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2010
Voids: Encontros Múltiplos Pragmatismo Cálido Está aí alguém? Nem Falsa Tradição Nem Modernismo Factício 2009
A Vida é um Sopro Arquitectos Críticos David Adjaye conversa com Ricardo Carvalho Arquitectura: Portugal Fora de Portugal Acupunctura Urbana e Reabilitação 2008
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Los Angeles, as Regras da Atracção Ilegal Fundação Iberê Camargo Niemeyer, um encontro no Rio Viagem como Conhecimento Da Cidade que Falece Dizer a paisagem que somos nós 2006
Imitación y Experiencia A Fundação Gulbenkian como Processo O Pavilhão está Vazio De Todas as Casas, a Casa Da Biblioteca para a Cidade Comércio e Lazer: uma digressão errática Habitar Portugal, mas Esporadicamente As Casas como Marcos Geodésicos Geografias da Permanência Ode Marítima em Aço e Vidro Entre o Centro Comercial e o Museu 2005
Paisagem e Arquitectura A Arquitectura como uma Litania Uma Floresta de Famílias, Nomes e Lugares Actuar na Periferia: de dentro para fora Montanha Mágica com Graffiti Uma Visita ao Panorama Aires Mateus: A Arquitectura como o Eterno Retorno 2004
Vítor Figueiredo: o Eclipse Lisboa, Roterdão e Algumas Torres Precisão Suíça: do Pitoresco e do Sublime Palais de Tokyo, o Museu Situacionista Carrilho da Graça: A Obra ao Branco Habitar a Cidade Histórica 2003
Portugal in Vitro, Embaixadas em Brasília e Berlim Chicago, Cidade Boomerang Duas Manhãs nos Olivais A Casa Elementar/ The Simple House A Casa que se Bifurca A Arte da Oscilação Habitar. Percurso em Via Rápida 9 Silos Experimentais para Lisboa 2002
Carrilho da Graça conversa com Ricardo Carvalho Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição Le Città di Sabari Casa com Capela Construir o Incorpóreo Local, Ibérico, Global Nove para o Ground Zero, Zero para Nova Iorque Hong Kong Juke Box 2001
Palácio da Pena: Antes e Depois em Simultâneo O Regresso ao Largo Aveiro Cidade Aberta Portuguese Fan Tutti 2000
O Edifício Extrovertido Otto Wagner Arquitecto Adolf Loos e a Caixa das Ferramentas mostrar últimos textos |
Aveiro Cidade Aberta
As experiências arquitectónicas com maior dimensão de radicalidade, pelo menos no que diz respeito à contemporaneidade, assentam em programas funcionais onde se encontra um denominador comum, e dentro deste variações de escala. A "casa", programa doméstico, e os edifícios de equipamento compõem um quadro de possibilidades, que, nos melhores casos, ultrapassam uma mera adequação a um uso e aspiram à "arte do espaço", definição de arquitectura defendida pelo filósofo Alois Riehl. Mas, ao contrário dos programas domésticos (as "casas"), os edifícios de equipamento possuem uma visibilidade que lhes possibilita, muitas vezes, e pelos mais variados motivos, tornarem-se ícones, ou mesmo imagens estereotipadas associadas a um período, político e cultural. Para além da questão da representatividade destas arquitecturas, coloca-se ainda uma outra, porventura a mais importante, a de serem elementos urbanos geradores de acontecimentos. E é aqui que emerge a importância do conceito de "Cidade Universitária" ou de "Campus Universitário" nas relações com as comunidades onde se inserem. Quando o arquitecto Nuno Portas, coordenador de uma equipa da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, foi chamado para a revisão do plano da Universidade de Aveiro, em 1986, consolidou-se uma leitura crítica do passado recente no que diz respeito aos modelos nacionais destes programas (da Cidade Universitária de Lisboa até ao Polo da Mitra em Évora) e internacionais (do trabalho Alison e Peter Smithson até às propostas do Team X). A dimensão monumentalizante das "cidades universitárias" dos regimes autoritários cedia assim lugar a outra aproximação ao mesmo problema. Discutia-se, aliás, desde a década de 70, uma alternativa ao modelo anglo-saxónico, tardo-modernista, do "campus", que, se por um lado recusava essa monumentalidade, por outro insistia igualmente na autonomia absoluta destas estruturas em relação aos aglomerados. Assim, a revisão, por Nuno Portas, do plano original da Universidade de Aveiro (da autoria de Rebello de Andrade & Espírito Santo), consistia em estabeleçer uma relação evidente entre o ensino superior e a cidade, no que diz respeito ao fluir das estruturas físicas, insistindo na continuidade, e no que diz respeito às relações sociais entre escolas e comunidade. Hoje, o que se sente é a presença de um sistema urbano, cuja metodologia consegue contrariar a fragmentação inconsequente e dispersão paisagística entregue às leis da especulação imobiliária, apesar da existência de planos directores - mas que são contrariados ao sabor dos interesses municipais e privados. É o espaço público, na Universidade de Aveiro, dito o Campus Santiago, nome de uma aldeia próxima, o elemento unificador de uma