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Le Corbusier: Arquitectura ou Revolução


No interior arborizado de um quarteirão, no próspero bairro de Jasmim, Paris-Auteuil, existem duas casas que hoje albergam a Fundação Le Corbusier. As Casas acopladas La Roche e Jeanneret, construídas em 1923 para um banqueiro suíço e para o primo pianista do arquitecto, assumem-se como o ponto de partida de uma longa genealogia arquitectónica longe de se esgotar no século XX - criaram matrizes de variações inesgotáveis. Le Corbusier (1887-1965) começou aí a construir os temas que irão caracterizar a sua obra até à II Guerra Mundial: o desafio da gravidade, elevando as casas do chão, espaços de sala com duplo pé-direito e de grande varição de proporções, invasão do interior das casas por pontes, rampas, varandas ou janelas que enquadram árvores. Arquitectura em estado puro, com uma dimensão de radicalidade fundadora. Poucos serão os arquitectos sobre os quais se poderá dizer que há um antes e um depois da sua obra.

Le Corbusier foi um dois mais influentes pensadores do século XX, que se exprimiu, com intensidade variável, através da escrita e da pintura e com intensidade plena através da Arquitectura. Mas o arquitecto suíço não era um criador isolado. Pelo contrário, poder-se-á dizer que seria o mais sincrético do arquitectos activos após a I Guerra Mundial. A sua obra foi uma plataforma de encontro de todo o pensamento artístico produzido pela vanguarda europeia (da Rússia à Holanda) em torno das questões centrais do seu tempo - implosão da cultura burguesa e abertura a uma nova condição do Homem no mundo moderno. Le Corbusier elaborou com esse material a mais avassaladora sucessão de sínteses, associando-as a uma constante experimentação tecnológica em torno do material que justificou a sua instalação em Paris. Apresentava-se então como especialista em betão armado.

Mas a "arquitectura ou revolução" que exigia não se esgotava nas casas dos seus clientes informados e disponíveis para obras que não poderiam reconhecer de experiências passadas. A habitação colectiva estava também no centro da investigação do arquitecto e foi objecto de vários ensaios escritos. "As velhas casas arruinam a nossa moral!" era o aforismo que o arquitecto utilizava para descrever a cidade do século XIX. Enquanto a vanguarda alemã da década de vinte mergulhava numa leitura matemática da célula habitacional, procurando espaços com as dimensões mínimas ideais (e realistas), Le Corbusier lançava as possibilidades para um lugar mais poético e livre. Propunha o empilhamento de moradias - casas com jardim - num quarteirão com um pátio central - projecto a que chamou Immeuble-Villa (1922).

O Immeuble-Villa não se concretizou mas o seu impacto conceptual não foi menor por isso. Le Corbusier iria construir outras Unidades de Habitação radicalizando a condição de autonomia do conjunto - à imagem dos navios transatlânticos que tanto admirava. A unidade que construiu em Marselha é aquela que melhor traduz as suas premissas.

A construção de edifícios públicos de grande escala teria que esperar pelos anos 50, já com reconhecimento pleno da sua persona. Os principais projectos de concurso que Le Corbusier realizou na década de 30 não obtiveram os primeiros prémios, mas não deixaram de influenciar as gerações mais jovens - em especial o Palácio da Liga das Nações em Genebra (1927). Mas foi também no pós-guerra que a sua arquitectura abandonou a plasticidade baseada nos volumes brancos e na leveza estrutural. Com a casa Jaoul, em Neuilly-sur-Seine, o arquitecto convocou um mundo oposto aquele a que era associado. Abóbodas em betão e tijolo à vista foram o prenuncio das obras da maturidade, progressivamente mais expressionistas (eventualmente menos optimistas).

Os desenhos do caderno da sua "viagem ao oriente" da juventude (hoje disponível em edição fac-simile), irrompiam agora em obras como a capela de Notre Dame du-Haut Rochamp (1954). O arquitecto que havia exigido o homem novo (que era um homem standard) trabalhava agora com referências explícitas à cultura arcaica e com um sentido telúrico da ideia de construção do espaço. Apenas a sua visão da cidade moderna pareceu ser sempre impermeável a esse primitivismo que invadiu a cultura da reconstrução da Europa. A cidade corbusiana nunca se libertou de uma visão cartesiana, higienista e, principalmente, de manifesto cerebral. Também aí deixou lastro. Mas desta vez as gerações mais jovens propuseram exactamente o oposto do mestre. De então para cá a sua obra nunca deixou de estar presente emanando a força serena da cultura clássica.

Texto escrito para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 16 Maio 2008.