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Portugal in Vitro, Embaixadas em Brasília e Berlim


Com o ataque terrorista ao World Trade Center de Nova Iorque o século XX chegou ao fim. Para trás ficou uma paisagem toponímica de cidades que se tornaram faróis, de dimensões variáveis, do mapa complexo e contraditório da modernidade. Algumas dessas cidades emitiram sinais pontuais mas intensos, como Chicago ou Paris, por vezes com obras de pequena escala, capazes de reaproximar a dimensão teórica da prática da arquitectura. Mas duas dessas cidades funcionaram sobretudo como laboratórios genéricos de arquitectura. Esta singularidade valeu-lhes de imediato a associação a uma paisagem mental e abstracta, e a designação de cidades difíceis, ou cidades de arquitectos. Brasília e Berlim protagonizaram algumas das experiências mais radicais da arquitectura moderna e por isso protagonizaram também alguns dos falhanços mais monumentais da utopia do Admirável Mundo Novo. Brasília como a corporização ex-novo do modernismo heróico e Berlim como um palimpsesto arquitectónico, onde estão inscritas as convulsões da história recente da Europa. Foi precisamente nestas duas cidades que o Governo Português, a fechar o século, em plena década de 90, decide construir novos edifícios de representação diplomática.

Os projectos da Residência da Embaixada de Portugal em Brasília, de Ricardo Bak Gordon/ Carlos Vilela Lúcio e da Chancelaria e Residência da Embaixada de Portugal em Berlim, de Inês Lobo/ Pedro Domingos, resultaram de prémios em concursos lançados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e aguardam ainda a sua concretização. São duas casas, ou melhor, dois pequenos palácios, que reagem de forma similar à artificialidade “mental” das paisagens que os acolhem. Os seus autores compreenderam e intensificaram a tensão entre o tipo e paisagem urbana, o que justifica plenamente os prémios de concurso. Não se trata de uma tensão entre polos opostos, como é corrente encontrar no contexto contemporâneo, mas pelo contrário, uma tensão de polos com o mesmo sinal. Talvez resida aqui a especificidade destes projectos. Na base destas propostas está a génese in vitro de Brasília e Berlim, à qual se responde com o programa Chancelaria e/ ou Residência, enquanto representação, também in vitro, de uma identidade transportada para outro território.

A metodologia encontrada para responder a esta tensão parece ser a fixação de um fragmento de paisagem, aprisionado como parte integrante dos edifícios. Em ambos os casos esse fragmento gera um sentido de centralidade – de elemento gerador – relativamente à hierarquia funcional e expressiva dos espaços. Esse elemento gerador pode ser lido como uma “paisagem interior” no âmago da paisagem da cidade onde se inscrevem, seja o imaginário do trópico, seja a melancolia romântica do Tiergarten. No caso de Brasília essa “paisagem interior” está definida por volumes suspensos paralelos que a delimitam. No caso do edifício de Berlim o fragmento de paisagem está “elevado” e cobre parcialmente o espaço de trabalho da chancelaria, disponibilizando-se como jardim da residência, visualmente dominado pelas árvores de grande porte.

É apreensível o legado da modernidade em ambos os projectos. Pouco interessados numa ruptura com a tradição moderna – mas também distanciados da visão do moderno como um estilo – as duas equipas manipulam esse legado, posicionando-se num patamar de fim de século, que é por excelência um patamar de síntese. No projecto de Brasília a plasticidade que desafia e força a materialidade a uma nova leveza socorre-se da tradição moderna local, fazendo sobressair um sentido de aproximação entre estrutura e tipo, em prol de uma expressão mais escultórica que caracteriza o trabalho dos mestres brasileiros. Os volumes “aéreos” da Residência desafiam o peso da matéria tornando permeável a praça que a separa da Embaixada construída nos anos 70. No projecto de Berlim o embasamento pétreo, marcado por uma longa rampa e uma escada maciça, faz soltar os volumes translúcidos da residência que nele assentam. Estes volumes envolvem por sua vez elementos de madeira, que configuram o interior do espaço doméstico, claramente privilegiado relativamente ao espaço de trabalho. Esta tensão entre monumental e doméstico é intrínseca à arquitectura romântica de Schinkel, cujos edifícios pétreos e monumentais tinham a capacidade de integrar a elegância e graciosidade da Villa italiana.

É talvez esta dimensão de indagação conceptual aquela que mais diferencia estes projectos – mais do que o programa protocolar– de outros construídos ou projectados por arquitectos portugueses no exterior ao longo do século XX. Pedro Cid (Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Bruxelas de 1958) e Chorão Ramalho (Embaixada de Portugal em Brasília 1971-76) protagonizaram uma defesa moderna -“heróica”- concentrada no programa, reagindo a um imaginário figurativo e literal dos emblemas nacionais, que tinha caracterizado os pavilhões de Keil do Amaral em Paris em 1937 e de Jorge Segurado em Nova Iorque em 1939. Álvaro Siza reinventou com projectos de habitação, na década de oitenta e noventa, de forma dialéctica, em Haia e Berlim, a cultura arquitectónica de acolhimento, operando uma sequência original de sínteses expressivas e tipológicas, que se viria a revelar tutelar para as gerações mais jovens. Manuel Graça Dias e Egas José Vieira (Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Sevilha de 1992) trabalharam a contaminação cultural, superando de forma pioneira no contexto nacional, através da arquitectura, distinções entre “alta” e “baixa” cultura, propondo um edifício assemblage, até então pouco provável num país recém integrado na Comunidade Europeia e especialmente pouco disponível à heterodoxia. A contribuição de Ricardo Bak Gordon/ Carlos Vilela Lúcio e de Inês Lobo/ Pedro Domingos, a fechar o século, e com domínio panorâmico sobre as propostas anteriores, centra-se essencialmente na compreensão do programa proposto essencialmente enquanto fenómeno cultural, e daí a sua insistente carga conceptual.

Todos os projectos enumerados enfrentaram, inevitavelmente, um tema de arquitectura – pavilhão, casa ou palácio- configurado pelas repostas que a tradição histórica encontrou e que se fixaram como valores civilizacionais. Esse tema sobrepõe-se a qualquer especificidade funcional, e funciona como um écran onde se projecta o imaginário de uma época, feito de aspirações e limites. Os projectos de Brasília e Berlim inscrevem-se nessa tradição, que compreende e radicaliza o discurso sobre o tema, sem contudo preconizarem qualquer ruptura para com o extenso legado cultural da modernidade. São projectos que encontram a mesma disponibilidade para a cultura de chegada – uma espécie de Portugal in vitro - e para a cultura de acolhimento – um território estranho. Mesmo antes de serem construídos fundaram um acontecimento.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o JA - Jornal Arquitectos nº 212, Julho/ Agosto/ Setembro 2003.