estrutura assente na divisão dos edifícios por departamentos. Tira partido da praça central, prevista anteriormente, e adiciona-lhe uma "estrutura claustral", reforçada por uma galeria em betão em forma de U. Com estes elementos estabelecem-se critérios de acessibilidade, privilegiando o domínio pedonal no "espaço de encontro". A opção centrífuga do conjunto coloca a circulação rodoviária no exterior, reforçando a centralidade do espaço público, circunscrevendo-o. Contudo, o desenho dos espaços exteriores parece não acompanhar esta visão de síntese e de essencialidade, recorrendo a elementos ornamentais de gosto duvidoso, misturando materiais sem critério aparente, conceptual ou funcional. Mas a eficácia deste "campus" não se esgota nesta aproximação humanista à cidade, já que os vários departamentos contribuem para a unidade disciplinar do conjunto, pese embora a qualidade arquitectónica irregular dos edifícios. Os mais significativos estão dispostos perpendicularmente à galeria, com excepção da biblioteca, e reflectem as orientações do plano em relação ao dimensionamento, tipologias e materiais utilizados. De facto, o tijolo cerâmico vermelho assume-se como o principal material de revestimento, referência clara à tradição local (devido à disponibilidade do barro vermelho e à presença do porto, a Vista Alegre instalou-se em Ílhavo no início do século XIX consolidando uma indústria local). O "espaço de encontro", orientado sensivelmente a norte-sul, é marcado por dois momentos de excepção, ambos da autoria de Álvaro Siza. O depósito de água, a sul, elemento em betão armado que remata o fecho da galeria, e a biblioteca, a norte, responsável pelo enquadramento da praça central e por uma nova relação visual com a paisagem lagunar da ria. Entre estes desenvolvem-se vários departamentos desenhados por arquitectos ligados à Faculdade de Arquitectura do Porto, onde se destacam o Departamento de Engenharia Mecânica, de Adalberto Dias, e o Departamento de Geociências, de Eduardo Souto de Moura. Optaram por volumes contidos de configuração paralelepipédica, embora os edifícios se diferenciem quanto às tipologias e materiais utilizados: Adalberto Dias utilizou um esquema espacial em "pente", a partir de um corredor longitudinal encostado a um dos lados do volume; Souto de Moura preferiu um corredor central, também longitudinal, para a distribuição às salas de aula. Ambos sublinham a importância dos acessos, a partir da galeria, e um rigor espacial introspectivo, consequência aparente do "espaço claustral" concebido por Nuno Portas. Mas enquanto o Departamento de Geociências contraria a sugestão do revestimento de tijolo, para se caracterizar por um certo fleuma construtivo de elementos em betão armado e discretas vigas metálicas onde "poisam" lajetas de mármore rosa, o Departamento de Engenharia Mecânica tira partido desse material. Colocado em bandas horizontais salientes e reentrantes, reforça a horizontalidade do volume, que alterna uma fachada praticamente cega com uma outra onde domina um pano de ferro e vidro. Nestes dois projectos evidencia-se a atenção ao detalhe construtivo, por vezes experimental, remetendo-nos para uma das características mais evidentes da "Escola do Porto", terminologia vaga que procura circunscrever o trabalho de alguns arquitectos formados nesta cidade. A verdade é que a Universidade de Aveiro foi catapultada para as revistas internacionais de arquitectura - veja-se o número monográfico da "Casabella" de Março de 1997 - devido às contribuições da "Escola do Porto" e à disponibilidade dos promotores da instituição. Mas, com a expansão do "campus" para a Agra do Crasto, com um plano concebido por Carrilho da Graça, lançaram-se concursos limitados para o desenvolvimento dos edifícios, aqui sem preferência de "escola". Por isso já se pode visitar em Agra do Crasto duas obras de jovens arquitectos portugueses: a "Casa do Estudante" de João Almeida e Victor Carvalho, do Porto, e a Cantina de Manuel e Francisco Mateus, de Lisboa. Por concluir está uma peça fundamental na união entre Santiago e Agra do Crasto, separados por um braço de ria: é uma ponte, pedonal, em estrutura metálica, apontada ao depósito de água, desenhada por Carrilho da Graça, que vai unir os dois sistemas urbanos. Michel Toussaint, no livro "Universidade de Aveiro. Arquitectura e Urbanismo" (White & Blue, Lisboa 2000), afirma "Carrilho da Graça desenvolveu o seu plano tendo como referência os ‘siedlung' alemães dos anos 20, campo de experimentação do racionalismo radical". Fica clara a vocação desta instituição para continuar a acolher visões arquitectónicas capazes de incorporarem uma dimensão de radicalidade, necessária a todas as culturas arquitectónicas. Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 28 de Abril 2001. |
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