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Chicago, Cidade Boomerang


Não é raro ouvir o comentário que atribui a Nova Iorque a qualidade de melhor cidade da Europa. De facto, a metrópole norte-americana foi o destino privilegiado de parte significativa das personagens centrais da cultura europeia do século XX. Foi também o espaço de acolhimento transversal de todas as outras culturas, o que contribui muito, a par da carga iconográfica lançada pelos media, especialmente através do cinema, para que todos aí reconheçam um lugar, o seu lugar. 

Essa identificação não acontece com Chicago, que exibe uma menor diversidade, mas é raro o arquitecto que não reconhece a cidade como uma escola, a sua escola. É de facto nesta cidade do Midwest que se concentram as sementes que fizeram nascer a modernidade arquitectónica. Um pioneirismo que construiu a sua singularidade enquanto metrópole, aspecto que ainda hoje alimenta o seu imaginário. Chicago, ao contrário de Nova Iorque, não foi apenas uma cidade de acolhimento, foi antes um “boomerang” feito arquitectura lançado à Europa, que iria trazer no seu regresso alguns dos protagonistas da arquitectura do século XX. 

O “boomerang” chamava-se “Escola de Chicago”, um movimento que na última década do século XIX trilhou caminhos pioneiros, de grande simplicidade e pragmatismo, na construção vertical. O esqueleto de aço e os primeiros ensaios sobre a transparência dos edifícios arrancaram com a geração da década de 90, cuja figura mais importante foi Louis Sullivan (1856-1924). Estas ideias atravessaram o Atlântico e iriam ser levadas até às últimas consequências na Europa pela figura radical de Mies van der Rohe (1876-1969), quando o vidro passou a substituir as paredes nas suas torres visionárias da década de 20, projectadas para Berlim mas nunca construídas.

Quando Mies decide encerrar a Bauhaus de Berlim, antecipando-se ao aparelho nazi, tinha já aceite o lugar de novo director da Escola de Arquitectura de Chicago. Não poderemos saber o que pensava da América o mais influente arquitecto moderno alemão, mas os seus desenhos e fotomontagens para uma casa no Wyoming, feitos antes de partir, mostravam um enquadramento perfeito da paisagem. Isto apesar de sobressaírem alguns recortes de imagens de cowboys entre as montanhas e a vastidão de escala do território americano, revelando talvez o cepticismo de Mies perante o Novo Mundo. Mas a cidade que o esperava, Chicago no ano de 1938, estava nos antípodas desta visão – era já uma grande metrópole de milhões de habitantes.
Foi em resposta ao devastador incêndio de 1871 que a arquitectura da então pequena cidade do lago Michigan se tornou tecnicamente experimental e arrojada na expressão, utilizando de forma inovadora o elevador e a estrutura metálica. Hoje, no interior do Loop, definido pela metro de superfície que organiza um percurso circular, pode-se imaginar como seria a cidade quando os edifícios da Escola de Chicago configuravam as ruas. Na Avenida Dearborn, vive-se uma vibrante sequência espacial, um percurso assaltado por acontecimentos arquitectónicos da última década do século XIX, os mais antigos “modernos”, como o clássico Monadnock Building (de Burnham & Root), antevisão expressionista do tema arranha-céus, e o Marquette (de Holabird & Roche), a construção da forma pura. As grandes janelas predominavam sobre a opacidade das paredes, fazendo inundar de luz as múltiplas funções que acolhiam. Edifícios em que o tratamento sumptuoso dos átrios, de expressão ecléctica e com materiais nobres, acolhiam um fluxo contínuo de pessoas. Eram escritórios, bancos e seguradoras em pioneiro “open space”, eram também comércio, mas estes edifícios eram principalmente habitação organizada na vertical. Tudo concentrado num único volume, verdadeiras “cidades verticais”, das quais se destacava o maior hotel do mundo com os seus três mil quartos. Sem possuir a radicalidade dos outros edifícios, o Stevens Hotel de 1923 (também de Holabird & Roche) é agora o melhor exemplo dessa memória, com as suas torres em tijolo assimiladas ao mundo industrial, e espaços colectivos onde o sonho americano se traduz nas fontes, escadarias imensas e salões de baile.

A floresta de arranha-céus do centro da cidade – o Loop –, evidencia ainda hoje uma prosperidade ganha às sucessivas crises económicas. Foi por isso que Chicago funcionou sempre com uma das cidades retrato de uma América genérica, idealizada por Henry David Thoreau, Walt Whitman e pelo arquitecto Frank Lloyd Wright. Mas é hoje uma América mais fragilizada aquela que se sente no Loop. Mesmo que as bandeiras americanas surgam nos sítios mais improváveis, dos mastros aos taipais das obras, perdeu-se uma vitalidade urbana com a já endémica fuga das classes médias brancas para os subúrbios e a “privatização” do espaço público.
A Chicago próspera que gosta de se mostrar aos que chegam concentra-se a norte – o Near North como lhe chamam –, alimentando-se de forma implícita da caução cultural da arquitectura da Escola de Chicago e de forma explícita do poder económico que baptizou esta área de “Golden Coast”. Hoje, a habitação parece timidamente querer regressar ao Loop e substituir a hegemonia das grandes corporações, que dominaram programaticamente as “peças” históricas posteriores à II Guerra Mundial, como o Federal Center de Mies van der Rohe.

