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Sobre a Baixa e a Praça do Comércio
O Ípsilon convidou o historiador Rui Tavares e o arquitecto Ricardo Carvalho para passear pela Baixa e discutir o que fazer ali. Debaixo das arcadas do Terreiro do Paço está uma exposição sobre como, com a visão do Marquês de Pombal, aquela zona da cidade foi reconstruída após o terramoto. Duzentos e cinquenta anos depois aceitam-se ideias. Imaginem-se no centro do mundo. Preparados? É daí que partimos. O centro do mundo chama-se Praça do Comércio, mas nós insistimos em chamar-lhe Terreiro do Paço, o nome que tinha na sua vida anterior, antes de tudo o que aqui existia ter desaparecido, engolido pelo terramoto de 1755, seguido por uma onda gigantesca e por centenas de incêndios. Vinte anos depois da tragédia, o rei D. José e o seu ministro Marquês de Pombal inauguravam a nova praça com uma impressionante encenação do seu poder. “Uma praça central é sempre uma espécie de centro do mundo, e na cerimónia de inauguração isso foi evidente”, conta o historiador Rui Tavares. “Foram feitos quatro carros alegóricos, cada um representando uma parte do mundo, e que partiam dos quatro cantos da praça. A Europa, a América, a Ásia e a África (as africanas, não sei porquê, vinham vestidas de espanholas) juntavam-se na estátua”. Às janelas, as pessoas assistiam – mas só do lado oriental da praça, porque o outro ainda não estava acabado e o Marquês mandara montar, no local onde devia estar o edifício, um cenário de madeira, perfeito mas vazio por trás. É aí que estamos – com Rui Tavares, autor de “O Pequeno Livro do Grande Terramoto”, e com o arquitecto e crítico de arquitectura do PÚBLICO Ricardo Carvalho –, num ambiente menos grandioso que o daquele dia, mas junto à mesma estátua, onde agora os turistas se fotografam e um mendigo luta com uns jornais que o vento teima em levantar. “Toda a lógica da Baixa traz os turistas até aqui”, diz Rui Tavares, apontando em volta. “As pessoas descem do Rossio, mas chegam aqui e o que é que têm? Nada”. Os turistas vagueiam, olham para o rio, para as fachadas dos edifícios de ambos os lados da praça, ocupados por ministérios, ensaiam alguns passos numa direcção, depois noutra, sentam-se a descansar nos bancos de pedra, e fazem-se fotografar, de cabeça ligeiramente inclinada e sorriso, junto à estátua de D. José. Mas, como nota, Rui Tavares, parecem ligeiramente desorientados, como quem se pergunta: e agora, o que fazer numa praça tão grandiosa? Quando reconstruíram a Baixa depois do terramoto – e o pretexto para este passeio é a exposição “Lisboa 1758, o plano da Baixa hoje”, que pode ser vista até 1 de Novembro no Pátio da Galé, no Terreiro do Paço – D. José e o Marquês de Pombal queriam precisamente que os estrangeiros ficassem boquiabertos. Mas talvez não exactamente desta forma. “Esta arquitectura afirma um poder, uma elegância, uma maneira de estar no mundo”, concorda Ricardo Carvalho. “O problema é que os portugueses contemporâneos têm o horror do vazio. E uma das chaves para se compreender este espaço é o seu despojamento. Ele não precisa de nada. O grande falhanço desta praça foi durante gerações ter-se tentado apropriar um espaço que não é apropriável”. Aponta para um quiosque, na direcção do rio. “A presença de quiosques ou coisas do género nunca vai conseguir fazer nada porque a força desta praça é a de um espaço vazio”. Mas, entenda-se, estamos a falar da placa central. O mesmo não se aplica às arcadas que nos rodeiam. Ricardo Carvalho lembra um projecto feito nos anos 90 pelos arquitectos José Adrião e Pedro Pacheco, que “propunha precisamente a apropriação, para toda a gente, dos dois claustros que existem por detrás destes dois corpos”. Nos primeiros andares dos edifícios podia manter-se a ocupação que existe hoje com os ministérios, mas no piso térreo “seria importantíssimo mostrar às pessoas que existem estes claustros”. Depois, continua o arquitecto, podiam-se “estabelecer conexões, ligando, por dentro, a Praça do Comércio ao Campo das Cebolas, de um lado, e do outro, até ao Cais do Sodré”. Isto, sublinha, “é a verdadeira obra pública que se pode fazer: continuar a oferecer espaço público, ‘atacado’ pelo comércio, esplanadas, eventualmente galerias municipais”. E no centro da praça, “não façam nada, deixem-na vazia, deixem que as pessoas se apropriem dela como quiserem”. O arco e a flecha Momentos antes ainda estávamos sentados numa das duas únicas esplanadas existentes no Terreiro do Paço, a do Martinho da Arcada, e Rui Tavares explicava porque é que acredita que “se resolvermos a