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Los Angeles, as Regras da Atracção Ilegal Fundação Iberê Camargo Niemeyer, um encontro no Rio Viagem como Conhecimento Da Cidade que Falece Dizer a paisagem que somos nós 2006
Imitación y Experiencia A Fundação Gulbenkian como Processo O Pavilhão está Vazio De Todas as Casas, a Casa Da Biblioteca para a Cidade Comércio e Lazer: uma digressão errática Habitar Portugal, mas Esporadicamente As Casas como Marcos Geodésicos Geografias da Permanência Ode Marítima em Aço e Vidro Entre o Centro Comercial e o Museu 2005
Paisagem e Arquitectura A Arquitectura como uma Litania Uma Floresta de Famílias, Nomes e Lugares Actuar na Periferia: de dentro para fora Montanha Mágica com Graffiti Uma Visita ao Panorama Aires Mateus: A Arquitectura como o Eterno Retorno 2004
Vítor Figueiredo: o Eclipse Lisboa, Roterdão e Algumas Torres Precisão Suíça: do Pitoresco e do Sublime Palais de Tokyo, o Museu Situacionista Carrilho da Graça: A Obra ao Branco Habitar a Cidade Histórica 2003
Portugal in Vitro, Embaixadas em Brasília e Berlim Chicago, Cidade Boomerang Duas Manhãs nos Olivais A Casa Elementar/ The Simple House A Casa que se Bifurca A Arte da Oscilação Habitar. Percurso em Via Rápida 9 Silos Experimentais para Lisboa 2002
Carrilho da Graça conversa com Ricardo Carvalho Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição Le Città di Sabari Casa com Capela Construir o Incorpóreo Local, Ibérico, Global Nove para o Ground Zero, Zero para Nova Iorque Hong Kong Juke Box 2001
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Casa com Capela
Nas proximidades de um castro, de uma via romana e do convento franciscano de Varatojo, espraiam-se largas propriedades com vinha e pequenos bosques. Foi construída neste lugar uma casa com características muito diversas daquilo que por ali hoje é habitual. Em tempos não muito distantes a estrutura cadastral do território assentava em pequenos aglomerados rurais polarizados por propriedades com um único conjunto edificado, os casais, estruturas de grande significância social e cultural nesta paisagem. Estão agora circundados pela expansão urbana da cidade mais próxima. No caso de Torres Vedras, que não é de todo diferente do resto do país, esta necessidade de progresso trouxe a confirmação do sucesso - que percorre todas as classes sociais - de uma série de modelos suburbanos, que constituem a esmagadora maioria da construção que aqui é produzida. Na melhor das hipóteses são casas artificialmente inspiradas antigas casas-mãe das herdades, nos piores são edifícios de habitação colectiva que forçam um ambiente urbano onde ele não pode existir. Os valores da paisagem (e por consequência os valores da vida em comunidade) sucumbem rapidamente a esta voracidade deslumbrada pelo lucro fácil e imediato e dão lugar à criação vertiginosa de espaços sem capacidade de gerar memória. Não sem alguma ironia parte da cultura contemporânea, parece cada vez mais distante de uma dimensão operativa, pragmática, de actuação directa sobre o território. Em contextos de grande adversidade é ainda a escala da casa que permite a alguns jovens arquitectos uma reflexão sobre a paisagem e o habitar. Foi isso que o arquitecto José Manuel Rodrigues procurou num projecto sem cliente - o da sua própria casa em Varatojo, Torres Vedras. Não são muitos os jovens arquitectos cuja oportunidade de construir passa pela sua própria casa. Mas para alguns a casa própria ou para a família foi o primeiro projecto. Lembramos apenas dois, Arne Jacobsen e Robert Venturi. Outros, o único projecto que viram construído foi aquele em que eram clientes, como o projecto da casa/ponte de Amancio Williams de 1943 em Mar de Plata, Argentina. Também aqui na casa de Varatojo se trata de uma primeira obra. Uma tentativa de voltar a enfrentar aquilo que eram algumas das premissas da arquitectura doméstica em Portugal no século XX - a relação tradição/modernidade. Não se trata portanto de uma casa manifesto, o que não invalida que não seja laboratorial, mas sim de uma reflexão sobre o habitar contemporâneo no meio híbrido (rural e urbano). Manuel Taínha, antigo professor do arquitecto, diz-nos que "usamos o arsenal da memória, o "lixo" que trazemos conosco, o luxo da existência, único e irrepetível. Podemos olhar para outros e ver como resolveram este ou aquele problema, sejam contemporâneos ou passados. A