O Federal Center é um conjunto de três edifícios com uma variação mínima da expressão, uma fleuma em torno do aço e do vidro, capaz de gerar espaço público nesta cultura profundamente marcada pela propriedade. O edifício dos correios, um pavilhão horizontal – contraponto à verticalidade dominante – funciona mesmo como uma “praça coberta”, visualmente permeável, cujo equilíbrio é posto em causa com uma escultura em aço de Alexander Calder.

Acabadas em 1974, as torres Sears (do escritório local S.O.M./ Bruce Graham), apesar de disputarem a classificação de serem um dos edifícios mais altos do mundo (e que em si mesma não comporta nenhuma qualidade), parecem nada acrescentar ao projecto de 1922 do alemão Walter Gropius para a sede do jornal Chicago Tribune, nunca construído. Não deixa de ser interessante que o projecto de Gropius tenha sido retomado conceptualmente nestas torres cinco décadas depois, principalmente porque o edifício neo-gótico que foi de facto construído para o Chicago Tribune marcou uma viragem conservadora na transição para o século XX e o fim da experimentação da Escola de Chicago.

Mas a arquitectura de Chicago, e a sua capacidade experimental, não se fez apenas com arranha-céus. As casas que alguns arquitectos construíram ao longo da primeira metade do século XX contribuíram para a redefinição do espaço doméstico.
A casa Charnley de Louis Sullivan, a casa/atelier de Frank Lloyd Wright  e a casa Farnsworth de Mies van der Rohe apontam em três direcções fundadoras da cultura arquitectónica que alimenta a contemporaneidade. A via histórica com a primeira, a criação da tradição americana com a segunda (Wright afirmou mesmo ser o seu fundador) e a síntese universalista do projecto moderno com a última.

Hoje são edifícios visitáveis (a casa Farnsworth foi subitamente posta à venda) e referências culturais americanas, embora tenham causado estranheza e até incompreensão quando foram construídos. São os mesmos “cidadãos tipo”, que no passado resistiram a estas propostas, que hoje ouvem atentamente os guias a falar destas obras, do seu valor artístico e sobretudo do seu valor material.

A casa desenhada por Sullivan é uma “villa urbana”, individual no espaço colectivo da metrópole. Clássica, na forma como aborda o programa, parece fazer dos materiais aquilo que ninguém tinha ainda feito, atribuindo-lhe uma carga expressiva que contraria a simetria do seu desenho. A varanda coberta (a loggia), colocada por cima da pequena porta, aponta já na direcção do trabalho sobre a tensão entre escalas que vai caracterizar a obra de Wright.
Foi na paisagem horizontal de Oak Park, um subúrbio abastado a oeste da cidade, que esta figura central da história da arquitectura iniciou o seu percurso. Depois de colaborar com Louis Sullivan, Frank Lloyd Wright construiu aí a sua casa, introspectiva e radicalmente laboratorial. A sua história consiste numa adição de volumes – uma obra permanente em curso enquanto o arquitecto ali viveu –, com mudanças abruptas de escala, janelas junto ao chão, paredes que não tocam o tecto e até um piano suspenso sobre uma escada que o arquitecto não queria no meio da sala. A manipulação da luz e as proporções inesperadas dos espaços vão conduzir a arquitectura a caminhos até aí não percorridos, culminando com a realização da obra de maior visibilidade pública: o Guggenheim de Nova Iorque.

Se Wright trabalhou sobre a diversidade máxima do carácter de cada espaço da “casa”, Mies van der Rohe, com a casa Farnsworth de 1945, irá trabalhar sobre a variação mínima dos mesmos temas. Este pavilhão elevado do solo, em aço pintado de branco e vidro, junto do Rio Fox (a uma hora de carro da cidade), é a melhor homenagem à arquitectura que, mais de meio século antes, tinha sido vislumbrada no Loop. Estrutura e espaço arquitectónico foram reduzidos à sua síntese limite: a casa está disponível para cada um inventar criativamente o seu modo de habitar, transcendendo a função e reinventando a paisagem. Mies terá afirmado que as suas casas não “são apenas para o corpo mas também para o espírito”. Coberta de neve, numa paisagem lacónica, continua a ser uma referência inamovível para a contemporaneidade. Objectiva e lógica, mas também transcendente na carga poética, ilustra o último movimento de “boomerang” de Chicago em relação à Europa. A América precisa de um novo movimento de regresso.

Texto escrito por Ricardo Carvalho, em Chicago, para o Jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 29 de Março 2003.