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O Regresso ao Largo


Se aceitarmos a acepção do filósofo Walter Benjamin para cidade, um "desejo cego por vir", poderemos então encarar a crise instalada do seu espaço público como consequência de uma encruzilhada cultural. E esta traduz-se pela trasladação dos acontecimentos urbanos de heterogeneidade, imprevisibilidade, e talvez até mesmo de liberdade, para o interior de espaços domesticados, simulacros de experiências que outrora incorporavam a identidade do espaço público. Veja-se o sucesso da tipologia "centro comercial" (partindo do pressuposto da legitimidade de tal classificação) contra a lenta consolidação ambiental do Chiado, que foi despoletada exactamente por uma estrutura assimilada do primeiro. A verdade é que o espaço público, urbano, sempre viveu da tensão entre permanência e transitoriedade. A primeira atribuída ao monumento, à sua carga simbólica e mnemónica e a segunda à evolução dos ambientes, sempre em mutação, e nunca produto de um projecto.

Mas tudo isto não justifica a incúria a que estiveram entregues alguns dos lugares mais carregados de memória da capital. Mesmo aceitando a tese de que o espaço público é levado, progressivamente, ao privado pelos meios de comunicação massificados, a televisão ou a internet, e que o espaço público para ser vivido tem que reproduzir os equipamentos domésticos, ao nível do mobiliário ou da "animação".

A Praça do Comércio liberta de automóveis, novamente oferecida à cidade e ao rio, é uma realidade recente. Se, por um lado, o projecto (provisório) dignificou esta obra de arquitectura setecentista, por outro, voltou a colocar a questão do destino a dar aquele espaço, como se a ausência do "lúdico" constituisse por si uma ameaça. Mas esta pode ser uma falsa questão, e a resposta reside na possibilidade de permitir, tão-só, uma vivência do espaço tão diversa quanto aqueles que o habitam, activa ou contemplativamente.

Ao abrigo das intervenções na Baixa Pombalina, terminaram recentemente as obras de remodelação da Praça D. Pedro IV, da Praça da Figueira e do Largo do S. Carlos, lugares outrora responsáveis por alguns dos ambientes mais carismáticos da memória colectiva da cidade, mas que agora enfrentam esse peso, e se disponibilizam para um novo ciclo como espaços públicos. Durante o século XX estes espaços conheceram metamorfoses dramáticas, do glam dos anos vinte, das lojas de chapéus, e do dandismo possível dos cafés modernistas até à dureza decadente dos anos oitenta, abruptamente interrompidos pelo incêndio do Chiado. No caso do Rossio propôs-se até um projecto, nos anos 30, fruto de um concurso de ideias, que pretendia demolir o conjunto de edifícios que separam o Rossio da Praça da Figueira. A estátua seria colocada no enfiamento visual da Rua Augusta, reforçando a sua axialidade, criando uma bipolaridade. Ensaiaram-se ainda novos edifícios, resultado de uma de três opções estilísticas, dentro uma abordagem eclética. Carlos Ramos, o arquitecto, queria para o centro de lisboa uma grande praça interior, monumental, enquadrada no híbrido da tradição beaux-arts-modernista. Hoje, o projecto executado mostra-se bastante mais comedido, e assume-se como uma consolidação do projecto original, acabado em 1870, fruto de um concurso internacional, ganho pelos franceses Davioud e Robert.

Da obra agora inaugurada, da autoria do arquitecto paisagista Rui Valada, destaca-se principalmente a generosidade com que os passeios foram tratados, gesto suficiente para a percepção da escala do conjunto pombalino e oitocentista, na sua fluidez perimetral. O pavimento da praça, alteado dois degraus em relação à rua, com desenho ondulado a preto e branco, leia-se vidraço e basalto, e as fontes restauradas remetem-nos para imagens do passado, introduzidas no século XIX. O novo mobiliário urbano assenta em esquemas funcionais e estéticos já experimentados: grelhas de pavimento em aço inox, bancos em pedra lioz (na praça) e em contraplacado de madeira (no perímetro) e os inevitáveis quiosques em contraplacado de madeira e inox, constituem um conjunto de equipamento cuja eficácia neste lugar o tempo comprovará. Ou seja, será mais interessante, por exemplo, ter flores à venda (não era este o comércio mais forte da praça?) disponíveis aos olhares e olfactos, ou, encerradas assepticamente, em quiosques? De qualquer forma, a tarefa mais importante foi realizada. Trata-se da devolução deste espaço público, reordenado, segundo uma orientação estética discutível (decorrente da problemática do gosto na cultura arquitectónica contemporânea), mas que seguramente tem o mérito de criar as condições à imprevisibilidade e heterogeneidade do ambiente urbano.