presença do passado é irrecusável." (entrevista ao Jornal Público 4 de Fev. 2000) O programa eleito pelo arquitecto - casa com capela - reforça uma vontade de não rompimento com a tradição, pelo menos ao nível do programa e das relações funcionais, incorporando-lhe o universalismo caro ao legado cultural do século XX, tomando como referência obras incontornáveis da cultura portuguesa, como as de Álvaro Siza ou Manuel Taínha, de onde são retiradas ferramentas metodológicas. É a capela o primeiro elemento arquitectónico a posicionar-nos perante o conjunto que incorpora a paisagem e a casa. Trata-se um edifício cúbico branco, isolado, com um pórtico que alberga o sino. É este volume que nos recebe e mostra a casa ao fundo no remate de um caminho. A capela realiza o acerto de escala com as dimensões do lugar: a paisagística e a cultural. Paisagística porque perante a vastidão da envolvente, é necessário reverter à escala humana, um gesto de acolhimento desinteressado de solenidade ou representatividade. Acerto ainda com a dimensão cultural porque assume o interesse pela síntese e interpretação do tema casa do casal, não recusando um longo legado de tradições locais. O interior da capela constitui-se como um espaço, com uma única fonte de luz filtrada sobre o altar, sem qualquer relação com o exterior. Trata-se de uma introspecção máxima, talvez só inteiramente compreendida depois de se entrar na casa, muitos metros à frente, espaço de extroversão familiar. De facto todo o projecto se desenvolve em torno da relação introspecção/extroversão, ou, se quisermos, em tensões entre espaço comunitário (onde se incluem as salas, cozinha e pátio) e células habitacionais (onde se incluem a capela ainda que separada da casa, a biblioteca e os quartos). Na casa e na capela é usada a mesma economia de meios - poucos materiais (reboco branco, granito e madeira nos pavimentos) e grande contenção no detalhe. O mobiliário fixo contraria a elementaridade das superfícies brancas e do granito. São peças em madeira de tola que adquirem uma presença irrecusável no espaço de cozinha porque na sua abstracção formal (a função não é imediatamente revelada) não deixam de estar relacionadas com a chaminé, em granito, decalcada do imaginário rural. As entradas, da casa e da capela, profundamente assumidas, são marcadas por portas de aço, de acentuada verticalidade. O acesso à casa mostra-nos muita luz e as respectivas gradações do branco por esta proporcionadas. Encontramos uma parede branca que não toca o tecto, e depois dela o verdadeiro universo doméstico. Disponibiliza-se assim o "espaço contentor" com duplo pé-direito, transversalmente rasgado por vãos, que vai revelar o grande espaço "comunitário" da casa. Desse momento em diante o projecto clarifica-se: a casa funciona em L, e o encontro entre os dois braços é a chaminé da lareira suspensa - o lugar do fogo. A lareira suspensa introduz uma tensão espacial no espaço comunitário: está visualmente delimitada por um pátio e por um longo vão que permite dominar a paisagem. As relações visuais são múltiplas neste sistema onde a chaminé adquire grande centralidade; entre a cozinha e a sala, entre o pátio com árvore e a paisagem, entre a biblioteca e todo o piso térreo. Como filtros entre estas relações existem colunas em granito, que suportam a estrutura de betão, vidro e caixilhos de alumínio, onde apenas os prumos verticais são assumidos. Outra estrutura de relacionamento dentro da casa é a passagem elevada sobre a sala, unindo-a à biblioteca. Um percurso umbilical, em corredor, que contraria a verticalidade dominante deste espaço contentor, cuja apropriação funcional não foi definida. Pode ser a extensão da biblioteca ou um percurso alternativo ao conjunto de escadas que dão acesso aos quartos. Olhado do exterior o conjunto - casa e capela - afirma-se como um assentamento numa faixa plana. Olhada do exterior a casa é um volume branco vazado ao nível do piso térreo, onde se avista o pátio para lá desta e uma gradação vertical da luz no interior. É fácil adivinhar também a reverberação do som, dos vários instrumentos musicais do arquitecto, do piano às guitarras clássicas, que povoam o espaço. Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 13 de Julho 2002. O texto foi editado em 2007 para uma publicação monográfica que está em preparação. |
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