Depois dos lugares óbvios carregados de turistas, procuramos numa cidade os novos lugares que não se repetem em nenhuma outra. Não há monumentos, não vêm ainda em guias. São lugares que as cidades tomam, conquistam e transformam de um modo espontâneo. Juntam pessoas e novas economias e reflectem novos hábitos sociais, geralmente mais abertos. Esses lugares convocam a arquitectura na sua dimensão mais experimental e fixam qualidades a baixo custo. Existirá em Lisboa um processo de gentrificação?
Foi assim em Brooklyn, quando os mais novos procuraram fora de Manhattan espaços sem preços estratosféricos. Foi assim, no Leste de Londres, em Shoreditch. Mas também no centro de Madrid, Chueca, ou Berlim, Prenzlauer Berg. Estes fenómenos não estão monitorizados pelo planeamento. Poder-se-ia dizer que são dinâmicas que partem de uma minoria. O loft nova-iorquino começou com espaços apropriados por artistas e acabou como emblema balofo da especulação imobiliária. Em Lisboa é incerto se podemos localizar estes processos, porque as dinâmicas são de uma lentidão exasperante. Por um motivo. Passámos de uma cidade em espera para uma suburbanizada que reproduz modelos já conhecidos e de intensidade duvidosa. E também porque os jovens vivem fora, nessa Grande Lisboa, o lugar onde tudo acontece.
Não há acordo sobre os processos de gentrificação. Não há acordo sobre a legitimidade de falar em gentrificação no Bairro Alto, talvez o único bairro que acusa traços deste fenómeno. Mas é unânime a lentidão do processo de transformação de vários bairros da capital que esperam novos habitantes. Xabregas, Poço do Bispo e Alcântara passam de lugares em espera, carregados de potencial, para prometidos empreendimentos semelhantes à Expo-98. A LX Factory está a prazo, enquanto se aguarda a construção de um novo bairro. Lisboa possui afinal outro tipo de gentrificação. Está aí alguém?
Texto escrito por Ricardo Carvalho para o jornal Público, 05 de Março 2010.