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A Arquitectura como uma Litania


“Calle Francisco Ramirez”, estava apontado no papel escrito à pressa. Não foi fácil identificar a casa no bairro popular de Tacubaya, Cidade do México, hoje circunscrito por vias rápidas que lhe atribuem o carácter de ilha. A imagem da casa para a rua resume-se a uma fachada quase cega, quase um muro alto, com pequenas e discretas aberturas rasgadas de forma espontânea, na continuidade de quase todas as outras casas, vagamente indistintas. Finalmente, não sem ansiedade, entramos na casa-atelier de Luis Barragán.

Não é possível visitar sozinho o interior desta obra, hoje “casa-museu”. Somos acompanhados por um jovem arquitecto, que procura explicar a intencionalidade de cada espaço, objecto ou artefacto artístico. A casa está praticamente como Barragán a deixou aquando da sua morte em 1988. Hoje os livros estão de volta, depois de terem sido retirados para um inventário que suporta publicações mais ou menos desnecessárias como “a Biblioteca de Barragán”. A tarefa do guia é árdua, em primeiro lugar porque visitar este espaço é de tal forma arrebatador que dificilmente nos centramos noutra coisa que não a nossa própria experiência. Em segundo porque a obra de Luis Barragán assenta em términos tão vagos e insondáveis, para a cultura contemporânea, como “religião e mito”, “beleza”, “silêncio”, “solidão”, “serenidade”, “alegria”, “morte”, “jardins”, “fontes”, “arquitectura”, “arte de ver” e “nostalgia”. Foi assim mesmo, por esta ordem, que os apresentou na cerimónia que lhe entregou o Pritzker em 1980.

Religião e Mito

Referências permanentes à religião católica convivem com a colecção de artefactos étnicos (da África negra até ao Pacífico Sul) na colecção que povoa a sua casa. Deste sincretismo resulta uma arquitectura tão interessada na modernidade como naquilo que a modernidade deitou fora, ou seja, tão interessado no pensamento abstracto (racional e lógico, mas também metafísico) como no pensamento simbólico-nostálgico. Mas a verdadeira dimensão religiosa é a solenidade da sua obra. Uma suspensão do tempo através da manipulação da luz, e do seu cerco, através de paredes de reboco texturado e pintado ou através de jardins murados cuidadosamente desordenados. A noção de abrigo e de recolhimento é permanente, num frágil equilíbrio encontrado entre um desenho (aparentemente) ausente e uma materialidade de grande contenção formal.

A religião e o mito acabam por se concretizar plenamente na capela do Convento das Capuchinhas (1955) quando a luz dourada do altar se confronta com o vitral amarelo. O resultado é uma ode ao misticismo católico, e uma actualização depurada da relação entre liturgia e espaço de culto, e o que fica são os tão desejados silêncio e serenidade.

Beleza

O conceito de “beleza” não é indiferente à escolha dos seus trabalhos. Depois de um período mais obviamente interessado na gramática modernista, deixa de trabalhar para clientes tradicionais, elegendo os seus próprios clientes, e por acréscimo o tipo de programas que pretende construir. Chegou mesmo a oferecer o projecto e a obra do Convento das Capuchinhas às suas destinatárias, pedindo em troca total domínio sobre o projecto.

Em 1947, ainda antes das lições heideggerianas, em torno da “casa do ser”, terem impregnado a noção de lugar da nova arquitectura europeia do pós-guerra, Barragán construía a sua casa no bairro popular de Tacubaya. Distante de uma cerebral aproximação de causa-efeito à arquitectura, revertia o seu discurso na questão subjectiva da “emoção”. Livre de incorporações teóricas que não a da especificidade de cada obra, os seus projectos assentavam numa procura, numa demanda através da memória, cuja metodologia era retirada de outras disciplinas, nomeadamente da pintura. O terraço da sua casa era o laboratório vivo de uma das características mais fortes da sua obra, a cor. A elementaridade formal dos volumes que Barragán concebia não seria a mesma sem o recurso à cor mediterrânica e mexicana, mas acima de tudo mítica: a da pintura do seu amigo Jesús Reyes Ferreira.

Silêncio e Serenidade

“ é o grande e verdadeiro antídoto contra a angústia e o temor. Hoje, mais do que nunca a habitação do homem deve propiciar serenidade.” afirmava Luis Barragán. As suas obras posteriores a 1947 foram sempre anti-urbanas, não cosmopolitas. A tradição da casa mexicana não justifica totalmente as suas opções tipológicas de introspecção, a predilecção sobre o pátio e os jardins encerrados relaciona-se também com a sua preocupação de proteger a intimidade dos olhares estranhos. Cada casa, cada jardim era como uma litania. Na sua própria casa passa-se de um átrio (que é também um corredor, uma passagem) escuro e estreito para uma escada com luz dourada muito forte e finalmente para o ambiente apaziguador da sala com o caixilho em cruz, que enquadra o jardim sem lhe dar acesso directo. O percurso é feito conscientemente ou inconscientemente em silêncio.