Praça do Comércio, o resto da Baixa resolver-se-á por contágio”. “Isto é como um arco e uma flecha, o arco é a margem do Tejo, que em tempos era cheia de reentrâncias, baías, ribeiras, pontes, moinhos de marés, e a flecha é o vale da Baixa, que sobe pela Avenida da Liberdade até ao Parque Eduardo VII”. Aqui é, portanto, o ponto de intercepção dos dois grandes eixos da cidade. O historiador propõe que recuemos no tempo para perceber porque é que esta praça, e toda a zona ribeirinha para Ocidente, eram tão importantes para o rei. “Quando o comércio internacional começa a ganhar mais relevância para Lisboa, os barcos entram todos por aqui, vindos de Belém”. O regime queria mostrar-se no seu melhor, o que explica o desequilíbrio, que se mantém até hoje, entre as partes ocidental e oriental da cidade. A Baixa, intervém Ricardo Carvalho, “ainda é uma charneira entre estas duas partes da cidade bastante difíceis de conciliar”. Isso vê-se, por exemplo, nos transportes – é mais difícil circular na cidade paralelamente à zona ribeirinha. É verdade que, no final dos anos 90, a Expo pretendeu corrigir algum desse desequilíbrio, mas o arquitecto tem dúvidas “sobre o sucesso dessa operação em criar uma bipolaridade”. Ambos concordam que as duas metades da cidade continuam um pouco descosidas. “A tensão no arco devia ser bastante maior”, diz Rui Tavares. Mas tem sugestões concretas para isso. Primeiro vamos àquela que é a sua grande proposta: no braço ocidental do Terreiro do Paço deveria ser instalada uma Biblioteca – e escrevemo-la assim, com maiúscula, para que se perceba que a ideia é que esta seja a grande biblioteca pública da cidade. Rui Tavares garante que não está a inventar nada. “Metade disto está resolvido há 230 anos”. Ali – aponta – o Marquês de Pombal e o D. José queriam fazer uma biblioteca. Era, aliás, o mesmo local onde antes do terramoto estivera a famosa biblioteca de D. João V. Do outro lado – e volta-se para oriente – um museu. Esta segunda ideia é “uma meia invenção”, admite. “Mas é geralmente o que existe em praças reais”. Aqui, insiste, não se pode pensar em pequeno. “Não é um museu para ter 50 mil visitantes por ano, é para ter 200 mil, 300 mil, 500 mil. O Governo tem que tomar aqui uma opção fortíssima, simbólica”. Com a biblioteca, com espaço internet, aberta até à noite, o Terreiro do Paço teria sempre por ali entre 500 e mil pessoas, garante. E isso atrairia naturalmente comércio, cafés, esplanadas. Não que seja essa a principal vocação da praça. Que o nome não seja fonte de confusão. “A praça chama-se do comércio porque foi paga pelos comerciantes, não porque se destinasse ao comércio”. E convida-nos a observar com mais atenção o baixo-relevo na estátua. “Vemos aqui a cidade pós-terramoto, em baixo à esquerda, desfalecida, a ser levantada pela coroa. Aquele herói, uma espécie de semideus clássico, eu diria que é uma metáfora do administrador do reino, o Pombal. E à direita está o comércio a oferecer dinheiro para a reconstrução”.
Percurso de barco pelo Tejo Voltando à proposta do eixo biblioteca-museu, Rui Tavares pensou ainda numa forma “coser” melhor as duas metades da cidade: um percurso de barco, que levaria as pessoas da Expo até Belém, com um triplo bilhete para museus, que poderia ser o do Terreiro do Paço, o do Oriente ou da Electricidade, e o Museu Berardo. Estamos ainda junto da estátua e a conversa centra-se na imagem que uma cidade quer dar de si própria. Vivemos um momento determinante, afirma Ricardo Carvalho. “Lisboa beneficiou muito tempo de um ambiente fortíssimo, completamente original, que tem a ver com uma ideia de melancolia, de abandono, mas hoje estamos no limite da sua capacidade de atractividade”. É por isso que “já não é possível não operar programaticamente na cidade”, já não é possível, como aconteceu nos últimos 20 anos, “continuar a viver de ideias bem intencionadas mas avulsas”. É particularmente crítico daquilo que descreve como “atitudes de pura artificialidade”, das “mais epidérmicas, como a animação de rua, que é grotesca” até outras como “a recuperação de fachadas, que é uma solução de atenção ao pormenor e não ao essencial”. A ideia que defende para a Baixa passa por lhe atribuir “um carácter de bairro” – o que significa coisas tão simples como escolas e supermercados. “É possível ou não uma pessoa viver aqui tendo carro, ir às compras ao supermercado, é possível as pessoas terem filhos e sítio para os deixar, escolas? É possível ou não existir um desejo de contemporaneidade e transformação das casas que permita às pessoas viver com parâmetros de conforto?”