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Hong Kong Juke Box


Já não se pode aterrar em Hong Kong. O velho aeroporto Kai Tak, implantado na cidade deu lugar a um outro, contemporâneo e sofisticado, mas distante do conjunto denso de adições, acumulações, sobreposições arbitrárias que tornam este lugar irrepetível. Os aviões ainda faziam razias aos edifícios, e sombras prolongadas pelas ruas, quando Wong Kar Wai filmou "Fallen Angels", e também "Chungking Express", onde hospedeiras e pretendentes sonhavam com a Califórnia ao som dos Mamas & the Papas. Mas "Chungking Express", embora marcado pela ideia de partida voluntária, é diurno, solar, na medida em que a cidade o pode ser, velada por neblina e smog. "Fallen Angels", o filme sobre Hong Kong escolhido para este ciclo, é nocturno, espectral, captado em trânsito num instante fluído, marcado pela claustrofobia de "Speak My Language" de Laurie Anderson.

Era inevitável que o cruzamento das personagens de "Fallen Angels" se desse sob a luz artificial e a amálgama de texturas dos cabeleireiros, bares, hotéis e túneis de Hong Kong. As casas assemelham-se a recantos de estações, as lojas a quartos de hotel, não hotéis de cadeias internacionais, mas Love Hotels. A distorção intencional sobre pessoas e espaços, no olhar de Wong Kar Wai, trata da fluidez absoluta entre público e privado nesta cidade. Trata também e principalmente da proximidade física entre os que caminham e eventualmente se encontram. Estamos com as personagens e por isso o olhar da câmara está distorcido. A dimensão espectral destes anjos é um prolongamento desses lugares, sem memória, sem intenção de a criar, em suspensão. Rem Koolhaas refere-se à megalópolis contemporânea nestes termos: "O espaço lixo está para além da geometria, além dos traçados. Como não pode captar-se, o espaço lixo não se pode recordar". É no espaço lixo que encontramos estes anjos urbanos.

As luzes coloridas do néon e o arrasto dos seus artifícios sublinham, exaltam mesmo, o desgaste do "princípio de realidade" das metrópoles contemporâneas. Trata-se de uma pluralidade feita de justaposição, densidade, banalidade e consumo. No caso de "Fallen Angels" é tudo exponenciado pelo olhar do realizador, e pelas vozes Off que substituem os diálogos, por forma a que essa realidade ganhe contornos expressivos que não possui. As "Chungking Mansions" onde foi rodado grande parte do filme, são talvez o melhor exemplo da carga poética em bruto de um lugar, desvelada através do cinema. É um edifício-cidade, que não sofre alterações de temperatura no interior, onde não existe dia ou noite. É um labirinto de lojas e hotéis, onde habitam emigrantes ilegais e ocorrem transações ilícitas, por entre o bulício de comércio retalhista. Tudo isto na principal avenida de Kowloon (parte continental de Hong Kong) ao lado das grandes corporações e hotéis desenhados por arquitectos internacionais. Aqui onde se substituiu a hierarquia pela acumulação, as personagens de "Fallen Angels" já não estão sujeitas, também, a qualquer hierarquia. Parecem existir, como os espaços onde habitam, libertas desse princípio de realidade que prende quase todos os outros. São assassinos amantes, que colocam moedas numa Juke Box - Now that the living outnumber the dead canta Laurie Anderson - um pequeno ladrão que se recusa a falar mas ouve todos os que estão à sua volta e uma rapariga ruiva de profissão ambígua, entre outros. Tudo com muita TV e cigarros. Noutro contexto Gianni Vatimo observava: "viver neste mundo múltiplo significa fazer a experiência da liberdade como oscilação contínua entre pertença e desenraizamento."

Texto escrito por Ricardo Carvalho sobre o filme FALLEN ANGELS de Wong Kar Wai para a folha de sala do ciclo de Cinema e Arquitectura "As Cidades, As Casas e as Paisagens" no Cine 222 de Lisboa.