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Aires Mateus: A Arquitectura como o Eterno Retorno


Inaugurou na passada quinta-feira no Centro Cultural de Belém uma exposição dedicada ao trabalho do escritório de arquitectura Aires Mateus e Associados. Não se trata de uma retrospectiva de carreira já que Manuel e Francisco Aires Mateus trabalham em associação desde 1988 e os trabalhos agora expostos centram-se na sua produção mais recente, onde a arquitectura doméstica se evidencia como o centro privilegiado da especulação conceptual. São cerca de dezena e meia de projectos, quase todos por construir ou em construção eminente, que revelam um modo intenso de pensar e fazer arquitectura.

A entrada na exposição remete-nos para o interior de uma casa palaciana, com uma sucessão de salas de paredes brancas e pavimento negro. Os vãos de porta e os corredores permitem uma leitura cruzada dos projectos, através de enfiamentos visuais, mas sobretudo uma digressão sobre os temas que fundam e estruturam esta arquitectura. Segue-se uma leitura possível dos mesmos.

Memória ou o apelo do passado

Manuel e Francisco Aires Mateus não operam rupturas sendo claro o seu fascínio por uma visão retrospectiva e pessoal da história da arquitectura. Esta apropriação da história serve-se do mundo arcaico e das grandes civilizações do passado, como a romana, devidamente filtradas pelo legado da cultura moderna e pós-moderna, ou seja, sem recurso directo a processos construtivos mas antes a princípios e valores de tipologia e espaço. É essa uma das chaves de leitura dos vários projectos de casas com destaque para casa em Alvalade (Alentejo) que serviu de matriz à montagem da exposição. Trata-se de uma Domus (a casa romana) - uma casa pátio (neste caso pátios) de vocação introspectiva onde todos os espaços possuem o mesmo valor hierárquico e se relacionam entre si através de espaços de corredor com proporções e dimensões de habitabilidade.

Limite

É um conceito sempre referido pelos autores quando interrogados sobre a sua aproximação conceptual aos projectos. O "limite" nestes trabalhos pode ser lido como um desinteresse pela transparência ou imaterialidade que o final do século XIX introduziu na arquitectura com a utilização extensiva do vidro, e que se tornou uma característica da arquitectura moderna. Na exposição a obra que melhor exemplifica este conceito - através de uma maqueta de grande dimensão - é o da casa em Alenquer. Trata-se de uma casa construída no interior de uma ruína - o limite - que utiliza as aberturas da mesma para de relacionar formal e visualmente com a paisagem envolvente. O branco envolve tudo, a ruína e a casa, transformando-as numa única entidade, gerando um espaço de grande singularidade que é desenhado por estas duas presenças físicas - algo que pode ser descrito como uma "espessura" habitável.

Espessura

A "espessura" no trabalho de Aires Mateus é uma consequência do fascínio pela massa e solidez das matérias que constróem a arquitectura. Os arquitectos nunca revelam o processo construtivo nas suas obras (o branco calibra tudo) mas, em contra partida, reforçam a presença das paredes duplicando-as com armários criando uma distinção precisa entre interior e exterior. Sem dúvida este tema protagoniza também um interesse pelo passado onde os espaços de janela podiam ser habitados com bancos (namoradeiras como lhe chamavam) mas também uma reacção à visão (redutora) da contemporaneidade que deseja expor tudo e tudo abarcar com o olhar. A casa no litoral Alentejano é um exemplo desta estratégia, construindo-se como um sólido branco perfurado por vãos de grande profundidade. Gravidade ou ausência de peso A estabilidade e a instabilidade convivem na casa em Brejos de Azeitão. A maqueta elevada permite-nos "entrar" dentro da obra e intuir como a será a realidade construída. São "alcovas" de expressão monolítica suspensas numa sala única num dispositivo formal que contraria quase todos os outros projectos da exposição. De facto este é o único que ilude o "aparente" peso da massa e o coloca "contra" as leis da gravidade que informam estruturalmente as casas e museus apresentados. Este tema volta a surgir no projecto do hotel para Dublin no modo como se eleva do solo desafiando a gravidade.

Condição artística, condição híbrida

É uma condição da arquitectura contemporânea a da hibridação com outras práticas artísticas. Na arquitectura de Aires Mateus são detectáveis referências formais e conceptuais à arte contemporânea. Na exposição, a maqueta do projecto de concurso para o Grande Museu do Cairo é apresentada como um pavimento abstracto que nos remete para as obras de Carl Andre o que dificulta a leitura de uma das características mais fortes do museu que é a da escavação das salas no deserto mantendo a linha de horizonte intacta. Outra das presenças detectáveis é a da escultora Rachel Whiteread no modo como á abordado o tema do molde, ou seja, no modo como é abordado o tema do negativo das formas. As maquetas do projecto para a Orquestra Metropolitana de Lisboa (em co-autoria com Gonçalo Byrne) revelam o processo. Contudo as analogias parecem resultar melhor quando se circunscrevem à própria arquitectura (à sua natureza, técnica e história).

Beleza

É um conceito banido do discurso crítico moderno, talvez pela sua subjectividade e associação ao passado pré-moderno. Mas é de facto a demanda pelo belo (associado ao interesse pelo sublime) que norteia o trabalho destes arquitectos. A redução de meios expressivos associada ao trabalho sobre a intensidade e variação da luz quer no interior, quer no exterior dos edifícios está sempre presente. Se a luz for entendida como um material então este é aquele que os arquitectos mais privilegiam. Na obra de Aires Mateus dificilmente se encontra a contaminação expressiva ou a especulação figurativa que caracteriza alguns dos nomes mais influentes da contemporaneidade. As referências mais importantes do trabalho agora mostrado - Álvaro Siza, Peter Zumthor, Alberto Campo Baeza - estão associadas à condição periférica que caracteriza o panorama português, suíço e espanhol. Mas isso não deve ser lido como um limitação, pelo contrário, é talvez a hipótese mais intensa de diversificar o debate internacional onde estes arquitectos entram subtilmente.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 15 de Outubro de 2005.