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Fazer Cidade com o Museu do Oriente


É um dos temas mais desafiadores da cidade contemporânea. O que fazer com os edifícios que herdámos do passado recente, cuja utilização foi interrompida, e que esperam novas ocupações? A Fundação Oriente escolheu o antigo edifício de Armazéns Frigoríficos, na frente ribeirinha de Lisboa, desenhado pelo arquitecto João Simões na década de trinta, para uma destas operações de mudança de uso. O atelier do arquitecto João Luís Carrilho da Graça foi responsável pela devolução do edifício à cidade, agora com um novo programa: o Museu do Oriente.

A reconversão de um conjunto de armazéns frigoríficos, empilhados verticalmente e com baixo pé-direito, em museu não será transformação mais óbvia para os espaços com estas características. Até porque o Museu do Oriente não tem a vocação de expor arte contemporânea (excepto na sala de exposições temporárias), prática mais flexível e transversal a espaços muito marcados pela matriz da ocupação original. O Museu do Oriente mostra antes uma colecção com um perfil distinto: arte que atravessa os séculos e várias civilizações orientais, transversal em termos de objectos e escalas de peças. Aí se mostram pequenas obras de joalharia até uniformes de samurais, passando por maquetas de edifícios. É exactamente na leitura desta dificuldade que se revela o acerto de estratégia de Carrilho da Graça ao trabalhar com os espaços de armazém escurecidos, ajustando e intensificando a relação de escala e luminosidade entre visitante e objecto.

As salas escurecidas não revelam de imediato a profusão de pilares que o edifício original possui. Estes estão pintados de negro e envoltos por caixas de vidro que por sua vez contêm as peças da colecção. O cruzamento do obscurecimento com os reflexos do vidro amplia e multiplica o espaço até ao infinito. Mas a opção arquitectónica mais transformadora é aquela de revestir o tecto com um material negro que espelha o espaço e o amplia também verticalmente. O espaço de armazém baixo e marcado pela estrutura de betão é agora horizontal e verticalmente profundo. Nada neste projecto parece querer revelar a matriz do armazém frigorífico: este é apenas uma câmara cuja luz difusa faz emergir a presença das peças.

Esta será por ventura a opção mais desafiadora do projecto por se posicionar no antípoda do espaço industrial para expor arte, que tem dominado o panorama arquitectónico nas últimas décadas. Carrilho da Graça instala no interior uma sala com um ambiente mais próximo do Museu da Fundação Gulbenkian, assumido o edifício como um grande contentor, nunca revelando o seu "estado original", mas sempre perseguindo uma atmosfera fixada pela arquitectura. Mesmo as circulações são feitas através de uma escada central cuja generosidade de dimensões pressupõe também um desejo de cenografar o espaço que não estava inscrito no original.

No último piso a intervenção opta pela abertura ao rio através de espaços de restaurante e de várias salas de eventos. O restaurante é o espaço mais marcado no exterior de toda a intervenção - é visto como uma caixa negra e de vidro pousada na cobertura. Trata-se de uma peça justaposta ao edifício com uma frente de vidro de extraordinário domínio panorâmico sobre o estuário e o porto.

Do exterior a nova intervenção é revelada por dois momentos de apropriação do edifício - que são também momentos em que a intervenção contraria a expressão do armazém Ao nível da rua o vidro reveste os espaços de entrada e permite uma relação de grande abertura desde o átrio, da loja e dos espaços de espera com a rua. Esta nova "cinta" de circulações e acessos reinventa o sentido urbano do edifício como se a cidade lá fora não fosse o Porto de Lisboa, mas "cidade convencional". Poder-se-ia dizer que esta disposição ao espaço público poderá influenciar positivamente o ambiente envolvente, humanizando-o e tornando-o mais cidade a partir da ocurrência do Museu do Oriente.

A segunda intervenção consiste no revestimento da cobertura com folha de ouro. A acção reinventa o volume branco com baixos relevos, remetendo-o para uma relação de opostos inesperada. A escassez e pragmatismo do original (mais um edifício do porto, embora interessante) são reactivados perceptivamente pela folha de ouro - um material cuja preciosidade colide perceptivemente com a sua base. Este é o elemento que fixa e reflecte a luz poente de Lisboa e anuncia a transformação do uso.

Depois de qualquer operação mediada pela Arquitectura pergunta-se. Entrou em perda o edifício original? É possível ler na intervenção os dois tempos? Não entramos em perda e podemos ler o edifício original. Mas o mais importante é que daí resultou uma outra obra, onde o original é só a base que agora se relativiza. A intervenção de Carrilho da Graça opta por revelar o que sempre esteve lá , mas que a cidade nem sempre reconheçeu. Uma vez alterado o programa, através da Arquitectura com uma estratégia cultural, o edifício foi devolvido e a sua presença recentrada.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 23 Maio 2008.