É na transição do Rossio para a Praça da Figueira, que se revela a aparente falta de coordenação entre projectos. Sem razão objectiva, os candeeiros, por exemplo, possuem um desenho completamente diferente. Estes e os pináculos que evitam o estacionamento espontâneo, serão porventura a face menos conseguida do projecto do designer Daciano Costa. A escala destes pequenos objectos, e a sua utilização abusiva, constituem-se como ruído, contrário ao propósito de rigor do projecto, bem perceptível na opção relativa aos materiais utilizados. Não existirá nenhuma outra forma de impedir o estacionamento, produto de uma intenção, cuja presença física (e numérica) não condicione a generosidade da escala da praça e a clareza do seu desenho?

Contudo, na Figueira podemos descortinar um olhar crítico, que não é evidente no Rossio. Trata-se de um conceito traduzível em novidade, em torno da implantação da estátua, e recorrente desenho da praça . A estátua, que foi deslocada de modo a colocar-se no enfiamento visual da Rua da Prata, é agora um elemento assimétrico em relação ao conjunto, convocando uma nova experiência deste espaço. Alteada um degrau, convoca um esquema de circulação rodoviária condicionado, que contribuirá para a sua utilização, "disciplinando" o automóvel. Pese embora esta abordagem crítica ao problema, os elementos arquitectónicos necessários ao funcionamento do estacionamento subterrâneo, tais como o elevador em vidro (já um estereotipo das cidades portuguesas) e acessos, entram em confronto com o novo equilíbrio estabelecido no projecto.

Já no Largo de S. Carlos, a Divisão de Qualificação de Espaço Público da Câmara, revela uma enorme falta de humildade na obra agora concluída. É perfeitamente incompreensível o projecto partir de abstrações de desenho que se revelam patéticas e desnecessárias aquando da sua materialização. O desenho de pavimento, excessivo quando visto da Rua Duques de Bragança (que está alguns metros acima), gera-se desde um eixo, uma direcção, que parte da entrada do teatro; contudo o edifício implantado de fronte, possui uma porta desfasada deste alinhamento, inviabilizando a lógica do seu desenho. Lógica que pareçe também faltar ao espelho de água alimentado por um canal, tristemente pitoresco, que nos conduz a uma pequena porta, cujo valor arquitectónico não justifica esta chamada, revelando um descontrole na manipulação das escalas. E até mesmo o tratamento rampeado do largo, potencialmente interessante, é posto em causa pela ausência de remates entre pedra do seu pavimento e a calçada dos "passeios" que o envolve. O desenho falta onde deve existir, e é sofrível onde não é necessário. Mas não nos enganemos. Era urgente livrar este espaço dos automóveis, oferecendo-lhe vida, e dignificando o agora relançado teatro S. Carlos. Torna-se assim possível acreditar numa permeabilidade de acontecimentos e fluxos, numa sequência de espaços públicos de escalas e ambientes diferenciados, onde se inclui o projecto de Álvaro Siza, com os seus percursos e pátios, o de Gonçalo Byrne (o quarteirão da Seguradora Império), ainda em acabamento, mas que se estabelece na continuidade morfológica do plano de Siza, e a "cidade baixa", com o Rossio, a Figueira e a Praça do Comércio.

Mas a qualificação do espaço público do centro da cidade não pode, e não deve, cingir-se apenas aos vazios. Ou seja, os edifícios, a matéria ou o "cheio" da cidade, terão de acompanhar esta regeneração, porque são eles o suporte do ambiente urbano. Caso contrário, este será um espaço público tornado mera curiosidade turística, numa perspectiva da história apenas como representação. Sem vida. "A modernidade", escreveu Manuel Delgado no primeiro número da revista "In SI(s)TU", "implicou uma crise na ideia de comunidade, é certo, mas não na de colectividade, nem de sociedade". Assim, o "sistema quente", o dos cidadãos, apontado pelo arquitecto Manuel Taínha, atribui vida ao "sistema frio", aquele das estruturas físicas. E este calor do "sistema quente" parece invadir lentamente, mas também finalmente, o mais antigo centro de Lisboa.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 17 de Novembro 2001.