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Lisboa, Roterdão e Algumas Torres


O arquitecto britânico Norman Foster esteve em Lisboa recentemente para apresentar um projecto para a área ribeirinha da capital. Numa operação carregada de profissionalismo, em que Forster forçou analogias entre o seu próprio projecto e a Praça de S. Marco em Veneza e até cometeu uma gaffe (...”aqui em Madrid”, disse...), o arquitecto apresentou uma hipótese de reconversão urbana do espaço ocupado por um antigo armazém na Rua D. Luís, no Bairro de São Paulo. Trata-se, genericamente, do fecho de um quarteirão criando uma praça central, pontuado por uma torre translúcida a nascente. Consequente com um conjunto de projectos que tem construído na Europa e na Ásia, Foster propõe agora para Lisboa uma torre envolta numa pele de vidro, um compromisso entre a continuação de um legado “moderno” e uma (por vezes ingénua) aspiração futurista.

Pouco tempo antes, Álvaro Siza Vieira apresentara um outro projecto para Lisboa marcado por três torres, que aspiram fazer o acerto de escala da cidade com a Ponte 25 de Abril, ainda hoje uma presença tensa em Alcântara e Santo Amaro. Mas as torres do arquitecto portuense não se perfilam na mesma genealogia moderna do esqueleto envolto em vidro, que caracteriza -lato senso- o trabalho de Foster. Trata-se de um outro imaginário, mais próximo do arranha céus transformado em coluna toscana proposto para Chicago por Adolf loos em 1922. É a massa pétrea ou branca, perfurada por janelas, a característica expressiva mais evidente dos projectos de Álvaro Siza, extensível agora às torres.

Para Roterdão Álvaro Siza propõe mais duas torres, precisamente numa espécie de regresso à Chicago do final do século XIX. Não há nem nostalgia por uma cidade “ideal” do passado modernista, nem uma vontade de antecipação de um futuro que acaba sempre por não corresponder a qualquer expectativa. São duas torres, gémeas falsas, que assentam num pier de Roterdão e que irão conviver com outras desenhadas por arquitectos de circulação internacional, como a dupla sevilhana Cruz & Ortiz . No projecto de Siza, as duas torres estão unidas por um corpo comum que lhes serve de base, tornando possível criar espaço público com uma escala não permitida pelas ruas circundantes. O complexo funciona como uma cidade vertical, conforme a sua matriz americana tardo oitocentista, com comércio, serviços, um museu e habitação, com a mais valia acrescida de se oferecer à cidade um espaço público.

Todas as cidades enfrentaram ao longo do século XX o desafio da cidade vertical, percorrendo a sua história um longo espectro de hipóteses e resultados. Do carisma de Manhattan (onde não interessa o objecto singular mas sim o todo), passando pelo falhanço “anos 80” das Docklands de Londres (pela sua monofuncionalidade), até à contemporaneidade das cidades/ território onde se recupera o seu sentido alternativo de densidade, por oposição ao crescimento horizontal. As torres que Foster e Siza propõem agora, e que em Lisboa têm gerado alguma inquietação, não são mais do que a opção natural por um “tipo” urbano arquitectónico. A adequação (ou desadequação) de qualquer um destes edifícios à cidade não depende apenas do seu tipo, mas da resposta que o arquitecto encontra, da sua capacidade para compreender o território e nele operar uma transformação, superando fracturas físicas e  a crise do espaço público. O que dizer do Lumiar com as suas pequenas torres numa densidade impensável para quem pensa a cidade fora do enquadramento do especulador imobilário? O que dizer das pequenas torres banais de seis pisos, que se constroem sem qualquer referência a uma memória urbana colectiva, e sem a erudição do gesto arquitectónico. Em Lisboa o que é realmente preocupante é a mediocridade arquitectónica que se tornou norma e teima em resistir, seja ela horizontal ou vertical.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o Jornal Público, 20 de Março de 2004.