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Castelo Rodrigo, Arquitectura da Traição


“A duração das obras é a sua capacidade de ser útil. Por isso é descontínua. Houve séculos em que Virgílio não serviu para nada. Porém tudo o que existiu e não pereceu tem amplas probabilidades de sobreviver.” Assim se referia Paul Valéry, nos “Apontamentos”, aos livros mortos que se voltam a agitar. A história da arquitectura ocidental, vasto território de paradoxos e contradições, conhece bem esta descontinuidade. É essa agitação que mais uma vez se volta a concretizar com o conjunto reactivado de Castelo Rodrigo. Durante séculos arquitectura emblema da traição de Cristóvão de Moura, favorável à dominação filipina, cujo palácio fortificado foi destruído depois de da rebelião de 1640, recebe hoje uma leitura arquitectónica que clarifica e disponibiliza a entidade construção/ paisagem ao visitante. Como documento patrimonial é certo, mas também como consequência de um percurso centrípeto desde o sopé até ao cimo, atravessando parte da aldeia e dos seus lugares de significância que contribuem para o entendimento do conjunto.

A valorização do Palácio do Marquês de Castelo Rodrigo é o resultado do trabalho de praticamente uma década, disperso por três fases, realizado pelos arquitectos João Rapagão e César Fernandes. Sem recorrer à mimese (causa) ou ao pitoresco (efeito) que observamos, por exemplo, na obra efectuada no edifício da Junta de Freguesia, cujo resultado é de grande fragilidade técnica e estética, a dupla parece ter procurado -antes de intervir- posicionar-se perante a questão do projecto de valorização. Os arquitectos trabalharam desde uma (aparente) invisibilidade do desenho que assume como consequência natural do devir deste conjunto arquitectónico. Por natural entenda-se aqui inevitável. Uma inevitabilidade do novo, da contemporaneidade, capaz de ser aceite, sem ruptura, no universo (natural e artificial em simultâneo) das rochas e respectivos paramentos de pedra da ruína. Todo este processo se desenrola sem perder a assunção do rigor metodológico objectivo, que acarreta consigo intenções de projecto assentes nos temas distância, percurso e materialidade. Para os clarificar, como intenções de projecto operativas, os arquitectos recorreram a uma dualidade dentro - fora, ou seja, uma dualidade entre espaços exteriores ao Palácio e espaços interiores, ainda que a descoberto, da ruína. João Rapagão e César Fernandes chegam mesmo a referir-se ao “espaço negativo” e “espaço positivo” da ruína, onde o primeiro “concorre com a resolução” do segundo. Estão assim reunidos os princípios conceptuais e metodológicos para enquadrar a intervenção.

Da (aparente) invisibilidade do projecto, estruturada desde uma economia de meios expressiva, resulta como primeiro momento um trilho sonoro, anunciador, em gravilha contida num conjunto de rampas, apoiadas por escadas em granito, ainda fora do Palácio, apontado à Porta do Sol, preparando a chegada e reactivando um antigo caminho, até à pouco ocupado por construções precárias, agora demolidas. Dilata-se a distância, física e perceptiva, recuperando um percurso apagado pelo tempo. Para quem ainda não chegou ao cimo são as escadas em granito apontadas ao céu, sem um sentido funcional evidente, a materialização anunciadora da intervenção. Estes elementos arquitectónicos não estão contudo expressos, ou nomeados como objectos, pelo contrário, recusam um carácter escultórico –esse é reservado para os objectos encontrados no local - e abraçam uma relação entre paisagem e percurso, eventualmente aprendida nas incursões ao lugar, onde todo o legado arquitectónico é de grande simplicidade construtiva e elementaridade formal.

No interior da ruína as texturas da gravilha cedem lugar ao granito amaciado, mais solene e com carácter de convite à permanência. Com estas lajes anunciam-se antigas disposições espaciais da arquitectura doméstica e beligerante, ainda com vestígios de paramentos de granito rasgados por vãos que permitem aferir a escala original do edifício. Encontram-se no interior as consequências das intenções de projecto concretizadas no exterior: tensão entre afloramentos rochosos e a abstracção da planta, agora materializada, que propicia um carácter de acolhimento, ao qual não foi alheia a instalação do Posto de Informação Turística junto à entrada. É uma caixa de vidro e aço, hoje a verdadeira arquitectura do acolhimento nas ruínas do palácio de Cristóvão de Moura. Implantada num recesso, é um objecto arquitectónico apreensível por todos os lados. A cobertura é dominada pela pavimentação da ruína numa área de grande domínio panorâmico sobre o território da raia. Os seus planos de vidro, a partir do interior, revelam outras arquitecturas domésticas encostadas à ruína, com uma escala afim, mas estabelecem uma relação privilegiada, mais uma vez, com a rocha e com a muralha. Surge como uma casa dentro casa, aquela que deve “servir a descoberta do que já existe”. Na verdade este conceito da “descoberta do que existe”, que Norberg-Schulz retira da obra do filósofo Martin Heidegger, e que coloca como “vocação da arquitectura” adquire centralidade máxima nesta intervenção. È que aos temas distância, percurso e materialidade subjaz um denominador comum, neste contexto carregado de irrepetibilidade. O Lugar.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para a revista "Arquitectura e Vida" nº 28, Junho de 2002.