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Toda a Arquitectura é Pública


Num texto que circula há muito entre arquitectos e estudantes, intitulado "A Cidade para Todos", Paulo Mendes da Rocha defende o inacabamento da obra, a não finitude da acção, enquanto a vida não invade a obra. "O que desenha a imprevisibilidade da vida é uma construção, nítida e rigorosamente técnica, mas que não determina o fim, o modo e meio, o programa. Ampara a indeterminação, a imponderabilidade da liberdade individual, aquilo que nos obriga a arrumar o território, a reconformar a natureza". O novo projecto do Museu dos Coches em Lisboa não se afasta um milímetro desta convicção moderna.

O novo Museu dos Coches não é um único edifício. São três volumes que relacionam entre si através de uma passagem pedonal elevada. Um deles contem os coches, da colecção do mais visitado museu português, outro espaços colectivos onde se inclui um auditório, e o último mais próximo do rio é um silo automóvel. São formas elementares, estabilizadas e intemporais, que clarificam o tema do projecto - mais um grande equipamento público em Belém. E um grande equipamento público é muito mais do que salas qualificadas para expor arte ou artefactos (mas também o é). É fazer cidade. E é isso que Paulo Mendes da Rocha propõe fazer, trabalhar com a afirmação do público, do colectivo.

A grande praça coberta, gerada pelo edifício que se levanta do chão com as suas "patas" é o acto de maior generosidade para com a cidade. Permite uma sequência de espaços e jardins que atinge o Centro Cultural de Belém numa sucessão ininterrupta de possibilidades. O projecto parte do optimismo de fazer com que as traseiras dos edifícios da Rua da Junqueira se voltem para esta nova praça pública. Será o tempo, e nós, cidadãos que iremos determinar o sucesso da operação. Mas há mais. Com o silo junto ao rio (o silo que se assemelha aos reservatórios nas proximidades) os automóveis libertam essa frente para as pessoas. E o silo tal como o museu não contém apenas uma função - outras lhe serão incorporadas.

Deste patamar se poderá então entrar no detalhe - material, programático ou outro qualquer. Mas a maior transformação está lançada, que é a possibilidade da "cidade para todos".

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, caderno P2, 31 de Outubro 2008.