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Los Angeles, as Regras da Atracção


Malibu. O trânsito abranda e pára na chegada à metrópole que hoje é conhecida como Los Angeles, mas que agrega na verdade várias cidades dentro da cidade. O fim do dia cai e as luzes dos automóveis, numa fila imensa em ambos os sentidos, iluminam em vermelho os portões e os muros das casas que se lançam sobre as dunas para o Pacífico. Quase todas são casas de praia que alimentam um imaginário de formas reconhecíveis de gosto duvidoso e aparente fragilidade construtiva. Mas algumas delas são referências da arquitectura (dos anos 50 e 60 do século XX), embora poucas possam ser visitadas. O automóvel e as casas são a base cultural desta cidade, que a partir desta dualidade construiu um imaginário, em muito alimentado pelo cinema, que se propagou pela cultura ocidental. E se alguém pergunta o que é que se pode ver em Los Angeles que traduza a cultura de um lugar e de um tempo, a resposta reside aí, nessas duas peças da grelha infinita desta cidade difusa.

As grandes auto-estradas rasgam a cidade que se avista de cima, densamente construída, horizontal, arborizada e escassamente iluminada. O automóvel, e a percepção "cinemática" permitida por este, não consegue escamotear as impressionantes distâncias que separam os vários centros. Não há outro modo de nos deslocar-mos. Passaram já mais de quarenta anos desde que a General Motors fez colapsar o sistema de transportes públicos, criando as condições ideais e "democráticas" para a aquisição de transporte próprio, e apenas meia década desde que os actuais políticos voltaram a investir numa rede de transportes públicos, ainda muito tímida. Passaram duas horas, é noite avançada, e chegamos a West Hollywood.

Em pleno dia, e fora das grandes artérias, Los Angeles mostra-se plácida e dormente, mas com um hedonismo latente. Pouca gente na rua, menos ainda a andar a pé, mas sobretudo muitas árvores e uma escala humanizada. Os cafés, restaurantes e lavandarias, quase sempre nas esquinas, e as lojas, que se apropriam de casas ou armazéns ao longo das avenidas, revelam a matriz cultural da cidade. Tudo é perecível, de rápida transformação e baseado numa ideia de estilo - "mediterrânico", "colonial" ou "contemporâneo". Para os europeus esta é a primeira provocação no modo como tudo se dessacraliza e reside à superfície. Tudo reside entre a ingenuidade e profunda liberdade de um "why not?". As lojas da área de Melrose Avenue mostram-no com os seus make-ups arquitectónicos a partir de construções muito frágeis - vulgos barracões - onde reorganização geométrica (Miu Miu), pintura rosa (Paul Smith) ou a apropriação informal (Marc Jacobs), entre muitas outras estratégias, reinventam a imagem urbana com comércio de luxo. Mas o manto de glamour sobre algo banal não é uma novidade da Los Angeles contemporânea. Eventualmente terá sido sempre assim, desde que a partir da década de 20 a cidade sofreu o seu primeiro up-grade económico a partir da indústria (petróleo e automóveis) e do turismo.

Os arquitectos europeus que a partir dos anos 20 (do século XX) emigraram para Los Angeles perceberam esta matriz não como uma contingência mas como uma possibilidade. Esta consistia em trabalhar culturalmente uma cidade muito jovem (fundada no século XVIII em 1800 tinha apenas 315 habitantes), de modo a traduzir, sem preconceitos e sofisticadamente, o estilo de vida que atraía a Los Angeles milhares de pessoas - embora tudo isto seja um facto nunca conseguiram trabalhar fora das classes progressistas e informadas, facto que parece permanecer até hoje. Muito próximo de Melrose Avenue, o austríaco Rudolf Schindler (1887-1953) construiu a sua casa em 1922, depois de ter deixado o atelier de Frank Lloyd Wright em Chicago, e arriscar uma carreira em nome próprio numa cidade onde tinha poucos contactos. Ao visitar esta casa, hoje com cerca de oitenta anos, constatamos o seu significado e intensidade de valores de vida por oposição a tudo aquilo que se tem construído à sua volta, que oscila entre construção corrente e a banal arquitectura "american beauty".

A casa Schindler posiciona-se conceptualmente nos antípodas das obras de Frank Lloyd Wright (1867-1959) para as colinas de Los Angeles. Este pareceu sempre querer contrariar a matriz dominante com as suas casas em betão e pedra, carregadas de referências à cultura pré-colombiana. É como se Wright estivesse interessado em lançar uma possibilidade de "permanência" dos valores históricos ou de "monumentalidade" na cidade onde tudo reside à superfície e nada dura o suficiente para ser monumento mas apenas "memorabilia". As suas casas mais conhecidas, a Hollyhock de 1923 e a Ennis Brown de 1924 são hoje casas-museu, embora sejam difíceis de localizar nas estradas sinuosas das colinas de Hollywood.

O cinema foi talvez o meio mais revelador de levar a cultura arquitectónica de Los Angeles ao grande público e à classe média que se fortalecia no pós-guerra. A "indústria", como é conhecida, impregna o imaginário colectivo da cidade condicionando o olhar dos que aí vivem ou a visitam - porque estamos sempre a ver coisas que não estão de facto na cidade mas numa ideia que temos dela. As casas desenhadas pelos arquitectos mais importantes serviram (e servem ainda) de pano de fundo a dezenas de filmes produzidos em Hollywood, mas raramente são espaços de pessoas comuns ou mesmo de heróis.

