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A Arquitectura de Peter Zumthor


O complexo fabril da LX Factory, composto por vários edifícios com ocupações muito distintas da original, de apropriação temporária, foi o lugar escolhido pelo arquitecto suíço Peter Zumthor para a exposição que mostra o seu trabalho em retrospectiva. A antiga fábrica lisboeta não podia estar mais distante do edifício que acolheu originalmente a exposição, o Museu austríaco de Bregenz. Precisão, estabilidade da forma, fascínio pela repetição e ambição intemporal podem descrever o museu da autoria do próprio Zumthor. São também os temas constantes do seu trabalho, desde meados da década de oitenta, que agora se mostram num espaço carregado de intervenções acidentais e que está condenando a desaparecer. É a súmula de uma possibilidade de acção romântica, um espaço carregado de traços e "cicatrizes", num mundo baseado em paradigmas culturais, de consumo rápido, em relação aos quais Peter Zumthor se pretende distanciar.

A escala quase doméstica do espaço expositivo acentua o impacto das maquetas de grande dimensão. Entre elas está a do projecto do museu "Topografia do Terror", dedicado às vítimas do nazismo (e da Gestapo em particular), que o município de Berlim decidiu abandonar por incompatibilidade com o arquitecto. Não existe qualquer enquadramento, relativamente à situação da encomenda ou ao objectivo de cada projecto, apenas a obra - e por isso a subjectividade absoluta na sua leitura. Poderemos também ver aí uma possibilidade disciplinar de representação da obra, pouco interessada na comunicação da Arquitectura para além dos limites de quem a produz ou pratica. Mas numa situação ou noutra, os objectos (os projectos, as obras) continuam a possuir uma atractividade singular, e a revelar os temas que lhe deram origem.

Nos espaços seguintes mostram-se vídeos que revelam em tempo real varições de luz nos ambientes das obras, mas também a temperatura dos materiais e uma serenidade que advém da ausência genérica da presença humana. As casas, residências para a terceira idade e as Termas de Vals, entre outros, mostram-se nos seus ambientes exteriores e interiores. Requerem tempo do visitante para fruir as variações que cada obra conhece ao longo do dia, pontuadas pelo fremir das árvores ou a deslocação das sombras. O tema da cidade está, por norma, distante, mesmo quando os projectos são tendencialmente urbanos, na paisagem cidade-campo do território suíço. O carácter contemplativo domina o olhar dos autores dos vídeos que por isso mesmo fazem emergir a Arquitectura como o "centro" e não como suporte de vida como é defendida pelo seu autor e um primeiro olhar sobre os vídeos deixaria supor.

Mas o momento mais desafiador da exposição está alguns andares mais acima, sujeito a um percurso vertical no interior do edifício. Aí se revela uma possibilidade de compreensão do processo de trabalho do arquitecto. Estão expostas as maquetas de estudo e desenhos, ordenados cronologicamente e diistribuídos por mesas. É o momento onde os trabalhos partem em todas as direcções, sustentados por magníficos desenhos relativos a várias fases dos projectos (aproximação, procura, tipologia e construção). Os mais antigos centrados na investigação sobre a repetição de elementos construtivos e as arquitecturas locais (sem nunca se aproximarem da componente pitoresca da cultura suíça). Os mais recentes na direcção de modos exploratórios da forma que remetem para dólmens ou formas orgânicas - é o caso do pavilhão restaurante na ilha do lago de Zurique. Mas aí estão também os trabalhos que culminam na estabilidade absoluta e serenidade clássica como é o caso do projecto para a galeria destinada aos trabalhos do artista Walter de Maria no conjunto do museu DIA Beacon no estado de Nova Iorque.

De todos os projectos expostos, apenas uma pequena parte irá ser construída. Da obras a mais recente é uma pequena capela agrícola na Alemanha. A capela Bruder Klaus, dedicada a um eremita do século XVI, perto de Colónia, foi um projecto oferecido aos clientes e carregado de singularidade na sua execução - um edifício que foi queimado no interior, consumindo a estrutura de madeira que deu origem ao espaço interior com a configuração de uma "tenda". Peter Zumthor gosta de afirmar que não há lugar ou tempo para concessões - apenas para uma Arquitectura sem contingências. O museu é o lugar onde estes projectos não construídos mais se aproximarão da vida - e na impossibilidade de os ver construídos a visita é muito recomendável.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, Setembro 2008.