Solidão

Embora se lhe vasculhem os livros, muitos deles de e sobre Marcel Proust, e os apontamentos será difícil conhecer o homem. Estava provavelmente entre o dandy e o asceta, vivia sozinho embora rodeado de criados e de artefactos artísticos e religiosos, muitos deles produzidos pelos seus amigos. Junto dos equipamentos de equitação, outra das suas paixões, habitavam fotografias, retiradas de revistas estrangeiras sobre o glamour europeu e norte americano das décadas de 60 e 70. Barragan chegou a ser entrevistado pela revista LIFE.

Alegria e Morte

“A certeza da nossa morte é fonte de vida, e na religiosidade implícita na obra de arte triunfa a vida sobre a morte”. Esta afirmação de ressonâncias vagamente nieztchianas aproxima Barragán dos mestres do movimento moderno: de Le Corbusier com o seu simbolismo retirado do mediterrânico arcaico e de Mies van der Rohe com a sua procura da “forma do tempo”. Contudo as questões do progresso social, do empenhamento ideológico e do zeitgeist e a promessa de “combinação entre forma material e conteúdo social” eram estranhas a Barragán. O arquitecto mexicano caminhava sozinho, privilegiando um individualismo ascético e aristocrático. As fontes, bebedouros de cavalos e os jardins fechados há muito que estavam esquecidos na velha Europa.

Jardins e Fontes

“no jardim o arquitecto convida o reino vegetal a colaborar consigo. Um jardim belo é a presença permanente da natureza (…) o mais eficaz refúgio contra a agressividade contemporânea. (…) não é casual que desde o primeiro jardim que realizei em 1941, todos os que se seguiram pretenderam com humildade recolher o eco da imensa lição de sabedoria plástica dos mouros em Espanha.”

Arquitectura

Muitos viram o léxico modernista e o vernáculo mexicano na obra de Luis Barragán, mas esse é, eventualmente, apenas o ponto de partida. A capacidade de invenção de Barragán reside numa fragilidade (e elementaridade) da matéria (desinteresse total pelos sistemas construtivos e alheamento do conceito de técnica, embora fosse engenheiro de formação) e num recurso e elementos arquitectónicos que, de forma insondável, resistem ao pitoresco. Arquitectura biográfica, da infância passada em Jalisco, da influência da arte de Mathias Goeritz (os quadros monocromáticos, as esculturas urbanas e as intervenções de land art), artista polaco residente no México, ou do mestre bauhausiano Joseph Albers (os trabalhos seriais sobre a cor).

Arte de ver

“é essencial o arquitecto saber ver, quero dizer, ver de maneira a que a análise puramente racional não se sobreponha”. Quando a fama chegou a “arte de ver” permaneceu. Recusou todos os programas onde antevia não poder trabalhar o seu mundo, dos bancos às grandes corporações. Mesmo junto de projectos de especulação imobiliária conseguiu trabalhar com a paisagem de forma invulgar. Veja-se o exemplo das Torres Satélite de 1957 (em co-autoria com Mathias Goeritz) que criaram um lugar no meio de um terreno descampado e continuam a criar um lugar na imensa periferia da Cidade do México.

Nostalgia

Nostalgia de um mundo que já não existe, e que Luis Barragán tentou ainda resgatar em pleno epicentro da transição para a sociedade de massas e para a cultura pop. A Cidade do México torna-se uma das maiores do mundo, carregando consigo todos os problemas de uma metrópole num país de frágil equilíbrio económico. As sua obra resistiu, cada vez mais fechada sobre si própria, até que Louis Kahn divulgou Barragán ao mundo e o convidou para trabalhar nos espaços exteriores do Salk Institute na Califórnia.

Tolos foram aqueles que supuseram a arquitectura de Barragán como um modelo. Não pode ser copiada, não pode ter discípulos, apenas derivações mais ou menos grosseiras, mais ou menos pitorescas. A fragilidade e a nostalgia do mundo de Barragán parece cada vez mais distante, fora de alcance. Dir-se-ia que a sua arquitectura pertence a uma condição de que já não podemos partilhar fora dos edifícios que construiu.

 

O texto foi escrito por Ricardo Carvalho depois de uma visita em Março de 1997 à Casa Atelier Luis Barragán e deu origem a uma versão publicada no Jornal Público. Foi editado a pretexto de uma segunda visita à Cidade do México em Abril de 2005.