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A Fundação Gulbenkian como Processo


Inaugurou na passada quinta feira a exposição "Sede e Museu Gulbenkian", comissariada pela arquitecta Ana Tostões, por ocasião do cinquentenário da Fundação. Pela primeira vez, no que diz respeito à arquitectura, esta instituição integra o seus próprios edifícios como objecto de retrospectiva no contexto da cultura portuguesa do século XX, facto que coincide com a classificação do conjunto como Monumento Nacional pelo IPPAR.                                                                   

Ao contrário do que acontece habitualmente em exposições de arquitectura, onde o objecto representado não permite ao visitante um confronto directo com a experiência dos espaços, neste caso o objecto da exposição e o espaço que o alberga coincidem, permitindo a um público mais vasto o entendimento cabal dos conteúdos. O espaço que acolhe a mostra é a sala das exposições temporárias, que se apresenta ao público com total permeabilidade em relação ao exterior, permitida pela abertura dos planos de vidro, trazendo os jardins para o interior, e fazendo lembrar ao visitante que os dois sistemas - edifícios e jardins - afinal são um só, facto que ainda hoje contribui para a singularidade do conjunto que foi inaugurado em 1969. O projecto expositivo, de grande eficácia, da autoria da arquitecta Teresa Nunes da Ponte, consiste na distribuição por mesas dos conteúdos. Estes consistem em documentos de arquivo relativos ao processo que conduziu à escolha do sítio, selecção dos arquitectos e construção, e também numa série de imagens em vídeo com material de época.   

Na mesas relativas ao "Processo e Programa" e "Sítio. Parque de Santa Gertrudes" podemos ver os documentos e desenhos originais relativos às várias possibilidades de construção dentro da Lisboa dos anos 50. Tratava-se de eleger estrategicamente uma grande área disponível (e na altura existiam várias incluindo o actual quarteirão da Feira Popular em Entre-Campos), na zona de expansão norte da cidade, que recaiu no parque que tinha já acolhido um programa lúdico como a Feira Popular, vendido à fundação em 1957. É contudo na mesa relativa ao "Concurso e o Programa Escolhido" que se clarifica a dimensão de singularidade e excelência dos objectivos da fundação relativa à sua sede e museu que deveria acolher a vasta colecção de objectos de arte reunida por Calouste Gulbenkian. Do concurso por convites lançado a três equipas de arquitectos (que não trabalhavam juntos mas que foram convocados pela fundação para apresentarem as suas propostas assim agrupados) resultaram três estratégias possíveis relativamente à formalização do programa. Hoje é fácil verificar que a escolha recaiu sobre a proposta mais interessante e qualificada no que diz respeito à manipulação do programa, à relação dos edifícios com o parque e com a cidade envolvente, e também na relação entre processo construtivo e expressão arquitectónica. Alberto Pessoa, Pedro Cid e Ruy Athouguia, nomes incontornáveis do pós-guerra no contexto da arquitectura lisboeta, conceberam um conjunto predominantemente horizontal, atribuindo grande significado e autonomia volumétrica às partes estruturantes dos programa: a sede, museu, sala das exposições temporárias e o auditório.  

O projecto de concurso lançava já os temas de relação entre as partes do conjunto, que hoje integram o imaginário da cidade e dos lisboetas. O volume da sede que se constrói como um volume horizontal paralelo à avenida de Berna e que recebe os visitantes; o Museu como um volume deslocado para nascente deixando ver a sala das exposições temporárias, que se constrói como um volume de vidro e, finalmente, a imponente massa do auditório, oculta à rua e que se descobre apenas passeando pelos jardins e que se abre ao lago. O que menos pessoas conhecem, e que agora é revelado na exposição, é a topografia artificial que permitiu construir subterraneamente um conjunto de espaços (de arquivo, técnicos, oficinas, circulação, etc) que tornaram possível construir de forma visível apenas uma parte do programa, e assim deixar mais área disponível aos jardins. Por entre os conteúdos disciplinares foi montada uma excelente instalação vídeo intitulada "Piso Térreo", da artista Filipa César, sobre este "mundo oculto" ou "espaço servidor".  

Os outros dois projectos de concurso apostavam em soluções distintas, uma coroada por numa torre (proposta de Arménio Losa, Pádua Ramos e Formosinho Sanchez) e outra baseada na dispersão de volumes pelo terreno disponível (proposta de Arnaldo Araújo, Frederico George e Manuel Laginha). Qualquer um deles considerava os espaços exteriores como um sistema diacrónico da arquitectura, além do facto do domínio do programa não ser tão evidente. Também ao nível da expressão estas duas propostas revelavam maior fragilidade ou menos investimento quando comparadas com o desenho rigoroso e elementar da proposta vencedora. 

Nas mesas seguintes é revelado em detalhe (com recurso a desenhos de construção ou de pormenorização de elementos como portas ou caixilhos) o processo relativo a cada uma das partes do conjunto, separado segundo as partes constitutivas do programa: " Sede", "Auditório" e "Museu" e próximo do final as "Telas Finais" onde se explicita a relação do projecto de arquitectura com o projecto de paisagismo, da autoria de Gonçalo Ribeiro Telles e Viana Barreto. 

A leitura dos documentos reforça a constatação de que estamos perante a criação de uma "paisagem cultural", como afirma o arquitecto Wilfried Wang num dos textos do catálogo, sincrónica com outras que ocorreram na Europa do pós-guerra, fruto de grandes acções de política cultural. A fundação Calouste Gulbenkian foi inaugurada um ano antes do concurso para o Centro Georges Pompidou em Paris (com projecto de Richard Rogers e Renzo Piano) e o seu processo de construção coincide com o do Kulturforum em Berlim (coordenado por Hans Scharoun). Se neste último a arquitectura opera com recurso um conjunto de fragmentos (Biblioteca, Filarmónica e a Nova Galeria Nacional) dispersos, como que dizendo que as aspirações unitárias e holísticas do modernismo se tornaram ineficazes, no projecto do Centro Pompidou os arquitectos exponenciaram o imaginário mecanicista fazendo desaparecer a separação entre a estrutura e a infra-estrutura, ou seja, fazendo desaparecer a parede convencional e a separação clara entre espaços e circulações.

Estes temas - fragmento, estrutura/ infra-estrutura e flexibilidade - que abriram caminho à condição pós-moderna não foram equacionados no projecto de Pessoa, Cid e Athouguia. O universo de trabalho dos arquitectos foi o de absoluto domínio da herança moderna. O resultado foi uma arquitectura capaz de enfrentar o tempo reafirmando, com aspirações à monumentalidade, as capacidades do Movimento Moderno, em fazer cidade ou "paisagem cultural". Ana Tostões afirma, no seu texto de catálogo, que a obra antecipa o final do regime e uma nova condição de liberdade. Podemos reafirmar que se trata de uma obra maior, que não operando rupturas culturais ou disciplinares, traduziu valores de intemporalidade libertos de constrangimentos estilísticos, algo pouco comum no panorama português da época.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 25 de Março 2006.