No documentário "Los Angeles plays itself" (2003) mostram-se estas obras como morada dos "vilões", numa associação entre perversidade e sofisticação, contrária ao "establishment" da produção corrente, banal mas democrática. O intuito da arquitectura modernista de chegar a todos falhou, constatação não especificamente norte-americana, e o cinema de Hollywood, que sempre ignorou a aspirações socialistas da maioria dos arquitectos modernistas ou intelectuais que por ali viviam, associou a suas obras a caprichosas manifestações de singularidade. Talvez por isso a campanha lançada em 1945 pela revista "Arts & Architecture" para a construção de casas experimentais, que deveriam depois ser repetidas e estar ao alcance de qualquer um, não tenha passado dos protótipos hoje conhecidos como "case study houses". Contudo as casas construídas permitiram um campo de experimentação fértil e carregado de novidade: os melhores arquitectos de Los Angeles estavam prestes a cruzar a arquitectura "ontológica" dos mestres europeus (especialmente sob a influência de Mies van der Rohe) com a cultura pop, reinventando os caminhos da modernidade, agora mais descomprometida e interessada na complexidade do indivíduo, na sociedade de consumo e na transversalidade possível pelos cruzamentos culturais.

Poucos dias depois de se chegar a Los Angeles é relativamente fácil perceber as várias cidades que aí residem e a clareza geométrica com que se separam - uma separação social, sem dúvida, e também racial, já que a cidade real é composta por enormes comunidades de mexicanos e asiáticos. As colinas de Hollywood, onde turistas insistem em ver os portões das casas de actores célebres (independentemente destes ainda lá morarem) são um bom pretexto para subir ao Griffith Park e perceber a vastidão da grelha de Los Angeles e as diferenças entre as partes unificadas pela luz dourada misturada com o smog. Junto ao Planetário, onde casais mexicanos em dia de folga se misturam com os habitantes de Hollywood que aí fazem jogging, o olhar pode alcançar o Oceano Pacífico.

Nos vários kilómetros de praias instalaram-se comunidades autónomas como Santa Monica e Venice. Ao contrário da regra corrente na metrópole aqui é possível andar a pé. Santa Monica possui a estrutura de uma cidade convencional, o que aqui quer dizer densidade com edifícios de vários pisos com lojas e escritórios ou apartamentos em cima, mas também esplanadas e ruas pedonais. Tal como Hollywood ou Beverly Hills, é próspera e hedonista, embora se intua no ambiente mais contenção e discrição e uma menor influência da "indústria". Foi aqui que surgiu o ambiente que iria propiciar uma nova contribuição de Los Angeles para o mundo da arquitectura, com Frank Gehry à cabeça desta contribuição.

Embora hoje Gehry tenha construído importantes edifícios públicos na cidade, são as pequenas obras anteriores ao reconhecimento planetário, que melhor traduzem os temas da sua investigação. Estas misturam praia com "cultura underground", materiais baratos com exploração formal (leia-se anti-académica), realidade e artifício, e, como não podia deixar de ser, a anulação de fronteiras entre erudição e cultura popular. Tudo isto foi filtrado pelo arquitecto canadiano que se estabeleceu em Santa Mónica nos anos 60. Daí em diante Gehry polariza a arquitectura californiana culturalmente relevante, e estabelece colaborações com artistas americanos como Richard Serra ou Claus Oldenburg. A pergunta da obra de Gehry é singela: "o que é o luxo?" nesta cidade com ideias feitas de luxo estereotipado. A resposta consistiu em afirmar qualidades arquitectónicas como uma possibilidade de encontro inesperado de materiais "arte povera" que configuram espaços singulares.

Não existe coisa como "homogeneidade" ou "continuidade" no passeio de mar de Venice Beach. É um "patchwork" urbano (e por isso social) com uma forte componente de espaço público (algo pouco comum em Los Angeles), quase circense, com ginásios ao ar livre, ambiente de feira, pistas de skate, construções "naif" e casas de praia aparatosas. Aí podem ver-se algumas das casas de Gehry.

A vibração popular de Venice está por sua vez nos antípodas do antigo centro de Los Angeles - a downtown. Aridez e monumentalidade são os temas desta área que voltou hoje a ser objecto de interesse na cidade. Isto porque a indústria da diversão se está a mudar lentamente para lá, porque se voltaram a construir torres de habitação (uma novidade na cidade das casas com jardim e piscina), que convivem hoje com os arranha-céus de escritórios e também porque existe uma clara aposta institucional em regenerar esta área do ponto de vista do consumo cultural. Por isso hoje convivem com as ruínas da Los Angeles "deco" (para os EUA isto é algo do passado distante), importantes edifícios como a Catedral, projecto do espanhol Rafel Moneo, ou a sede da empresa de transportes Caltrans de Thom Mayne/ Morphosis e o Centro Cultural Walt Disney de Gehry, para além dos museus que aí se instalaram da década de 80.

Apenas depois de estacionar o carro se percebe o porquê das ruas estarem desertas. Existe uma rua subterrânea - um túnel - que distribui o trâfego pelos vários edifícios. Não há por isso necessidade de pisar o passeio. Fruir a arquitectura a partir da rua reveste-se assim de uma carga de exotismo, o que é pena, porque o edifício de Gehry se percebe muito melhor quando percorrido a pé com as suas variações de escala (possui um jardim público de ambiente mediterrânico elevado da rua) e sobretudo com a sua barroca abertura na esquina das duas avenidas revelando uma entrada que imaginamos raramente usada. Mas são estas as regras da atracção da cidade. Não querer aceitar é perder.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 23 Fevereiro 2007.