As poucas palavras são plenamente compensadas pela intensidade da paisagem. Já não a paisagem romântica nem sequer a paisagem socialmente comprometida dos bairros operários. É a cidade de todos os dias e do mundo contemporâneo aquela que Antonioni usava para falar de nós. São os postes de electricidade no nevoeiro, as gruas no trabalho do porto, edifícios em construção na periferia de Roma, um glamoroso estúdio fotográfico em Londres, Almeria ou as férias nas desertas ilhas sicilianas os mundos que usou para traduzir a possibilidade de uma beleza indizível face a uma condição inquitante: o tédio (que nos deixa desatentos).
Deixar falar a paisagem contemporânea sem um juízo de valor, essa mesma paisagem que as suas personagens olham com a condição que com elas partilhamos, deixou um lastro que ainda hoje podemos identificar. No cinema de Antonioni, onde aparentemente nada se passa, a cidade e arquitectura não são um fundo para as personagens, são protagonistas em confronto directo com os homens e as mulheres. Por vezes são até menos insondáveis.
Com Antonioni aquilo que parecia ser a cidade de todos os dias, filmada com o seu tempo lento, revela-se afinal singular e irrepetível. Não há crítica ao novo, receio ou ironia do moderno (como o encontramos em Jacques Tati) existe apenas um mundo cuja densidade envolve pessoas e arquitectura. Somos inevitavelmente do aqui e agora e temos dificuldade em exprimir a nossa condição, talvez por isso Antonioni se tenha socorrido da arquitectura (que seguramente o emocionava) para que as suas personagens pudessem estar quase em silêncio.
O seu olhar estava plenamente disponível para a transformação do mundo e por isso encontramos no seu cinema arquitectos, fotógrafos e engenheiros. O desconforto interior dessas personagens (que a crítica de cinema analisou e chamou de alienação) é afinal uma condição que a modernidade tomava como provisória mas que hoje sabemos ser permanente, e que alimenta todo o pensamento produzido hoje, da arte à arquitectura, passando pela cinema onde a sua obra é fundadora.
Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, 01 Agosto 2007.