gerado"" pag. 234. A aparente confusão da colagem pode ser lida em muitas obras de Koolhaas onde está presente a ironia sustentada por uma ideia de assemblage onírica de referências.

O "AutoMonumento", um dos mais desconcertantes conceitos definidos pelo autor, é o monumento possível para o século XX, e para Koolhaas concentra-se no arranha-céus. "Uma condição que sugere permanência, solidez e serenidade - e, ao mesmo tempo, a de abrigar com máxima eficiência a "mudança de vida", a qual é, por definição, antimonumental." pag 125/ 126. Nova Iorque tornou-se assim a cidade da congestão de automonumentos.

Mas o final desta história não é a que seu autor gostaria. Nova Iorque não resistiu à influência do modernismo europeu e o edifício sede da ONU aí está apara o comprovar - com as suas referências directas a Le Corbusier. Para Koolhaas a passagem de Le Corbusier pela cidade sintetiza as primeiras brechas no Manhattanismo e um primeiro estádio da sua permeabilidade à cultura cartesiana e higienista. Para isso finaliza a sua tese com projectos de arquitectura da sua autoria que prolongam a tradição por si identificada. Aquele que melhor homenageia Nova Iorque é a Nova Welfare Island (1975-76). É uma ilha artificial (onde hoje existe a Roosevelt Island em pleno East River) carregada de edifícios manifesto - o reduto liberador da cidade delirante que se domesticou e que foi devolvida por Koolhaas em escala de parque temático com arquitectura sintética.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 09 de Maio 2008.