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Carrilho da Graça conversa com Ricardo Carvalho


No final dos anos oitenta o remate da licenciatura em arquitectura em Lisboa, no Convento de S. Francisco ao Chiado, esteve associado a dois professores da mesma geração: Manuel Graça Dias e João Luís Carrilho da Graça. Embora nenhum deles ensine já nessa escola, as obras que, desde então, têm construido, permitiram-lhes um reconhecimento fora do mundo académico. Carrilho da Graça iniciou uma carreira internacional com a vitória recente num concurso para um equipamento cultural em Poitiers, França, embora quase todos os seus edifícios  tenham sido publicados nas revistas europeias na última década.

Com escritório próprio desde o final nos anos setenta, logo após a licenciatura em 1977, tem orientado o seu trabalho predominantemente à escala do edifício público. Os primeiros no Alto Alentejo, de onde é natural – nasceu em Portalegre em 1952. Das Piscinas de Campo Maior (1990) – hoje impunemente maltratadas e adulteradas - até à Escola Superior de Comunicação Social em Lisboa (1993) o seu primeiro projecto de grande visibilidade, trabalhou os edifícios como objectos abstractos, críticos relativamente aos programas que albergam, com resultados especialmente sedutores na sua plasticidade proto-modernista. Mais recentemente construiu o Pavilhão do Conhecimento dos Mares na Expo 98, que constituia, a par do Pavilhão de Portugal, a experiência espacial mais interessante da exposição ao nível do objecto arquitectónico. Com uma obra nova prestes a ser acabada, o Centro de Documentação do Palácio de Belém, João Luís Carrilho da Graça falou ao Público sobre os temas que orientam a sua obra hoje.

Em que é que  difere conceber um edifício de equipamento que a maior parte das pessoas não vão ver ou experimentar, como é o caso daquele que está a acabar no Palácio de Belém neste momento?

JLCG – Espero que várias pessoas o visitem como acontece com o Palácio de Belém. Não está assim tão escondido, há sempre imagens que passam.

Terá a sua concepção refletido essa característica? 

JLCG – O edifício não tem de facto uma presença urbana muito directa. Penso, relativamente à construção e à arquitectura, que é tão importante o que se vê como aquilo que se adivinha. Ou ainda aquilo que progressivamente o tempo faz aparecer. Muitas vezes existem projectos que não são sensacionais, não causam grande impacto, mas com o passar do tempo se comportam de uma maneira cada vez mais interessante.

Lembro-me de um texto da Marguerite Yourcenar, um pouco enigmático, sobre a Andaluzia, em que se refere à arquitectura islâmica e sua relação directa com o tempo. Ali tudo está emerso num devir cíclico. E quando visitamos a Alhambra de Granada, por exemplo, percebemos de facto que nessa cultura está tudo sempre em “construção”.

Voltando ao seu edifício. Este assenta numa ideia de “visibilidade” relativamente ao Palácio de Belém que resulta inesperada quando confrontado com a sua “invisibilidade” para a cidade.

JLCG – É um visível bastante invisível, porque no fundo se estrutura a partir de um relvado, um jardim. O seu remate é um corpo paralelo à fachada principal do Palácio. Este tipo de relações que parecem escondidas são facilmente apreensíveis no lugar. Quisemos construir uma hipótese de harmonia que já lá estava.

Afirmou numa entrevista, há uns anos, que o que lhe interessa na vanguarda é a sua dimensão de radicalidade. Posiciona-se aí?

JLCG – Sim. Um dos aspectos que justifica a permanência de interesse na obra de Mies van der Rohe, que atravessou de uma maneira brilhante todo o século XX, é o seu pressuposto de radicalidade. Entendo radicalidade como o acto de simplificar o mais possível o processo de invenção da arquitectura. Isto não quer dizer que as obras resultem simplistas, é sim uma forma de ganhar economia expressiva, produzindo objectos, embora complexos, racionalizáveis e compreensíveis. Gosto de sentir  com os meus projectos que cheguei a um ponto muito avançado de racionalidade, relativamente aos sistemas, clima, memória, história, e a todas as questões permanentes que se colocam a um edifício.

A “estranha leveza” do seu trabalho, apontada por Gonçalo Byrne, parece ceder agora ao valor da massa. Veja-se o Pavilhão do Conhecimento dos Mares e o novo Centro de Documentação em Belém. Um comentário.

JLCG – Um artista chamado Carlos Figueiredo envolveu numa capa de cera uma tábua. Gosto de sentir que existe uma massa forte lá dentro e depois um material mais delicado, mais frágil, que o envolve, deixando entrever aquela presença muito forte no interior. Este tipo de reflexões relativamente à percepção da matéria interessam-me bastante, relações de peso e leveza, massa e superfície, conteúdo e continente. Falo destes exercícios em relação à percepção e gosto de levar estas impressões para os projectos, mas não sei até que ponto isto é fundamental.

A arquitectura contemporânea parece estar assente numa enorme fragilidade, incapaz de lidar com usos massificados e ambições de perenidade. Concorda?

JLCG – Não concordo. A maior fragilidade da arquitectura contemporânea relaciona-se com o facto do sistema de produção estar cada vez mais distante dos arquitectos. Estes funcionam hoje como os médicos. Receitam medicamentos padronizados produzidos por multinacionais. Na construção civil acontece o mesmo. Se analisarmos edifícios de Frank Ghery ou Rem Koolhaas, verificamos que a maioria dos materiais utilizados são coincidentes. Quer se construam na Ásia ou na América ou até em Portugal. Os arquitectos estão limitados a escolher estes materiais. Por outro lado nas escolas de arquitectura os estudantes recebem uma formação frágil nos aspectos tecnológicos, e os profissionais associados em Ordens também não se preocupam muito com estes aspectos. Tudo vai reduzindo os arquitectos a uma espécie de estilistas da construção civil.

Apesar de tudo isto penso que a arquitectura nunca foi tão discutida  como hoje. A sociedade espera muito da arquitectura, os arquitectos é que muitas vezes não tem hipóteses de responder a essas expectativas!

O Movimento Moderno parece ser ainda a sua maior influência ao nível da expressão. Que arquitectura lhe interessa hoje?

JLCG – Vejo o Movimento Moderno como um periodo heróico, marcado por personagens muito fortes. Foi o início de um processo de libertação. É difícil abdicar dessas conquistas, embora para mim esteja tudo em aberto. Interessam-me várias arquitecturas, portuguesas e estrangeiras. De Herzog & de Meuron a Peter Zumthor, entre muitos outros.

Olhando para a parede do seu escritório vê-se uma frase de Schiller, (mais) um filósofo que distinguia arte da arquitectura. Essa distinção para si não é assim tão rígida.

JLCG – Penso que a arquitectura só faz sentido se for uma arte. Chamamos arquitectura aquilo que consegue obter um conjunto de valores que são semelhantes aos de qualquer outra prática artística. O trabalho do arquitecto ultrapassa o peso da matéria com que se constrói.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o Jornal Público, suplemento Mil-Folhas, 09 Março 2002.