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Poitiers também já é o TAP


O comboio entra num vale ladeado por escarpas de pedra. Há vegetação, muros, covas e casas de várias épocas que nos deixam perceber que a cidade francesa de Poitiers chega já até aqui. A velocidade do TGV diminui e perante uma paisagem industrial a cidade densifica-se. Já quase na estação é visível no topo de um dos lados da escarpa um novo edifício. Entre as árvores este percebe-se como dois primas de vidro, e a sua expressão, leve e elementar, contrasta com os novos edifícios e espaço público recém construídos junto à estação. É o TAP, o novo Teatro Auditório de Poitiers, que o arquitecto João Luís Carrilho da Graça projectou e que inaugurou no início de Setembro.

Resultado de um concurso, lançado há oito anos, o TAP é em simultâneo um apuramento dos temas disciplinares que Carrilho da Graça tem trabalhado e uma embaixada cultural de Portugal em França - no sentido em que a arquitectura pode ser compreendida como forma de conhecimento cultural e técnico. O facto de um arquitecto português construir um edifício público com sucesso, num país estrangeiro, pode significar não apenas uma ampliação das possibilidades de trabalho de uma profissão, mas também a revelação dessa forma de conhecimento e a partilha de uma identidade cultural capaz de reagir positivamente em diferentes contextos de encomenda. O TAP só por si já é um acontecimento na representação cultural da arquitectura portuguesa que, para além da obra do arquitecto Álvaro Siza, não tem conhecido muitas mais oportunidades de experiência de trabalho com este tipo de escala e carácter representativo.

O caminho da estação de combóios para o TAP, sinuoso e íngreme, é eventualmente a melhor forma de se chegar ao edifício - embora não seja a mais óbvia porque o centro da cidade se encontra na parte alta, para lá do próprio TAP. Tudo se clarifica na sua relação com a topogafia, que é plenamente comprendida e que se potencia agora como elemento urbano, ou seja, como modo de construção da cidade. O ambiente de ruas estreitas com muros altos de pedra e vegetação densa, de grande naturalidade e sem a evidência de "desenho", é prolongado como a base do novo Teatro Auditório. O novo edifício gera uma plataforma onde pousam os prismas de vidro, esses sim já com uma demarcação clara das evidências da envolvente. Esta decisão, simples e de grande generosidade para com a cidade, permite diminuir o impacto que um edifício com esta dimensão poderia significar. Deste modo o TAP é percebido como o coroamento de um promontório, que culmina num conjunto de terraços públicos de domínio visual sobre a paisagem.

A partir do centro de Poitiers, uma praça com todas as instituições juntas, cafés e livraria incluídos, o TAP revela-se de um modo completamente distinto. Ruas plácidas, estreitas e planas, ladeadas por edifícios de habitação com poucos pisos desenham perspectivas alongadas sobre o novo edifício. É aí que o projecto se assume mais provocatório, com os revestimentos de vidro que estão soltos das paredes e que por isso lançam uma imagem etérea às ruas. Imagens vídeo irão passar em cada peça do sistema modular deste revestimento, tornando o edifício um "outdoor" emissor de informação - e em mutação constante. É uma opção que se socorre de possibilidades tecnológicas que os muros da parte baixa não deixariam supôr. E este modo de conjugação de opostos, entre aquilo que sempre aí esteve e aquilo que é produto de um presente, absolutamente não perene, parece ser o perfil identiário deste projecto. O mais surpreendente é que o encontro destes dois mundos é no TAP muito mais natural do que se poderia supor num "manifesto".

No interior este sistema duplo que a própria cidade determinou, topografia abrupta rematada com muros e edifícios leves pousados numa plataforma, revela-se numa hierarquia de espaços de circulação e foyers. Aí domina uma escadaria de porte monumental que convida a mergulhar no edifício. O TAP consiste na associação de uma sala de ópera e de um um auditório propositadamente concebido para ouvir música.

O amarelo domina no interior, mesmo sabendo que as paredes brancas são em maior número. Domina também nos pátios onde entra a luz e que são parte de um constante "chamamento" do exterior que assalta os espaços de encontro interiores. Domina também em planos interiores que vão conferindo uma associação entre plano e utilização da cor. Esta estratégia de apropriação cromática do edifício foi resultado da parceria entre o arquitecto João Luís Carrilho da Graça e o designer Nuno Gusmão, que fixou também a sigla TAP (que sugere o som do "aplauso") para a sua caracterização. O resultado destas opções é a fixação de uma certa informalidade no modo de viver o edifício, eventual prolongamento de uma vontade política de captação de um público heterogéneo.

As duas salas de espectáculo são absolutamente distintas no ambiente e na expresão dos materiais. A grande sala da ópera caracteriza-se pela suas proporções verticais e capacidade de número de espectadores - uma sala institucional. A sala destinada exclusivamente à música é introspectiva, tipologicamente e materialmente distinta. Contruída em madeira (não existem elementos metálicos) está definida por um corredor envolvente, mais elevado, que estipula a sua configuração. É novamente o encontro entre uma vontade exploratória de espaço, o trabalho artesanal na construção e a sofisticação tecnológica no modo de trabalhar a acústica. Ou seja os temas que caracterizam a estratégia urbana. Poitiers também já é o TAP.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Ipsilon, 19 de Setembro 2008.