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A Tragédia como uma Oportunidade


A terra tinha já tremido várias vezes, mas na manhã do dia 1 de Novembro Lisboa foi assolada por um terramoto, seguido de um maremoto e de vários incêndios. Nesse dia de 1755 começou a reinvenção da capital portuguesa que tinha sido timidamente ensaiada por pensadores e governantes desde o século XVI. Com a tragédia a oportunidade foi plenamente compreendida e Lisboa conheceu uma operação de reconstrução sem precedentes na cultura europeia. Ana Tostões e Walter Rossa foram os comissários da exposição "O Plano da Baixa Hoje" que revela o rigor conceptual e a ambição política do processo.

Ao centro da exposição, que assume uma estrutura cronológica balizada entre o século XVI e a actualidade, estão peças cartográficas pré e pós-terramoto. São na sua maioria desenhos e cartografias originais que fixaram as questões topográficas, tipológicas e morfológicas da cidade, nas suas várias etapas políticas e que culminam com os magníficos desenhos produzidos pela Casa do Risco. O visitante que queira ler a história da cidade de Lisboa, da sua Arquitectura e expansão urbanística pode fazê-lo com a narrativa visual que os comissários definiram.

Mas comecemos pelo estrangeiro. A experiência do confronto com uma tragédia, tinha sido divulgada, e era conhecida em Portugal. O grande incêndio de Londres em 1666, que permitiu ao arquitecto Christopher Wren (1632-1723) fazer o seu célebre plano, ou a erupção do Etna que destruíu a cidade de Catânia ainda no século XVI são dois exemplos presentes na exposição. Mas nenhum destes casos superou a complexa questão da propriedade privada para poder concretizar sem entraves os planos urbanísticos. Também aqui o caso de Lisboa teve contornos de alguma especificidade. Provavelmente este facto justifica a opção de criar uma sala chamada "The Black Box" que divulga o período entre 1756 e 1758 em que se discutiram nos bastidores da corte que decisões tomar relativamente a certas propriedades, qual o grau de densidade de construção a optar e, supomos nós, quem deixar fora do processo.

Este momento corre em paralelo a uma sala "solar" dedicada a Manuel da Maia, o Engenheiro Mor e Arquitecto Civil responsável pelo enquandramento cultural e técnico explanado no livro "Dissertação". O momento alto da exposição é aquele que mostra os desenhos originais da Casa do Risco e a estratégia de projecto de espaço público, estrutura e infra-estrutura que caracterizam o plano pombalino. Aí e nas salas seguintes estão as propostas de Eugénio dos Santos e Carlos Mardel que revelam o interesse destes engenheiros-arquitectos em definir sobretudo espaços urbanos com grande acerto de escala e uma expressão arquitectónica assente na repetição de elementos como as janelas, varandas e paredes corta-fogo. É uma Arquitectura directa e regrada com grande flexibilidade de compartimentação interior.

O entendimento da oportunidade voltou a acontecer em Agosto de 1988. No final da exposição, na sala "Para Além da Baixa" mostra-se como o incêndio do Chiado permitiu voltar a pensar a cidade histórica com instrumentos e ambição de escala inauditos. O arquitecto Álvaro Siza optou por um projecto de continuidade e permanência, mas com capacidade transformadora. Hoje podemos fazer percussos e viver os logradouros graças a esse plano. Este posicionamento é em tudo bem distinto do desejo de transformação que a década de quarenta tinha para a Baixa. O arquitecto Faria da Costa, o autor do Plano de Alvalade, em 1949 propôs arrasar parte do tecido urbano do Rossio e aí construir uma cidade com uma formalização axial e monumental.

A exposição mostra como cada tempo enfrenta de modo distinto o tema da cidade, e sobretudo da cidade densa e com grande carga de informação histórica. Do nosso ponto de vista - do mundo contemporâneo - podemos então perguntar se a possibilidade de regeneração poderá partir da continuidade e não da ruptura que uma tragédia introduz.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 25 de Julho 2008.