. O arquitecto dá, ele mesmo, a resposta: não. “Não há supermercados, não há escolas, não há um perfil para o consumo”. E uma cidade faz-se também dessas coisas, da “atribuição de uma naturalidade aos sítios”. Não precisamos, diz, “de pessoas disfarçadas de bobos medievais para sentirmos a cidade mais humanizada”. Fomos andando e já estamos debaixo das arcadas do lado ocidental. Passamos por um restaurante (o único da praça, para além do Martinho da Arcada), com uma esplanada, depois pelo Lisboa Welcome Center, e finalmente pelos antigos Correios. No meio deles a porta de entrada para um dos ministérios que ali funcionam. Rui Tavares indigna-se, perante o olhar surpreendido do guarda que está à porta. “Ter os ministérios aqui é um roubo. Não podemos entrar em algum do nosso melhor património. Eu, que sou historiador e especialista em Pombal, a primeira vez que vi alguns destes claustros foi no filme da Maria de Medeiros [“Capitães de Abril”]. Mas acho que um dos maiores erros que se pode cometer aqui é substituí-los por hotéis de charme. Isso seria tirar de lá aqueles que, apesar de tudo, são os nossos representantes eleitos, e substituí-los pelos que têm dinheiro para ir para um hotel de charme”. Antes de discutir a saída dos ministérios, pelo menos das partes térreas, o historiador acha que se deve começar por aproveitar os espaços já disponíveis: “Eu começava por tirar dali os Correios, o Welcome Center pode estar noutro sítio qualquer da Baixa e o espaço onde está actualmente a exposição [sobre o terramoto] também está habitualmente vazio. Já há muitas centenas de metros quadrados livres”.
Um cenário de fachadas A conversa volta a centrar-se no tipo de comércio que existe actualmente na Baixa e que é, na opinião de Ricardo Carvalho, um problema. “São lojas que nos colocam num tempo que já não é o nosso, e que sobrevivem graças a um sistema de rendas que ainda tem alguns resquícios e que não permite que o comércio se renove”. Mas é evidente que o comércio não se instala onde não há pessoas e, embora neste momento em que atravessamos o arco da Rua Augusta nos encontremos perante uma pequena multidão, sobretudo de turistas, sabemos que a Baixa continua a ter muito poucos habitantes – atrair moradores é, aliás, uma das prioridades já anunciadas pelo vereador do Urbanismo da Câmara, o arquitecto Manuel Salgado. É preciso fazer obras nas casas, defende Ricardo Carvalho. “O princípio da arquitectura pombalina é de enorme flexibilidade. Hoje existe uma enorme preocupação com o que fazemos dentro dessa estrutura pombalina. É óbvio que os edifícios não podem cair, mas as casas têm que ser transformadas no interior. Enquanto isso não acontecer será muito difícil chamar para aqui as novas famílias. Se não encontram o mesmo tipo de conforto que têm noutras zonas da cidade, então não virão”. Ambos concordam que apontar apenas para a classe alta não faz sentido, a Baixa tem que ter uma ocupação heterogénea. “Se o Pombal chegasse aqui ficava chocado por ver que os poderes públicos não têm mão na Baixa”, acredita Rui Tavares. “É inadmissível ter o Rossio sem habitantes. E não é por causa do congelamento das rendas, porque se os prédios estão vazios não há inquilinos, portanto as rendas não estão congeladas. Se não querem alugar porque não têm dinheiro para fazer obras, então vendam. O problema é que as casas ou não estão à venda ou estão a preços impossíveis. É preciso obrigar o mercado das casas de habitação a funcionar”. A situação é particularmente grave no Rossio – onde acabamos de chegar, depois de percorrida a Rua do Ouro. Olhamos os edifícios em volta, desabitados, e é Ricardo Carvalho que lança a pergunta óbvia: “Como é que o sítio mais qualificado de Lisboa é ao mesmo tempo um sítio de abandono e esquecimento? Com um desenho de cidade absolutamente de excelência, um espaço público consolidado, no coração da cidade, o que é que pode faltar para que isto comece de facto a ser uma cidade?”. O Teatro Nacional D. Maria está ali à nossa frente. E, à volta dele, as fachadas do Rossio fazem lembrar um enorme cenário de teatro em tamanho natural. O arquitecto lamenta que assim seja: “Se uma cidade recupera fachadas e deixa que os edifícios apodreçam e morram por detrás delas, então estamos numa encenação”. Como quando o Marquês mandou construir um cenário de madeira perfeito na Praça do Comércio, no dia da inauguração da estátua. O dia em que a praça foi o centro do mundo. Texto escrito por Alexandra Prado Coelho para o Jornal Público, suplemento Ipsilon, 29 Agosto de 2008. |
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