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Duas Manhãs nos Olivais


Um autocarro amarelo sem capota parecia estar deslocado naquele sábado de manhã. Não tinha turistas e estava afastado das habituais rotas históricas. Circulava lentamente, cheio de arquitectos, quase todos jovens, acompanhados por alguns menos jovens, que pareciam redescobrir aquele bairro lisboeta. Entre eles estavam os autores de alguns edifícios de Olivais Norte. Uma semana depois a história repete-se para uma visita guiada a Olivais Sul. A iniciativa chama-se “Obra Aberta” e foi organizada pelo arquitecto Pedro Veríssimo para a Ordem dos Arquitectos, para dar a conhecer ao público obras relevantes do património arquitectónico moderno.

Se hoje os Olivais são apreendidos como jardins habitados, inicialmente a vegetação não existia como hoje a conhecemos, a não ser algumas oliveiras de testemunho das antigas quintas, entretanto arrasadas para a construção da paisagem que recebeu os modernos prédios de habitação. Hoje ainda é possível ver uma parte de um antigo aqueduto e as casas principais de algumas quintas, conservadas no espírito da Carta de Atenas (documento escrito, a partir das conclusões do 4º CIAM -Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna - de 1933, por Le Corbusier) que admitia a preservação do património histórico desde que muito significativo, e que não fosse obstáculo à vida moderna. Estes testemunhos rurais foram plenamente integrados no projecto de espaços exteriores de Olivais Norte pelo arquitecto Ponce Dentinho, e convivem com os edifícios do plano de 1955/58,  elaborado pelos arquitectos  Sommer Ribeiro e Falcão e Cunha na Câmara Municipal de Lisboa (GEU). Dois anos depois, também no contexto da Câmara (GTH), nasceu o plano de Olivais Sul, da autoria dos arquitectos Rafael Botelho e Carlos Duarte.

A pulverização dos edifícios pela paisagem é porventura a característica mais forte da estrutura urbana dos Olivais. A autonomia dos edifícios permitiu uma enorme variedade de tipos, habitual nos bairros periféricos das cidades europeias da época (por exemplo Roehampton na periferia londrina), gerando uma nova paisagem recortada por torres. Mas esta foi essencialmente uma experiência sobre os temas intrínsecos à cidade moderna: a integração plena do automóvel na vida quotidiana, a vertigem da habitação vertical e o anseio modernista pela higiene, sol, ar e uma natureza acessível. Vivia-se nestes anos, em plena década de cinquenta, alguma ansiedade ideológica no sentido de superar tudo o que o Bairro da Encarnação, o bairro contíguo, representava: uma certa ideia de ruralidade e uma recusa formal da ideia do “colectivo”. O salto, que teve como mediação a incontornável experiência de Alvalade, provocou uma actualização sobre novas formas de habitar.

A escala tende a aumentar de Olivais Norte para Olivais Sul. A norte alguns edifícios ainda estavam suspensos no ar, suportados por estreitos pilares -pilotis - cumprindo o dogma do mais influente arquitecto da modernidade: Le Corbusier. É o caso dos quatro blocos projectados por Pires Martins e Palma de Melo entre 1959/61. Estes pousam na topografia ondulante, e acolhem quatro casas por piso, acessíveis ao longo de uma galeria exterior de serviço, embora a entrada principal fosse feita a partir de elevadores no interior (em sistema de esquerdo-direito), à semelhança do “bloco das águas-livres”, projectado em 1956 por Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral. O último resquício de rua tradicional era constituído pelo alinhamento dos edifícios revestidos a tijolo, projectados por Braula Reis e João Matoso em 1959, que configuram o único espaço canal do plano. A “rua” defendida nestes anos, principalmente pela influente dupla inglesa Alison & Peter Smithson, no projecto de Golden Lane (1952), era a rua transportada ao interior dos edifícios – em galerias. Nos Olivais a galeria foi utilizada, de forma pioneira, por exemplo, nos projectos de Pedro Cid e Fernando Torrres ou Victor figueiredo e Vasco Lobo.

A densidade, calculada racionalmente para rentabilizar terreno e infra-estruturas, era resolvida pela altura dos edifícios, justificando o crescimento em altura. As torres dos dois Olivais projectadas em 1959/60 por Nuno Teotónio Pereira e António Freitas, presentes na visita guiada, são das mais famosas. Este Prémio Valmor, de 1967, desenvolve-se como dois blocos separados pelo corpo dos acessos verticais num sistema de inflexões que lhes conferem elegância formal, sem deixar de incluir espaços colectivos generosamente dimensionados e tratados para favorecer o encontro entre vizinhos: é o caso do  longo banco da entrada que envolve quem chega ou das intervenções de artistas plásticos modernos, respondendo ao imperativo estatal de investir uma percentagem do custo dos edifícios em obras de arte. No interior das casas conhece-se uma nova estratégia espacial e social de relacionamento, por exemplo a franca relação entre sala e cozinha, caracterizada por um longo passa - pratos e ausência de portas.

Nos Olivais Sul as três torres (1961/67) de Manuel Taínha apresentam-se mais maciças com a sua planta quadrada, mas pintadas de vermelho escuro para espanto de alguns. São quatro casas por piso, caracterizadas por uma sala e varandas centrais, em torno das quais tudo se desenvolve, que parecem adaptar a solução de Alvar Aalto para o seu edifício berlinense. Também aqui é evidente o sentido do colectivo, com a introdução de grandes varandas partilhadas por várias casas. São os buracos que se avistam à distância, escavados na massa das torres, que contrastam com a lisura das fachadas, e que muito contribuem para o seu carisma.

Hoje os Olivais já estão ocupados pela segunda geração, que habita plenamente os bairros, e relativiza o seu carácter periférico. Nem mesmo a experiência de coabitação social, de diferentes estratos sócio-económicos distribuídos por quatro categorias, impediu uma certa harmonização social e capacidade de partilha. Com a extensão da cidade, e também com as novas acessibilidades, os Olivais tornaram-se mais centrais, mais “próximos”. As novas periferias com a sua incontrolada avidez especulativa, de resultados imprevisíveis, não conhecem de todo o cuidado de concepção posto nos planos e projectos, por isso os Olivais Norte e Sul se tornaram uma referencia para a Lisboa contemporânea.

Texto escrito por Ricardo Carvalho e Michel Toussaint para o Jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 18 de Outubro de 2003.