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A Vida é um Sopro Arquitectos Críticos David Adjaye conversa com Ricardo Carvalho Arquitectura: Portugal Fora de Portugal Acupunctura Urbana e Reabilitação 2008
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Los Angeles, as Regras da Atracção Ilegal Fundação Iberê Camargo Niemeyer, um encontro no Rio Viagem como Conhecimento Da Cidade que Falece Dizer a paisagem que somos nós 2006
Imitación y Experiencia A Fundação Gulbenkian como Processo O Pavilhão está Vazio De Todas as Casas, a Casa Da Biblioteca para a Cidade Comércio e Lazer: uma digressão errática Habitar Portugal, mas Esporadicamente As Casas como Marcos Geodésicos Geografias da Permanência Ode Marítima em Aço e Vidro Entre o Centro Comercial e o Museu 2005
Paisagem e Arquitectura A Arquitectura como uma Litania Uma Floresta de Famílias, Nomes e Lugares Actuar na Periferia: de dentro para fora Montanha Mágica com Graffiti Uma Visita ao Panorama Aires Mateus: A Arquitectura como o Eterno Retorno 2004
Vítor Figueiredo: o Eclipse Lisboa, Roterdão e Algumas Torres Precisão Suíça: do Pitoresco e do Sublime Palais de Tokyo, o Museu Situacionista Carrilho da Graça: A Obra ao Branco Habitar a Cidade Histórica 2003
Portugal in Vitro, Embaixadas em Brasília e Berlim Chicago, Cidade Boomerang Duas Manhãs nos Olivais A Casa Elementar/ The Simple House A Casa que se Bifurca A Arte da Oscilação Habitar. Percurso em Via Rápida 9 Silos Experimentais para Lisboa 2002
Carrilho da Graça conversa com Ricardo Carvalho Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição Le Città di Sabari Casa com Capela Construir o Incorpóreo Local, Ibérico, Global Nove para o Ground Zero, Zero para Nova Iorque Hong Kong Juke Box 2001
Palácio da Pena: Antes e Depois em Simultâneo O Regresso ao Largo Aveiro Cidade Aberta Portuguese Fan Tutti 2000
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Uma Floresta de Famílias, Nomes e Lugares
A primeira imagem podia ser a de um enorme cemitério hebraico. Mas a informalidade das pessoas no modo como sobem para o topo dos paralelepípedos de betão, se fotografam, gritam e riem afasta essa possibilidade de sacralidade ou simbolismo. Enquadrado por edifícios e pelo parque Tiergarten não há distinção entre o espaço público e as 2 711 peças as que constituem o Momumento aos Judeus Assassinados na Europa. Construído no coração de Berlim ao lado das Portas de Brandenburgo é a segunda obra do arquitecto americano Peter Eisenman nesta cidade. O momumento, inaugurado em Maio, foi o resultado de um processo conturbado o que em muito contribuiu para a expectativa em torno da sua finalização. Em 1988 um grupo de personalidades ligadas à cultura apelaram à construção de um memorial "incapaz de passar despercebido", que resultou num concurso lançado em 1994. Sem resultados ou premiados o processo hiberna dois anos e o concurso para artistas e arquitectos repete-se. Em 1999 o Parlamento Federal acede à construção do projecto do arquitecto Peter Eisenman e do escultor Richard Serra, mas este último abandona o projecto. Em Maio de 2005 o monumento é inaugurado e rapidamente assimilado pelos berlinenses e turistas pelo seu lado mais lúdico. O projecta assenta na criação de uma grelha densa onde são colocados paralelepípedos de betão que configuram passagens estreitas e lineares. Essa grelha está sobreposta a uma topografia artificial - ondulante - que provoca a diminuição da altura das peças junto às ruas e aumenta à medida que se desce no interior da instalação. Existe ainda um pequeno museu subterrâneo que funciona como apoio pedagógico do conjunto e está divido em cinco salas. O percurso do museu (ao qual se acede por uma rampa) tem início numa panorâmica sobre as políticas do nacional-socialismo em direcção ao holocausto. Nas salas seguintes podem ser ouvidos testemunhos das vítimas, lidas histórias das famílias que nunca mais o foram, e de documentos daqueles que foram deportados para os campos de concentração. O maior impacto vem do mapa na sala dos lugares onde sobre o mapa da Europa se representam os campos de concentração e/ ou extermínio construídos pelos nazis, e a densidade dessas manchas (como se tratasse de um mapa com informação das cidades de média dimensão) não pode deixar de alimentar a necessidade de evitar o esquecimento. Se a um primeiro olhar o Momumento aos Judeus Assassinados parece inscrever-se na falhada política de autores que a cidade de Berlim tem adoptado para os edifícios em torno das Portas de Brandenburgo (desejo de monumentalidade, artisticidade e iconografia e um equívoco entre escala e dimensão, mas sobretudo um equilíbrio frágil na persistência de uma ideia de tradição clássica adaptada à contemporaneidade), a um olhar mais atento o projecto de Eisenman (e Richard Serra) contraria essa estratégia (ou desejo) para questionar a própria essência do acto de construir um monumento ou um memorial. Não existe qualquer referência simbólica ou figurativa ao tema do holocausto, a intensidade do projecto provem da "realidade" das peças de betão e da estranheza e tensão perceptiva que causam. A única metáfora legível consiste numa árvore plantada entre as peças de betão - a possibilidade de um "renascimento". Na obra estão presentes os temas de eleição de cada um dos autores. De Peter Eseinman seguramente provem o carácter lúdico do conjunto (como se de um jogo se tratasse), procurando dessacralizar os conteúdos através de uma abordagem formalista (especialmente a topografia ondulante) mas sem nunca perder de vista o referente de memória subjacente ao programa. A decisão mais questionável é a aquela de colocar as rampas das saídas de emergência do museu nas passagens entre as peças, retirando-lhes o seu carácter escultórico (alheado da dimensão da utilidade e do uso) e favorecendo a ideia de rua, que é, aparentemente, contrária à génese do projecto. O museu poderia ter sido construído de forma a não colidir funcionalmente com a grelha de blocos de betão. De Richard Serra identificamos o fascínio pela gravidade (pelo peso e estabilidade da massa que no caso deste monumento significa uma média de oito toneladas por peça) e pela ideia da matéria em bruto. O que está construído em Berlim possui ambas as matrizes, mas com o abandono de Serra naturalmente prevaleceu a estratégia do arquitecto. A plataforma de encontro (ou talvez de desencontro já que o escultor abandonou o processo) entre ambos pode ser detectada uma reflexão de Richard Serra sobre a ideia de monumento: "Não estou interessado na idealização dos monumentos perenes da história da arte, esvaziados da sua função histórica e de significado, concretizados por arquitectos e artistas que necessitam de legitimizar a sua produção estética glorificando as obras do passado. A sua "solução historicamente apropriada" não é mais do que eclectismo kitsch (...) O regresso às imagens históricas, icones e símbolos está baseada numa ilusão, numa saudade nostálgica dos bons velhos tempos quando tudo era melhor e carregado de significado." [in Perspecta 19 (1982)]. Apesar dos evidentes compromissos conceptuais e funcionais detectáveis no Monumento aos Judeus Assassinados o que fica é a gravidade (em duplo sentido) de uma floresta de nomes, famílias e lugares, no quotidiano de uma cidade que ainda tem dificuldade em lidar com a sua memória. Texto escrito por Ricardo Carvalho (em Berlim) para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 17 de Setembro 2005. |
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