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Arquitectos Críticos


Ricardo Carvalho é um dos arquitectos entrevistado na revista ARQ A, nº 71/ 72, Julho/ Agosto 2009, dedicada ao tema Críticos Arquitectos. 


Como interpreta as possibilidades actuais da actividade crítica na arquitectura?

Ricardo Carvalho: A principal possibilidade é a de elaborar sínteses. E também de eleger um caminho interpretativo, não no sentido do manifesto, mas no sentido de não abdicar de uma ideia clara de escolha ou posição. Há anos que ouvimos falar de pluralismo e diversidade de posicionamentos como se tratasse de algo de novo. Provavelmente esse pluralismo significou apenas uma incapacidade da crítica dominante, como a crítica de matriz anglo-saxónica, de lidar com a condição contemporânea.

Do meu ponto de vista, as obras mais interessantes e inspiradoras das últimas décadas, vieram de locais distantes desse centro emissor da crítica. Mas essas obras chegaram sem estarem acompanhadas de um corpo crítico que as suportasse. E foi novamente a crítica do centro que fixou o modo de abordagem que hoje todos conhecemos para falar de panoramas como o da Suíça (que é periferia por decisão), da América Latina ou de Portugal.

Mas usando a pergunta do filósofo Homi K. Bhabha “Estamos ligados. Mas ligados a quê? A relação entre conectividade tecnológica e a conexão cultural é, em vários aspectos, o ponto fulcral e o enigma que define o lugar problemático da cultura no mundo global dos nossos dias”. A construção de uma ideia de Arquitectura genérica para consumo global, parece ser incapaz de responder a qualquer problema fora dos novos territórios fabricados para a receber.

A crítica pode acompanhar um conjunto de obras que considere mais relevantes, e permitir que os seus significados cheguem a mais pessoas. Esta informação será depositada, espera-se, noutras obras e noutras interpretações, gerando complexidade. Trata-se apenas de escolha e de síntese.

Perante a tendência actual para a especialização no campo da arquitectura, que vantagens e desvantagens encontra na diversidade de actividades (projectista, professor, conferencista, editor, crítico e curador) que desenvolve?

Ricardo Carvalho: Não existem quaisquer vantagens ou desvantagens. Cada percurso é individual e não há modelos definidos de acesso à Arquitectura na sua plenitude de possibilidades. 

Tendo em conta a sua actividade simultaneamente crítica/teórica e de projecto, como encara, no seu trabalho, a relação dialéctica entre a teoria e a prática arquitectónica?

Ricardo Carvalho: Penso não existir qualquer distância ou conflito. Pelo contrário: a prática recebe naturalmente as contribuições de uma reflexão sobre outros casos fora dessa mesma prática. Quando nos dedicamos a escrever com regularidade sobre Arquitectura tendemos a privilegiar os temas que as obras convocam em vez da especificidade espacial ou construtiva de um trabalho. Sabemos que a sua contribuição provém dessa especificidade, mas uma vez a obra liberta para a interpretação será muito mais interessante aferir a sua capacidade de desafiar um pré-conceito sobre um tema ou a sua aparente imobilidade.

Depois de um encontro com uma obra maior, será difícil pensar esse programa sem reflectir sobre o lastro por si deixado. Dou dois exemplos recentes construídos em Portugal, o Estádio do Braga e a Casa da Música do Porto. Provavelmente daqui em diante o tema estádio e o tema auditório não poderão ignorar esta contribuição de um estádio que já não é arena e de um auditório aberto em dois lados ao céu e à rua. 

Do mesmo modo o ensino não deixa de ser um prolongamento de temas de investigação que começam na prática. A elaboração conceptual que o ensino universitário (quando falamos de projecto) ajuda a monotorizar, parte de casos em que esse processo conheceu uma concretização, primeiro como projecto depois como construção. O ensino onde mais me revejo não abdica da investigação sobre obras construídas.

Como arquitecto e crítico, qual a sua interpretação do panorama actual da arquitectura portuguesa contemporânea?

Ricardo Carvalho: A pergunta contém várias perguntas. Podemos falar do panorama da dificuldade em angariar trabalho, do panorama da ausência da Arquitectura no território português e, por último, da irrelevância cultural daquilo que se constrói e que é lido como Arquitectura. A primeira questão é, do meu ponto de vista, essencialmente corporativa e devia ser mais acautelada. A segunda é essencialmente política e só podemos esperar que o pior já tenha passado.

A terceira é aquela onde a crítica pode exercer uma possibilidade interpretativa. Como já afirmei noutras situações, o mundo da construção está organizado no sentido da indiferenciação. Daí resulta uma actividade de construção incapaz de gerar significados ou propor a criação de lugares. Isto nada tem a ver com situações do passado onde os processos de transmissão do conhecimento (erudito ou popular) eram lentos e coesos. Hoje essa transmissão é rápida e descontínua e a Arquitectura habita apenas espaços intersticiais. Mesmo assim, quando acontece, muitos reconhecem a sua capacidade.

O panorama actual da produção contemporânea não é diferente de outros países europeus. Existem sempre obras que nos fazem querer viajar até esses lugares. Por outro lado a esmagadora maioria do que se publica está refém de imagens, não de uma investigação. São desejos de forma que reagem do mesmo modo a problemas e lugares distintos. Talvez por isso não constituam uma alternativa à tecnocracia - são produtos do espírito do tempo.

Mas o facto mais importante é que a Arquitectura é numericamente minoritária e não monotoriza os processos de construção de cidade. É aí que podemos perceber a sua capacidade transformadora e aí surgem surpresas. Por vezes uma pequena casa pode conter uma reflexão extrapolável para outros temas. Por vezes uma estratégia de projecto que não contém uma formalização determinada pode conseguir fixar um ambiente e criar um lugar. Podemos ampliar o nosso campo de trabalho olhando para o trabalho de outros que trabalharam problemas semelhantes e convocar aquilo que chamo de acervo universal – mas existe sempre um patamar de onde olhamos e do qual não podemos abdicar, do mesmo modo que não podemos escolher o passado. A crítica tem que reconhecer o processo que conduziu ao resultado e ambicionar partilhá-lo com todos. 

Entrevista de Margarida Ventosa e Luís Santiago Baptista