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Ode Marítima em Aço e Vidro

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Pragmatismo Cálido


Escolas, hotéis, casas, museus, mais casas e um ginásio. São dez escritórios de arquitectura, de arquitectos nascidos na década de 70, que mostram um panorama catalão (que inclui Palma de Maiorca) depois do sucesso das operações urbanas que colocaram Barcelona no mapa internacional da arquitectura dita de autor. A exposição Matéria Sensível que foi inaugurada em Lisboa, na sexta-feira, comissariada por três arquitectos catalães - Pere Bui, Carlos Cámara e Joan Vitòria -, mostra o trabalho de uma geração, através de um espectro largo de escolhas programáticas, mas também de uma atitude muito crítica relativamente ao delírio visual dos anos 1990 e da década passada.

A figura do arquitecto na Catalunha, tal como no resto de Espanha, ganhou uma solidez invejável, desde a década de 80. A arquitectura faz-se sentir na sua multiplicidade de possibilidades em todo o território catalão - e por isso o panorama dos mais jovens é também singular porque a construção de obras começa cedo. A exposição mostra obras públicas e privadas fora da cidade de Barcelona. São obras que, tirando partido da oportunidade de investigação que qualquer projecto permite, lidam com encomendas convencionais e tiram partido desse trabalho com o quotidiano. A singularidade não está no trabalho sobre o programa, está no modo e na atitude face à construção.

A existir um denominador comum - ténue, porque os interesses e o tipo de abordagem variam - será precisamente o fascínio pelos processos construtivos e pela sua conceptualização. Mas também um regresso à ideia, um pouco forçada, de que a formalização e o resultado expressivo de um projecto provêm principalmente de opções construtivas. Um olhar pelas fotografias das obras revela uma femenologia dos materiais. São novas conjugações ou encontros inesperados entre sistemas construtivos - é raro surgirem materiais de revestimento e comum a opção pela madeira, betão ou tijolo à vista. Em várias obras se provoca o encontro entre sistemas banais de construção com a sua exaltação no espaço. Pela sua temperatura, pela sua qualidade ao tacto, pela sua calidez e amabilidade, na generalidade estas obras parecem resultar em espaços cálidos onde a tensão está ausente. Os enunciados dos projectos são invariavelmente lógicos e os espaços fruto de uma organização racional e pragmática. O investimento está na possibilidade dos materiais poderem comportar significados inesperados.

Dos vários projectos podemos destacar o Hotel Aire de Bardenas, Tudela, Navarra, de López + Rivera que se constrói para um cliente que não tinha experiência hoteleira e por isso estava disponível para desmontar os preconceitos que esta indústria possui. O resultado é um sistema disperso de unidades de quarto - como casas que olham a paisagem por uma alcova - que se construíram com recurso a sistemas prefabricados de baixo custo. O projecto é agora estudado como estudo de caso para operações similares. Ou o ginásio de uma escola secundária do escritório Harquitectes, em Barberà del Vallès, Catalunha, onde os arquitectos recorrem à estrutura de madeira para definir as proporções do espaço, que depois se envolve e protege com materiais inesperados como a rede e perfis metálicos. Os balneários do ginásio, por sua vez, formalizam-se de um modo totalmente diferente - porque as necessidades são outras. Este pragmatismo desconcertante resulta numa obra complexa em termos perceptivos, mas radicalmente simples e lógico na sua espacialidade.

Também em Maiorca se encontram obras inesperadas como o atelier de um pintor, no meio de uma propriedade semi-rural, do arquitecto Francisco Cifuentes, que se materializa como dois espaços - duas salas em tijolo que olham uma para a outra envoltas por uma horta. Também na ilha de Palma o escritório Ted está a construir um museu arqueológico, o museu Molinar em Montuiri, que funciona como uma parede de contenção da aldeia e na sua cobertura é oferecida a praça que a comunidade nunca teve.

Das vinte obras seleccionadas emerge um panorama alternativo para a arquitectura catalã - muito distante das propostas e obras que associávamos a Barcelona. Das conferências que acompanharam a exposição saiu também uma constatação. A mudança de paradigma, não apenas pela crise económica que tem ainda consequências imprevisíveis, mas por uma necessidade disciplinar de recentrar a arquitectura no quotidiano com lógicas de baixo custo. Pragmatismo cálido.

Texto escrito por Ricardo Carvalho para o Jornal Público, suplemento P2, 21 de Junho 2010.