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Palácio da Pena: Antes e Depois em Simultâneo


Depois da Segunda Guerra Mundial, e com o Movimento Moderno já moribundo, pelo menos na Europa, actualizam-se as inquietações relacionadas com a intervenção no património arquitectónico. A polémica oitocentista levantada por John Ruskin e Viollet-le-Duc, da conservação versus restauro, é estilhaçada pelo trabalho de síntese, crítico e experimental, de Carlo Scarpa. Este Italiano trabalhou, durante seis anos, de 1957 a 1963, no "restauro" do castelo medieval de Verona, dito o Castelvechio. Com esta obra assume o tempo como algo que contamina os espaços e os materiais, logo as pessoas, e interfere no "monumento" com uma expressão contemporânea, com o pretexto de o transformar em museu. Nos espaços do Castelvechio nenhum tempo é mais digno que outro, ao contrário daquilo em que acreditavam as ditaduras, que selecionavam a história que melhor lhes servia. E porque património são as pessoas, Scarpa estabeleçe um itinerário museológico onde estátuas e respectivos plintos assaltam o percurso, obrigando-nos a um olhar não passivo perante o registo da história. Até mesmo a estátua emblemática da cidade - o cavaleiro ca grande - foi colocada no exterior sobre um elemento em betão armado. Pensava-se ter sido o golpe de misericórdia no pitoresco.

Mas o que pode ligar o Castelvechio ao Palácio da Pena em Sintra? A intervenção de Fernando Salvador e Margarida Grácio Nunes, arquitectos de uma geração formada depois da elaboração da Carta de Veneza (1966), e herdeiros indirectos de alguns conceitos acerca do património trabalhados por Carlo Scarpa. A memória e a novidade orquestradas como um todo. O projecto da recuperação e adaptação dos espaços do edifício romântico mandado construir por D. Fernando, arrancou em 1989 a convite do IPPAR. Este consiste, basicamente, na transformação do edifício das cocheiras em refeitório e instalação de pessoal, no piso inferior; em bilheteira, loja e bengaleiro, no piso térreo e em restaurante no primeiro piso. E ainda na instalação de uma cafetaria no espaço da antiga ucharia, levando ao terraço uma esplanada. Numa segunda fase estes espaços foram equipados com mobiliário, dos mesmos autores, e numa terceira fase (não executada) seria realizada a sinaléctica de um percurso interno. O que se pedia afinal era um novo modo de habitar parte do monumento.

A intervenção vive da dialéctica entre dois universos. Escala e matéria. Os elementos introduzidos no espaço, que integram as novas infra-estruturas, recusam a escala ligeiramente distorcida do Palácio, com as abóbodas a arrancarem a menos de1.80m, para convocarem uma nova ordem de relações associadas a usos e percursos. O peso da matéria desta intervenção, que contudo não recusa a sua eventual efemeridade, assenta em materiais nobres e à vista. A kâmbala do cubo da loja, o elemento mais sedutor no seu sistema de abertura e fecho, irá naturalmente escurecendo com o tempo enquanto o Pau-Santo do mobiliário permanecerá com uma leitura semelhante. O cobre das prateleiras do restaurante é uma referência à cúpula, e as cores dos rebocos, assumem-se como prolongamentos das cores originais do palácio, especialmente o vermelho e o azul. O recurso sistemático a estes materiais permite reconhecer a intervenção como um gesto que persegue a unidade, ainda que o projecto se disperse pelo edifício consoante as suas funções.

Ao introduzirem uma nova leitura espacial e matérica no edifício, a partir dos novos usos, os arquitectos abstêm-se de rupturas. Pelo contrário, este trabalho pode ser visto como uma intervenção concentrada no essencial, apesar da sua força plástica. Veja-se a apropriação quase irónica dos elementos verticais de escadas, rótulas entre corpos do projecto original, onde se faz apenas a transposição de um desenho de Pedro Proença, artista convidado para a equipa, para um corrimão. Ou ainda a modelação espacial do restaurante através de caixas de luz - biombos -com desenhos do mesmo artista, permitindo várias experiências de espaço devido à mobilidade de algumas peças. E o tratamento da luz artificial, quase sempre derivada das novas intervenções, como que para as soltar da estrutura original. É de facto a estrutura original, pela sua qualidade, que se assume como ponto de partida e, principalmente o ponto de chegada. Qualquer coisa como um receptor de acontecimentos, capaz de continuar a acolher pessoas. Com a sua atmosfera iniciática, perfeitamente instalado na paisagem, o Palácio da Pena foi algo diacrónico, característica hoje tantas vezes temida, que encontrou a sua sincronia. E até se tornou monumento.

Até há pouco tempo foi possível visitar o Palácio com as obras de Rui Chafes. Estas apropriavam-se dos jardins e do edifício como um todo, mostrando-nos que nem só a arquitectura reclama novas leituras acerca do espaço, construído ou não construído, e dos seus conteúdos. O que possibilita algum optimismo no que diz respeito ao tratamento da memória do nosso património. Uma memória que possa integrar o devir. Novalis, poeta romântico, não o poderia ter descrito melhor: "Toda a realidade tem um antes e um depois - ambos são possibilidades. Depois é possibilidade. Antes era possibilidade. Na realidade, porém, tudo existe simultaneamente."

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 10 de Fevereiro 2001.