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Vítor Figueiredo: o Eclipse


“Levei uma vida de rapaz de café”. Esta foi a resposta de Marcel Duchamp quando lhe pediram um balanço da sua vida na década de 60. A afirmação gira em torno de uma ideia de artista, que preencheu no século XX um certo imaginário em torno do homem desalinhado relativamente ao poder instituído, capaz de transformar a sua própria vida em objecto e fundamento da obra. Podemos dizer que Vítor Figueiredo, o arquitecto e o homem, personifica, no contexto nacional, esta ideia, exaurida de romantismo (mas também de uma ideia clássica de vanguarda) e com um forte sentido de ironia. A arquitectura está lá, na própria vida, como está o arsenal de memórias e experiências acumuladas, cruzada com a literatura e o cinema, ou outra qualquer expressão artística. A desconcertante afirmação “não sou um homem apaixonado pela arquitectura”, proferida quando ganhou o Prémio Secil 1998, deve ser lida neste contexto.

Os seus primeiros projectos foram, quase exclusivamente, dedicados à habitação colectiva de custos controlados, chamada contrariamente à vontade do arquitecto de “habitação social”. Vítor Figueiredo afirmava nestes anos, coincidindo com Álvaro Siza, que toda a habitação é social. Corria a década de 60, e o seu escritório lisboeta recebia, mais por circunstância do que por vocação específica, uma série de encomendas para unidades de habitação em Lisboa (Olivais Sul), Barreiro, Benavente, Alcobaça, Torres Novas e Peniche. Caso a caso Vítor Figueiredo encontra um tema de projecto que lhe permite escapar da banalidade da produção massificada, para encontrar no desenho das casas, a tipologia, ou nas relações urbanas, um alento por forma a habitar criativamente. Não para criar singularidades, ou frívolos maneirismos formais, mas para permitir que a arquitectura, com a sua poética velada mas determinante e intencional, funcione como pano de fundo para vida.

Já nos anos 70 constrói um conjunto habitacional em Chelas que ficaria conhecido pelos “cinco dedos”. Trata-se provavelmente da primeira grande síntese do seu percurso, e também a passagem a uma realidade política e cultural distinta. A poucos anos do 25 de Abril, que iria abrir novos caminhos aos programas habitacionais com as Operações SAAL (o serviço de apoio ambulatório local que estabelecia uma relação privilegiada entre arquitecto e moradores) Vítor Figueiredo desenha um conjunto urbano que antecipa algumas destas aspirações e pressupostos conceptuais. São cinco edifícios lâmina radiais, de nove pisos, que partem de um centro invisível. Poderíamos também dizer que se trata do mesmo edifício repetido cinco vezes, acentuando a simplicidade de recursos (uma profunda economia de meios) e uma acutilância urbana que ainda hoje gera uma intensidade capaz de desafiar a pobreza arquitectónica da cidade contemporânea.

Da longa experiência de trabalho (duas décadas) em torno de limites e contigências culturais e orçamentais, emerge o recurso à repetição de elementos construtivos e a uma racionalização técnica e expressiva como estratégia pessoal. Recusando a multiplicidade de opções formais e tipológicas, a sua obra elege geralmente um tema, que é tratado na senda da síntese entre ossatura e pele, evidenciando as partes para consolidar o todo. De Vítor Figueiredo não se pode esperar uma continuidade ou apuramento de uma linguagem, porque para si não existe linguagem, antes uma reflexão desarmante sobre o limite dos pressupostos base de qualquer projecto. Foi isso que aconteceu com os seus projectos na década de 90, onde lhe foi finalmente possível experimentar hipóteses de projecto com programas “nobres”. Ao escritório do arquitecto desalinhado chegavam finalmente edifícios de forte representatividade social e cultural: os equipamentos universitários.

Com o Pólo da Mitra na Universidade de Évora e a Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, provavelmente os seus projectos mais importantes na década de 90, a sua obra parece encontrar a definição que Charles Baudelaire encontrou para a “modernidade”. O encontro (podemos dizer o choque) entre o efémero e o perene, entre o “aqui e agora” e a intemporalidade. São obras tão disponíveis para a tradição de não inovação da arquitectura arcaica, como para sofisticadas reflexões em torno da plasticidade de uma ossatura, presente em qualquer arquitectura. Em Évora a pele é trabalhada a partir das grelhas que filtram a luz , nas Caldas da Rainha a pele desaparece (será o próprio pinhal?) para ficar o esqueleto branco. Os lugares, que nunca foram uma condição determinante na sua obra, ao contrário da sua geração que defenderia um certo contextualismo (histórico, sociológico, tipológico) acabam por integrar estas arquitecturas e a partir delas trabalhar novos significados, desde o momento em que os edifícios são integrados no quotidiano daqueles que os habitam.

É difícil situar uma condição de pós modernidade na obra de Vítor Figueiredo, como é também difícil situar uma modernidade mais ortodoxa superada há muito, mesmo num país periférico como Portugal. O seu desinteresse pelo “espírito do tempo” coincide com a sua capacidade de o enfrentar. Na sua arquitectura como no cinema de Antonioni nada parece acontecer, mas tudo se movimenta numa permanente e tensa serenidade. Um eclipse.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para a Colecção "Arquitectos Portugueses Contemporâneos: Vítor Figueiredo", Lisboa 2004.