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Carrilho da Graça: A Obra ao Branco


Não seria de esperar encontrar no Portugal do início dos anos 80 traços de cosmopolitismo e heterodoxia cultural. Mas existiam. O Bairro Alto, em Lisboa, com o bar Frágil à cabeça, polarizava um conjunto de personagens responsáveis por uma abertura e disponibilidade ao novo e ao singular, já não com o compromisso ideológico "full time" da década anterior, mas com um "glam" optimista. João Luís Carrilho da Graça e Manuel Graça Dias, que chegaram a partilhar o espaço de escritório, iriam personificar no panorama arquitectónico a passagem a um processo de pós-modernidade. Face à rigidez do legado moderno, e sem a presença de mestres (ao contrário do que acontecia no Porto), esta geração iria provocar de forma espontânea um esboroamento das barreiras entre a cultura popular e a cultura erudita.

A outra face desse processo, porventura menos solar, foi a do recurso à história, à sua citação fácil e literal, de modo a utilizar formas reconhecíveis, num apelo pouco subtil à cultura de massas emergente. A João Luís Carrilho da Graça esta segunda faceta nunca terá interessado, posicionando-se sempre na demanda de uma especificidade artística da disciplina.

Foi no Alentejo que começou por construir os seus primeiros edifícios, onde se destacam o Centro de Segurança Social (1982-88), em Portalegre, de onde é natural, e as Piscinas Municipais de Campo Maior (1985-88). Já nessas primeiras obras fazia transportar uma sofisticação urbana (evidente na preocupação em torno da plasticidade) a uma paisagem que compreendia e respeitava profundamente. Eram projectos na senda de uma síntese ou encruzilhada conceptual que ainda hoje alimenta a sua obra. Veja-se o interesse pelas vanguardas históricas, numa espécie de redescoberta do Movimento Moderno, no início da carreira, ou o fascínio actual pelas artes plásticas e performativas contemporâneas. Reconhecem-se as metodologias de Álvaro Siza e Gonçalo Byrne, duas presenças tutelares, na relação de reciprocidade entre arquitectura e paisagem (leia-se relação edifício/território), não obstante o recurso a uma radicalidade expressiva; e também uma atenção particular a sucessivas actualizações culturais do "espírito do tempo".

Temas concêntricos estiveram presentes no percurso de João Luís Carrilho da Graça enquanto professor, nos exercícios que lançava aos alunos da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Geralmente, os estudantes trabalhavam até meio do exercício sem programa (sem uma intenção de ocupação, um uso), procurando apurar um resultado formal relacionado com um território específico, depois de o terem estudado e compreendido. Houve mesmo um trabalho cujo desafio era desenhar um edifício sem gravidade, que ficou célebre no meio académico pela sua especificidade e associação à obra do seu mentor.

Outro denominador comum do seu percurso é o esforço permanente de levar ao limite a configuração arquitectónica que uma função de um edifício pode permitir, evidente na sua primeira obra de grande visibilidade em Lisboa, a Escola Superior de Comunicação Social (1988-93). É um edifício que entra sobre o morro de Benfica como uma lâmina, um plano que se alonga excedendo em muito a "mera" função - quase como se esse plano, por ter sido alongado, fosse perdendo espessura, quedando-se no limite do corpóreo. O volume perpendicular a este plano, levantado do chão, está forrado de pedra, acentuando uma dualidade entre ausência de gravidade e peso. O interior do edifício vem sublinhar este sentido conceptual, libertando o átrio por três pisos de altura para deixar passar uma chaminé longa e vertical, também ela exponenciada formalmente. A cobertura do edifício, onde funciona a cafetaria, permite um olhar panorâmico sobre esta forma de actuação na paisagem urbana. Gonçalo Byrne chegou a referir-se à "estranha leveza" da sua arquitectura na primeira monografia publicada sobre a obra de João Luís Carrilho da Graça.

Deste equilíbrio frágil resultaram obras de grande apuro formal e de forte intensidade sensorial, onde se destaca o Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo 98 (1995-98), e o recente Centro de Documentação do Palácio de Belém (1999-02). Curiosamente, dois edifícios que se dispõem mais a criar um lugar do que a intensificar uma paisagem existente, como tinha acontecido com os primeiros projectos.

O primeiro ilustra uma incursão na experiência da solidez e da monumentalidade do betão branco. Mas mesmo aí a rampa fragmentada que nos conduz até ao piso da entrada, e que envolve um pátio, esporadicamente coberto de água, remete-nos para um fascínio permanente com as arquitecturas do Sul - as arquitecturas da manipulação da luz e da água.

Com o Centro de Documentação do Palácio de Belém assiste-se a uma súmula dos seus temas de eleição e, provavelmente, à passagem a uma nova fase do percurso, enquanto se aguarda a construção de projectos importantes como a recuperação do Convento de Jesus, em Setúbal, (projecto de 1999) e respectiva ampliação com vista à instalação de um museu.

A sua obra começa agora a adquirir impacto internacional com projectos para Madrid (edifícios de habitação), Poitiers (um edifício de auditórios já em construção) e Genebra (um edifício de escritórios), mostrando um autor finalmente liberto de uma dimensão local, cuja ambição a sua obra ultrapassava. Com os projectos europeus, João Luís Carrilho da Graça mostra-se progressivamente mais disponível para correr riscos, trilhando caminhos até aqui não experimentados. As "armas brancas" do início da sua carreira, como lhes chamou Manuel Graça Dias, conscientemente maneiristas e heterodoxas, deram origem a um percurso incontornável no panorama português. Uma Obra ao Branco.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para a Colecção "Arquitectos Portugueses Contemporâneos: João Luís Carrilho da Graça", Lisboa 2004.